CAMPO GRANDE19º MIN 26º MAX
Primeira Notícia UFMS
  quarta, 20 de setembro de 2017
 
12 de dezembro de 2016 - 11h23

Santa Casa ameaça fechar Pronto Socorro

Hospital depende de repasse de verba pública, que está atrasado desde setembro para manter o setor

JÚLIA BEATRIZ, LUANA MOURA E MICHAEL FRANCO
Deficit financeiro do hospital no mês de novembro foi de R$ 4,5 milhõesDeficit financeiro do hospital no mês de novembro foi de R$ 4,5 milhões  (Foto: Michael Franco)

A Santa Casa de Campo Grande deve fechar o Pronto Socorro devido a falta de repasse de verba da Prefeitura, de acordo com o diretor-presidente do hospital, Esacheu Nascimento. O pagamento da Prefeitura Municipal de Campo Grande (PMCG) não é feito desde setembro deste ano e resultou em saldo negativo nas finanças da unidade de saúde. A Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) recebe a verba do Ministério da Saúde e distribui para os centros médicos da capital. O prazo para que a Prefeitura apresente propostas para solucionar a dívida com a Santa Casa é de três meses.

De acordo com dados do Portal da Transparência da Santa Casa, o hospital possui um deficit financeiro de R$ 3,5 milhões ao mês e não recebe do poder público o valor integral que gasta com os atendimentos. Nascimento explica que o saldo devedor do hospital é resultado dos gastos com o Pronto Socorro, que gera uma despesa de R$ 6.000.000,00. “Temos um gasto médio de mil reais por paciente que passa pelo pronto socorro. Nós recuperamos diretamente do montante gasto com os atendimentos apenas um incentivo do Ministério da Saúde, uma quantia em torno de um milhão e meio de reais, daí o deficit. Gastamos seis milhões e ganhamos um milhão e meio. Esses pacientes que são atendidos no Pronto Socorro diariamente, o dinheiro dos procedimentos utilizados não tem de quem cobrar, fica espetado na conta da Santa Casa”. 

O diretor-presidente da Santa Casa afirma que Campo Grande é a única capital do Brasil que não possui um pronto socorro municipal e teve auxílio negado pelo ministro da Saúde, Ricardo Barros."O ministro me disse para que eu fizesse um pedido ao prefeito e, se não desse certo a negociação, que eu fechasse as portas do pronto socorro, que não é obrigação nossa”.

Segundo Nascimento, a falta de apoio do poder público agrava a situação dos atendimentos da unidade. "Somos uma entidade privada e estamos fazendo papel de poder público. A Santa Casa é um bem da população campo-grandense e eu não quero que ninguém deixe de ser atendido e por isso a gente segue como pode, prestando um serviço com este hospital que é um patrimônio da cidade”.

O diretor-presidente da Santa Casa explica que o sistema de atendimento do hospital é diferenciado, porque todo o tratamento é realizado no mesmo local. "Caso o paciente atendido pelo pronto socorro da Santa Casa tenha um agravamento em seu quadro de saúde, ele é internado e tratado no próprio hospital, fato que faz muitos cidadãos optarem pela unidade, ao invés dos postos de saúde".

A aposentada Luciana Amaral Lima, de 69 anos, afirma que prefere ser atendida pelos profissionais do hospital porque acredita que a qualidade é superior e o tempo de espera é menor. “Quando eu passo mal, eu prefiro vir aqui pra Santa Casa, aqui é mais rápido e os médicos te atendem com mais atenção que no posto do meu bairro. Aqui se a gente piora, já interna. No posto tem que ficar esperando encaminhamento e vaga”.

Cirurgias

No dia 6 de novembro, o hospital cancelou as cirurgias eletivas por falta de verba. Nascimento explica que a situação foi resolvida com um empréstimo de R$ 15 milhões da Caixa Econômica Federal, no dia 7 de dezembro. "Nós já estamos cheios de dívidas, devendo para bancos e agora tivemos que fazer outro empréstimo, voltamos com as cirurgias e vamos pagar os funcionários. Esse cancelamento agravou tudo, o número de mortes no trânsito, aumentou inclusive, em decorrência da nossa paralisação das cirurgias. Nós não podíamos atender essas ocorrências de acidentados no trânsito". 

De acordo com secretário estadual de Saúde, Nelson Tavares Campo Grande possui cerca de 27 mil pessoas na fila de espera por uma cirurgia. Tavares, afirma que a Santa Casa é importante para que as operações sejam realizadas, porque as unidades de saúde estaduais e municipais não conseguem atender a demanda. “O município não comporta todo esse número, muito menos a Secretaria Estadual de Saúde, não consegue encaminhar corretamente estes procedimentos e por isso é importante que se mantenha uma relação com a Santa Casa que é um hospital que colabora com as cirurgias e atendimentos”.

