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ACESSIBILIDADE

Projeto de extensão cria aplicativo de rotas acessíveis na UFMS

Aplicativo pretende auxiliar na mobilidade de pessoas com deficiência dentro do câmpus

Caroline Carvalho e Hélio Lima, de Campo Grande31/10/2017 - 07h57
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O Projeto de Extensão "Tecnologias de Acessibilidade no Câmpus da UFMS”, coordenado pela professora do curso de Arquitetura e Urbanismo, Eliane Guaraldo desenvolverá um aplicativo para dispositivos móveis de rotas acessíveis na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). A ferramenta pretende melhorar a acessibilidade de todos na Universidade e em especial irá disponibilizar as melhores rotas para pessoas com deficiência se locomoverem dentro do câmpus. O lançamento oficial está previsto para o dia 6 de novembro, na abertura do evento Integra UFMS

De acordo com a coordenadora Eliane Guaraldo, o programa pretende suprir as falhas de outros aplicativos de localização que, em geral, não contemplam todas as rotas dentro da Universidade, e não oferecem recursos específicos para pessoas com deficiência visual e auditiva. No aplicativo desenvolvido pelo projeto de extensão, o usuário poderá declarar se possui algum tipo de deficiência e o serviço irá definir a rota mais adequada que reúna equipamentos acessíveis, como rampa e piso tátil. Segundo a chefe da Divisão de Acessibilidade e Ações Afirmativas (Diaaf), Mirella Villa Fonseca aproximadamente 380 alunos da Universidade possuem algum tipo de deficiência.  

Adauto Ferreira Neto, desenvolvedor do aplicativo(Foto: Hélio Lima) 

O grupo de extensão criou um questionário virtual para diagnóstico prévio das necessidades dos usuários, sejam eles acadêmicos, professores, técnicos ou visitantes da universidade, com ou sem deficiência. As perguntas abordam questões como a frequência na Universidade, portão de entrada mais utilizado, local de destino, meios de locomoção, dificuldades no trajeto, nível de dificuldade para usar aplicativos de locomoção, como o Google Maps, entre outras. O estudante de Engenharia da Computação e desenvolvedor do aplicativo, Adauto Ferreira Neto explica que a proposta inicial era construir um mapa tátil para pessoas com deficiência visual. "É um mapa em alto relevo que dispõe de alguns botões, algumas interfaces para comunicar com a pessoa que está manuseando ele. Só que ele é um objeto, e ele é caro e a universidade não tem muitos recursos para disponibilizar. Então o que que a gente pensou? A gente pode passar toda a funcionalidade do mapa tátil para dentro de um aplicativo, já que hoje a maioria tem acesso ao celular".

Mapa da UFMS utilizado para desenvolviment do aplicativo (Imagem: Divulgação) 

Pessoas com deficiência foram previamente consultadas pelo grupo do projeto de extensão para que apresentassem quais as suas necessidades e dificuldades que o aplicativo deve amparar. De acordo com Adauto Neto, os acadêmicos do projeto se reuniram diversas vezes com representantes do Instituto Sul-mato-grossense para Cegos Florivaldo Vargas (Ismac), para readequar os recursos disponibilizados na plataforma digital para a comunidade que possui deficiência visual. 

O ex-estudante de Jornalismo, Paulo Sérgio Moreno de Jesus, que é deficiciente físico, relata que teve  dificuldades para locomoção enquanto estava na Universidade. "A sala de informática, por exemplo, eu tinha uma dificuldade muito grande, eu enfrentei uma barreira enorme porque eu não tinha acesso. Quando eu ia para a prova prática eu ia muito mal. Agora, o erro está em mim? Eu me culpo pela minha deficiência? Não, deficiente é a instituição. A instituição sim, ela é deficiente neste aspecto porque ela não está preparada para receber um perfil de aluno com alguma especificidade". 

De acordo com Paulo, rampa que dá acesso aos bancos não é segura 
(Foto: Caroline Carvalho)

De acordo com Paulo Sérgio de Jesus, várias rampas construídas na UFMS não foram projetadas de acordo com a Norma Brasileira de Acessibilidade a Edificações, Mobiliário, Espaços e Equipamentos Urbanos (NBR 9050) publicada pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), e que, por serem muito inclinadas ou estreitas, dificultam ou impossibilitam a passagem da cadeira de rodas. "Para o acesso a esse novo auditório [da Faculdade de Artes, Letras e Comunicação (Faalc)], havia uma rampa absolutamente estreita, absolutamente curta, portanto de uma inclinação, que toda vez que eu tinha que passar por ela, eu tinha que pedir ajuda porque ela estava para derrubar o cadeirante. E sem se falar também que toda vez que um cadeirante é ajudado por quatro, ele passa por um constrangimento".

Para o servidor Jeremias Sobrinho, que é deficiente visual, as dificuldades de deslocamento dentro da Universidade existem para todos. "Talvez tivesse faltando placas em braile para nos localizar. Mas isso não existe nem para vocês, né? Se você for uma estudante de fora, você não consegue encontrar o lugar, tem que sair perguntando. Eu, que tenho 17 anos de universidade, se preciso ir para um lugar que não conheço, também saio perguntando. Na verdade, o cego pergunta muito, e sempre você encontra alguém para ajudar. A universidade é muito boa nesse sentido. Em acessibilidade ela é ruim, mas o pessoal que está nela é bom". 

Sobrinho explica que possui baixa visão e tem apenas uma percepção luminosa capaz de distinguir claro e escuro. Sua mobilidade dentro da universidade se baseia na sensibilidade a diferenças de pressão, temperatura e correntes de ar em cada ambiente. "Cada ambiente é diferente. Nenhum lugar é igual ao outro. A deslocação do ar, o jeito que as pessoas trabalham, tudo isso dá um referencial para você". 

A chefe da Divisão de Acessibilidade e Ações Afirmativas (Diaaf), Mirella Villa Fonseca explica que o atendimento ao estudante com deficiência é realizado a partir do momento da matrícula. "Nesse último processo seletivo nós já tivemos as cotas para os alunos com deficiência. A medida que esses alunos estão na Universidade, a Diaaf está pronta para atendê-los nas suas necessidades". 

De acordo com Mirella Fonseca, o aplicativo irá "auxiliar a comunidade como um todo, principalmente os alunos com deficiência, no acesso à universidade, e facilitar a movimentação dessas pessoas na Universidade".

Segundo o acadêmico Adauto Neto o sistema dará subsídio para a Diaaf estabelecer as prioridades nas reformas e adequações, ao demarcar as rotas que são mais acessadas pelas pessoas com deficiência. "A partir da aceitação das pessoas por esse aplicativo, principalmente as pessoas com deficiência, a gente vai sugerir alguns caminhos. Se ele não seguir, tem uma pergunta: 'porque você não seguiu o nosso caminho?' Então, a gente vai juntando os dados e vai conseguir apontar para as pessoas que são responsáveis pela acessibilidade os espaços que são mais acessados por essas pessoas".

 

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