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CÂNCER DE PELE

Pesquisa da UFMS desenvolve medicamento para combater o câncer de pele

Estudo busca alternativa de tratamento por meio de terapias capazes de atingir células cancerígenas sem causar efeitos adversos

Adrian Albuquerque, Gabriela Coniutti e Lucas Castro, de Campo Grande27/11/2017 - 19h47
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O Centro de Estudos em Células-Tronco, Terapia Celular e Genética Toxicológica (CeTroGen) do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (HUMAP-UFMS) desenvolve um novo medicamento para combater ao câncer de pele. O estudo tem como objetivo a redução dos efeitos adversos da quimioterapia em tumores melanoma, que têm como principal causa a radiação ultravioleta, com alta incidência em Mato Grosso do Sul. A pesquisa integra o Programa de Pós-Graduação em Saúde e Desenvolvimento na Região Centro-Oeste e o Programa de Pós-Graduação em Química da UFMS. 

O câncer de pele é definido pelo crescimento descontrolado e anormal das células que compõem a pele. Ele é classificado em não melanoma e melanoma. De acordo com informações do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA), o câncer de pele corresponde a 30% de todos os tumores malignos registrados no Brasil em 2016. O melanoma representa apenas 3% das neoplasias malignas e é o mais grave, pois possui alta possibilidade de se espalhar para outras partes do corpo, atividade denominada metástase.

Segundo o dermatologista e presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia, regional Mato Grosso do Sul (SBD/MS), Alexandre Moretti o câncer de pele raramente causa incômodos e se manifesta, principalmente, por manchas e pintas que são encontradas pelo corpo. “Geralmente, aparece como uma lesão cutânea. Existe uma ferida, um nódulo, um caroço que, na maioria das vezes, sangra com facilidade e tem difícil cicatrização. Essa é a dica principal. Existe também o crescimento contínuo, aquela lesão que aumenta de tamanho desordenadamente, que possui um formato irregular com várias cores, o diâmetro é maior que seis milímetros e é assimétrica. Nesses casos, normalmente, pensamos em câncer de pele”.

Moretti afirma que os tratamentos de câncer de pele apresentam complicações, principalmente em métodos cirúrgicos. “A complicação, normalmente, refere-se ao aspecto estético. A depender do tumor e de seu tamanho, terá uma cicatriz maior, inestética. Na maioria das vezes, o tratamento a laser pode trazer complicações na cicatrização. Além desse, o tratamento tópico, feito por meio de cremes específicos aplicados na região tumoral, pode causar irritação na pele”.

A radiação ultravioleta (UV) é a principal responsável pelo desenvolvimento do câncer de pele e a maioria dos casos está associada à exposição excessiva ao sol. De acordo com a meteorologista e coordenadora técnica do Centro de Monitoramento de Tempo, do Clima e dos Recursos Hídricos de Mato Grosso do Sul (CEMTEC/MS), Franciane Rodrigues os níveis de radiação ultravioleta, que alcançam a superfície da Terra, podem variar de acordo com fatores de localização geográfica e nebulosidade. “Os locais que estão próximos à linha do Equador, recebem maior incidência de radiação. Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, estamos entre a linha do Equador e o Trópico de Capricórnio. Então, estamos sujeitos a uma incidência de radiação ultravioleta muito maior do que em outras regiões. O segundo ponto, são sistemas meteorológicos. No período de inverno aqui no estado, o tempo é muito seco e sem nebulosidade. A entrada de massa de ar polar prejudica a formação de nuvens. Geralmente, essas nuvens tendem a atenuar um pouco os índices de radiação ultravioleta”.

