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11 de setembro de 2017 - 21h45

Pesquisa realizada na UFMS desenvolve métodos para prevenir a obesidade

Estudos associam a análise de células-tronco com terapias baseadas nas vitaminas A e D

ADRIAN ALBUQUERQUE, GABRIELA CONIUTTI E LUCAS CASTRO
Os pesquisadores João Pesarini e Laynna Schweich.Os pesquisadores João Pesarini e Laynna Schweich.  (Foto: Gabriela Coniutti)

O Centro de Estudos em Células-Tronco, Terapia Celular e Genética Toxicológica (CeTroGen), localizado no Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (HUMAP-UFMS), é pioneiro no desenvolvimento de dois novos tratamentos para a prevenção da obesidade. Os pesquisadores João Pesarini e Laynna Schweich discutem a possibilidade de intervenção, por meio de terapias, com o uso suplementar das vitaminas A e D, para induzir a morte de células que armazenam gordura. Ambos têm orientação da coordenadora clínica do laboratório, professora doutora Andréia Antoniolli, e do coordenador técnico, professor doutor Rodrigo Oliveira.

Segundo o biomédico e pesquisador de doutorado do Programa de Pós-graduação em Saúde e Desenvolvimento na Região Centro-Oeste da UFMS (PPGSD), João Pesarini a relação entre a vitamina D e a obesidade é conhecida há mais de dez anos. Inicialmente, ela era considerada uma vitamina que tinha apenas relação com a saúde óssea. “Hoje, a gente sabe que o hormônio ativo dela tem relação com diferentes órgãos e pode alterar a função de vários tecidos do organismo humano, inclusive o tecido adiposo. Esse hormônio pode promover a morte celular de células de gordura, que nós chamamos como adipócitos e, dessa forma, a gente pode mitigar e reduzir o resultado da obesidade, que é o ganho de peso e ganho de massa adiposa”.

 
   Pesarini estuda a vitamina D desde 2011. (Foto: Adrian Albuquerque)

Pesarini começou a se dedicar à prevenção da obesidade em 2011, durante o curso de mestrado em Biologia Celular e Molecular na Universidade Estadual Paulista (Unesp). Para o cientista, o intuito inicial da pesquisa era procurar uma substância que fosse natural e que se pudesse obter de forma endógena, ou seja, que se origina no interior de um organismo, produzida pelo próprio corpo humano. “É válido ressaltar também que a obesidade nem sempre foi considerada uma doença. Acredito que a partir do momento que foi considerada, na época, a gente teve a ideia de começar a pensar em alguma coisa para que a gente pudesse criar alternativas mais baratas para ajudar, por exemplo, o Sistema Único de Saúde (SUS)”. A sua proposta é fundamentada pelo uso generalizado da vitamina D no organismo, de modo sistêmico.

A fisioterapeuta e também pesquisadora de doutorado do PPGSD, Laynna Schweich ingressou ao CeTroGen em 2015 e deu continuidade às pesquisas sobre a obesidade. O estudo baseia-se no ácido retinoico, substância derivada da vitamina A. “Essa vitamina foi descoberta há mais de 20 anos e já é comprovado na literatura a relação dela entre a suplementação e a diminuição de peso, melhora na resistência à insulina e, de modo geral, na vida do animal que utiliza a administração por via oral. Porém, nenhum estudo ainda tinha feito essa análise desde o início, desde quando essa célula se desenvolvia”.

A pesquisadora afirma que a ação do ácido na célula de gordura tem um papel de inibição. “A intenção do meu trabalho então foi ver tudo desde o comecinho, desde a célula-tronco antes dela se transformar nessa célula que vai virar gordura. A gente testou várias doses na célula-tronco, que foi retirada da gordura do paciente, pegando aquela sobra da lipoaspiração”. 

   Células animais cultivadas em placas de vidro. (Foto: Lucas Castro)

A análise é feita com células-tronco isoladas, cultivadas in vitro - observação em placas de vidro -  com a presença do ácido retinóico em incubadoras que simulam o ambiente perfeito para que as células completem o seu ciclo e se desenvolvam. “A gente concordou que o ácido consegue, digamos, diminuir mais as células-tronco por morte celular programada e não a gordura. Então, seria um trabalho preventivo, pois a gente conseguiria trabalhar antes delas se tornarem a gordura em si. E daí a opção foi via subcutânea, uma aplicação local no tecido, diminuindo a quantidade de gordura localizada”. 

De acordo com Oliveira é interessante que, além dos exercícios físicos, de tudo o que é recomendado por nutricionistas para melhorar a qualidade de vida do paciente, ele tenha uma condição de tratar esse aumento indesejável da gordura. “A gente em nenhum momento vai falar para o paciente deixar de praticar exercício e só fazer o uso do medicamento. Nós queremos que, juntamente com tudo que é prescrito, inclusive a prática de exercícios físicos, o paciente tenha outras alternativas”.