Esacheu Nascimento afirma que, ao assumir a administração do hospital, o centro cirúrgico estava em más condições e teve que passar por uma reforma, com recursos próprios da Santa Casa, para que os atendimentos fossem regularizados. “Fizemos uma reforma de 2.700 metros no centro cirúrgico porque ele estava em péssimas condições. Mas a gente poderia usar esse centro 24 horas por dia, mas usamos só na parte da manhã por falta de repasse, não tem dinheiro para atender todos os pacientes”.

Caravana da Saúde

Em janeiro de 2015, o Governo do Estado de Mato Grosso do Sul lançou o programa de assistência "Caravana da Saúde", com o objetivo de assumir integralmente o compromisso da reestruturação do sistema de saúde. O secretário estadual de Saúde, Nelson Tavares afirma que a principal proposta do projeto é reduzir o número de pacientes nas filas de espera por cirurgias no estado. “A caravana foi criada para zerar as filas de espera por atendimento e por cirurgias. Nosso foco foram os problemas oftalmológicos que era uma necessidade da população, mas tivemos atendimentos em todos os setores.” O projeto realizou atendimentos em 79 municípios do Estado, de acordo com a agenda do programa.

A balconista Guilhermina Ruiz, de 42 anos, aguardou por três anos uma cirurgia vascular que é realizada pelo Sus somente na Santa Casa. O caso da balconista era de urgência pois afetava outros órgãos. Guilhermina Ruiz procurou a Caravana da Saúde, porque não consegui vaga no hospital. Pelo projeto estadual, conseguiu passar pelo procedimento cirúrgico "Tive um distúrbio que meu coração não bombeava direito, começou a afetar as veias da minha perna e eu tinha que operar rápido. Nunca tinha vaga na Santa Casa, então fui na Caravana e operei".

Segundo Nascimento o dinheiro investido na "Caravana da Saúde" deveria ser destinado ao hospital, para que as filas da Santa Casa diminuíssem com os atendimentos na própria instituição. “O projeto foi bom, diminuiu em 40% nossas esperas, mas se investisse o que gastou com a caravana na Santa Casa, a gente faria um bom trabalho. Nós temos profissionais e estrutura completa aqui, mas sem dinheiro não vai andar mesmo. Os atendimentos seriam mais rápidos, as filas acabariam da mesma forma. Mas não investiram na gente e a situação continua do jeito que está”.

Atraso

  Assembleia dos servidores (Foto: Michael Franco)

Servidores dos setores de enfermagem e limpeza da Santa Casa realizaram uma assembleia, no dia 9 de dezembro, e paralisaram os serviços por três horas. Os funcionários protestaram contra os atrasos recorrentes no pagamento e a falta de negociação de aumento salarial. O presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Área de Enfermagem de Mato Grosso do Sul (Siems), Lázaro Santana explica que, inicialmente, a Santa Casa negou conceder aumento, mas a instituição apresentou uma proposta de reajuste em 9,83%, que foi rejeitada pela categoria. “Da forma que foi proposto, o aumento só passaria a ser incorporado aos salários em janeiro de 2017, sem retroatividade à data-base da categoria, que é 1º de maio, ou seja, seriam dez meses de perdas salariais. Além disso, o reajuste estaria condicionado à renovação do contrato entre a prefeitura de Campo Grande e o hospital, assim, sem a contratualização, os profissionais perderiam o aumento. Os trabalhadores não aceitam correr este risco".

O sindicalista declara que a manifestação foi um aviso à diretoria do hospital. Santana afirma que não existe a possibilidade de greve e reivindica para que os administradores da Santa Casa tenham diálogo com os funcionários. "A gente sabe que tem esse problema do repasse público, mas nós merecemos ser ouvidos e merecemos uma explicação também, a situação está difícil para todos, infelizmente." A assembleia aconteceu no pátio do hospital e reuniu cerca de 200 servidores. Após discutirem as reivindicações, os funcionários da Santa Casa assinaram uma carta com os pedidos firmados na reunião e a encaminharam ao diretor-presidente da unidade de saúde, Esacheu Nascimento.

*A Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) foi procurada pela equipe de reportagem e não retornou nossos pedidos de entrevista. Apenas declarou por meio de sua assessoria que os repasses serão feitos em breve. 

 

COMENTÁRIOS
 © Copyright 2017 Primeira Notícia