Para a meteorologista, no decorrer do dia, há aumento na intensidade com que esta radiação atinge a superfície terrestre. “A radiação ultravioleta tem máxima entre 9 e 15 horas, com pico entre 11 e 13 horas, principalmente no período de inverno. Aqui em Mato Grosso do Sul, em particular, o tempo fica seco, a umidade relativa do ar baixa, as chuvas são escassas e o céu fica sem nuvens. Uma das recomendações básicas da meteorologia é não se expor ao sol nesses horários mais intensos, usar protetor solar e, até mesmo no verão, no qual os índices caem um pouco. Fisicamente, o protetor cria uma película de reflexão, para que os raios não entrem diretamente na pele”.

A pesquisa

   Stephanie ressalta difícil cura do melanoma (Foto: Lucas Castro)

A biomédica e pesquisadora do CeTroGen, Stephanie Navarro começou a se dedicar aos estudos do tratamento de células tumorais em 2007, desde a iniciação científica, durante o curso de graduação em Biomedicina no Centro Universitário Filadélfia (UniFil), em Londrina/PR.

A pesquisadora ressalta que o principal motivo para a realização deste estudo foi o difícil tratamento e cura do câncer de pele com os métodos e medicamentos existentes. Além disso, uma das principais dificuldades no desenvolvimento de novos medicamentos para o tratamento de câncer é a limitação de compostos químicos, que também atingem as células sem tumores. “O que realmente acontece é só um tratamento desse tipo de câncer, porque a cura é praticamente impossível. A cura é feita cirurgicamente e também por meio de quimioterapia com medicamentos específicos. No caso, utilizamos o tratamento quimioterápico como controle positivo do nosso teste. Então, fizemos análises para comparar se o nosso composto foi mais ou menos eficaz do que o tratamento convencional”.

O estudo baseia-se em lipídios resorcinólicos, substâncias naturais que possuem atividade anticâncer. Essas auxiliam na potencialização dos efeitos de quimioterápicos comerciais, que são compostos, principalmente, pela ciclofosfamida, medicamento comumente utilizado para impedir a multiplicação e ação das células malignas no organismo. Na pesquisa, comprovou-se que a atividade lipídica ajuda reduzir os efeitos adversos do tratamento tradicional existente, além de aumentar a frequência da apoptose, morte celular programada, sem causar danos aos tecidos próximos ao tumor.

  Teste in vivo em tumor nas costas de camundongo (Foto: Arquivo CeTroGen)

De acordo com o professor e coordenador técnico do CeTroGen, Rodrigo Oliveira a radiação ultravioleta da luz solar é crucial para a síntese de vitamina D na pele e em outros aspectos fisiológicos da vida humana. “Precisamos tomar cuidado com a exposição demasiada. Por outro lado, temos outras questões que interferem nisso. Se não houver exposição ao sol, não há produção de vitamina D, que é essencial para o organismo humano. O filtro solar pode combater o câncer de pele, mas também dificulta a produção dessa vitamina. Então, precisamos fazer um balanço dessa exposição e não exposição de forma que haja produção vitamínica, mas que não comprometa a pele, a ponto de ocasionar lesões que possam levar ao desenvolvimento do câncer de pele melanoma”.

Oliveira afirma que o medicamento estará disponível no mercado em 10 anos. “Os ensaios pré-clínicos, que desenvolvemos em animais, estão em processo de finalização e apresentaram resultados satisfatórios. Em seguida, solicitaremos ao comitê de ética o início dos testes em humanos”.

Dados do câncer de pele

De acordo com dados divulgados pela assessora de imprensa da Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso do Sul (SES/MS), Luciana Brazil 40 óbitos causados pelo câncer de pele foram registrados no estado em 2016. Até outubro deste ano, o levantamento registrou 26 óbitos. Esses números incluem casos de todas as neoplasias de pele, tanto malignas, quanto benignas.

Segundo o balanço “Estimativas 2016/2017 - Incidência de Câncer no Brasil”, do INCA, Mato Grosso do Sul apresenta taxa de incidência de câncer de pele melanoma de 2,51 para cada 100 mil homens e 2,21 para cada 100 mil mulheres.

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