Obesidade na capital

Os estudos tiveram como motivação o quadro epidêmico da obesidade que se encontra na população da capital. De acordo com levantamento divulgado pelo Ministério da Saúde, em abril deste ano, realizado por meio do sistema de vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico (Vigitel), Campo Grande é a segunda capital do país com maior índice de pessoas com excesso de peso, com 58%. Fica atrás somente de Rio Branco, no Acre, que registrou 60,9% de pessoas acima do peso recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). 

Essa recomendação tem como base o Índice de Massa Corporal (IMC) das pessoas entrevistadas na pesquisa, que consiste no cálculo que divide o peso da pessoa pela altura multiplicado por quatro. É considerado excesso de peso, quando o índice é igual ou maior que 25 kg/m² e obesidade, quando ultrapassa os 30 kg/m².

  Reprodução de dados obtidos pelo Vigitel/Ministério da Saúde.

Ainda segundo a pesquisa, em Campo Grande, a prevalência da obesidade é de 19,9%, número que acompanha a média nacional. Em todo o Brasil, 18,9% estão obesos e a doença atinge um em cada cinco brasileiros. Atualmente, a obesidade deve ser tratada como uma questão de saúde pública. Em 2013, o Ministério da Saúde divulgou que o SUS gasta, anualmente, mais de 500 milhões de reais com o tratamento de doenças relacionadas à obesidade, como hipertensão, excesso de colesterol e aumento da quantidade de açúcar no sangue, o que pode desencadear a diabetes.

Segundo a nutricionista Karine Freitas o modo de vida dessa população é o principal responsável. As causas se relacionam à alta ingestão de alimentos industrializados, os quais, de modo geral, são hipercalóricos, com alto teor de açúcar e gorduras saturadas e trans, a pouca variedade de alimentos nas refeições principais, restrito a alimentos ricos em carboidratos e carnes vermelhas gordurosas, além de porções exageradas de alimentos. “A essa última questão soma-se que as verduras, legumes e frutas têm preço elevado e pouca variedade, especialmente nos bairros mais distantes do centro da cidade. Culturalmente, não se observa na população o hábito de cultivo de hortas e árvores frutíferas”. 

Ela acredita que o motivo pelo consumo insuficiente de vegetais seja o baixo grau de esclarecimento da população a respeito dos riscos a saúde que o excesso de peso pode trazer, como pressão arterial elevada, diabetes, maior risco para doenças cardiovasculares, que compromete a qualidade de vida. “Também é comum se observar pouca prática de atividade física, sendo o carro ou a moto o principal meio de locomoção. Entre crianças e adolescentes, a cada dia observa-se o maior tempo gasto em frente a eletrônicos, especialmente celulares, computadores e tablets, não tendo mais a oportunidade de brincar ao ar livre”.

Karine Freitas ainda destaca que uma educação alimentar é construída durante a infância e que os bons hábitos adquiridos se mantêm na vida adulta. A criança obesa tem mais chances de se tornar um adulto obeso. “É importante alterar essa realidade o mais breve possível. A valorização dos alimentos locais e da cultura alimentar local, em detrimento do consumo de alimentos ultraprocessados, também colaboraram de forma importante neste processo”.

Para a endocrinologista e presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia do Estado (SBEM/MS), Renata Portella a obesidade é uma doença multifatorial e que possui uma base genética. Segundo ela, historicamente, os seres humanos foram feitos para poupar energia, são descendentes que sobreviveram na época das cavernas porque sabiam economizá-la, só podiam comer quando caçavam. “Agora temos essa disponibilidade enorme de alimentos, não precisamos mais nos esforçar para caçar, então a atividade física diminuiu muito e o balanço acaba ficando desfavorável”.

O militar aposentado, César Vasconcelos, 47, possui obesidade desde os 23 anos. Ele ressalva que o aumento de peso teve início após o casamento e depois de um período no Rio Grande do Sul. “O excesso de peso veio do descuido, da fase nova, uma nova situação que surgiu. Eu não estava acostumado com a questão do casamento, o conforto. Além disso, foi por uma causa familiar. Meu pai já se encontrava obeso, minha mãe também, apesar de quando jovens eles eram magros”. 
 
Vasconcelos procurou ajuda médica pela primeira vez em 2000 e só veio a aceitar a sua condição oito anos mais tarde. ”Só entrou na minha cabeça que eu precisava de um médico em 2008, quando me disseram que eu era uma pessoa doente. Eu não aceitei isso e entrei em conflito. Não, eu não sou doente. Aquilo ali foi o que mexeu comigo, a partir daí foi que eu vi que realmente sozinho eu não conseguiria emagrecer e procurei ajuda dos profissionais”.

O militar afirma que seu dia começa logo após tomar 14 remédios, às 10h. Ele diz que se o tratamento estudado pelo CeTroGen oferecer mais benefícios, irá procurar pelo novo método. “Eu acho que o vem a ser para contribuir, diminuir e, até mesmo, controlar o ganho de peso, acho válido. A questão é o custo-benefício disso, se me deixa irritado, nervoso, um pouquinho cansado, será que vale a pena usar esse remédio em detrimento de conseguir emagrecer? Então, se esse remédio realmente valer a pena na questão da contraindicação, creio que vale a pena sim”.

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