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12 de September de 2017 - 10h39

Hospital Regional registra 358 casos de câncer infantil em 2017

Previsão é que ocorra 1.270 novos casos na região Centro-Oeste

DIEGO EUBANK, JOÃO VICTOR REIS E RAIRA REMBI
Maria Madalena trabalha como voluntária todas as sextasMaria Madalena trabalha como voluntária todas as sextas  (Foto: Diego Eubank)

O Hospital Regional de Mato Grosso do Sul (HRMS) registrou 358 crianças e adolescentes com câncer infantil em Campo Grande até agosto deste ano, de acordo com assessora de comunicação, Raiza Calixto Ferreira. Ainda segundo a assessora, em 2016 o HRMS internou 475 pacientes com a doença. Conforme levantamento realizado pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer infantil é a doença que mais mata crianças e adolescentes de 1 a 19 anos. A previsão segundo o INCA é que ocorra cerca de 12.600 casos novos de câncer em crianças e adolescentes no Brasil em 2017, 1.270 localizados na região Centro-Oeste. 

Incidência do Câncer Infantil por região do Brasil. (Fonte: Instituto Nacional do Câncer)

A dona de casa Maria Andreia Benites, 41 anos, descobriu em março deste ano que sua filha estava com câncer. "Ela foi diagnosticada no Hospital Universitario da Universidade Federal de Dourados (HU-UFGD) e lá descobriram que ela estava com linfoma não-Hodgkin". De acordo com Benites, sua filha apresentava ofegação, taquicardia e outros sintomas. "Foi um desabo, nunca se espera que um jovem venha a portar câncer, só imagina que isso ocorre com pessoas mais velhas. No começo acha que é o fim de tudo, acabou, é o fim não tem jeito. Mas depois percebe que nem tudo está perdido, sempre tem uma esperança".

Segundo a ortopediatra do Hospital Adventista do Pênfigo Rafaela Siufi, quando comparado com o número de adultos atingidos pela doença no Brasil, o índice de uma criança com câncer infantil é de uma criança para cada 300 adultos com câncer. "Por ser uma doença crônica, o câncer deve ser diagnosticado logo no ínicio de sua manifestação. A conscientização dos possíveis primeiros sintomas que podem indicar a existência de células cancerígenas no corpo do paciente deve ser incentivada". O oncologista do Hospital Adventista, Fabricio Colacino afirma que a formação do tumor é multifatorial.

De acordo com levantamento do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, a sobrevida de uma criança ou adolescente com câncer infantil pode variar entre 65% e 80%. A taxa de sobrevida é uma medida adquirida com a contabilização da quantidade de pacientes que sobrevivem cinco anos após o diagnóstico da doença. "Quando reconhecido nos primeiros estágios, a chance de cura é acima de 90%. Com um diagnóstico tardio, essa porcentagem cai para menos de 20%".

Voluntariado

A Associação dos Amigos das Crianças com Câncer (AACC) é uma instituição sem fins lucrativos, classificada como "Abrigo Institucional Provisório-Alta Complexidade", que oferece moradia para criança e mãe ou responsável durante o período de tratamento. A AACC, que tem auxílio de cerca de 600 voluntários, fornece suporte para que as famílias que moram em outras cidades tenham condições de permanecer em Campo Grande.

A aposentada Maria Madalena Carvalho cuida das crianças na brinquedoteca da Ong há 14 anos. "No meu primeiro dia como voluntária, eu conheci uma menina, logo ela veio para o meu colo. Em uma noite, eu me lembro que ela ficou doente [...] Na hora da consulta, ela não quis que a mãe entrasse na sala, eu tive que ficar segurando na mão dela. Mas ela faleceu quando completou 5 anos". Ela também relembra de outra criança que teve câncer e que precisou amputar a perna. "Eu sofro porque eles sonham tanto, mas não conseguem realizar".

Carvalho afirma que, "O voluntariado é um trabalho de amor e dedicação no qual é possível ver a força das mães que passam por essa situação acompanhando por meses o sofrimento dos seus filhos". O auxílio na brinquedoteca não se restringe apenas às crianças. Os voluntários também ajudam as mães e os pais que precisam de um descanso após meses de tratamento. 

A coordenadora do voluntariado, Maria Lúcia Smaniotto trabalha na AACC desde 2008 como funcionária, e como voluntária na Ong desde 2006. Para ela, o voluntário é responsável por ouvir a mãe. "Nós voluntários não temos julgamentos, não podemos ter". A brinquedoteca é onde a maioria dos voluntários querem ficar, mas há ainda outros setores de voluntariado como o bazar, a triagem, o transporte, cozinha, artesanato, estética, entre outros. "Todos esses setores contribuem para melhorar a vida da criança, ou da mãe, ou da instituição".

Smaniotto ressalva que outros fatores também colaboraram com o aumento do índice de cura, como a campanha "Fique de olho, pode ser câncer", que consiste em capacitar profissionais da área da saúde, atenção básica e médicos pediatras em todos os municípios de Mato Grosso do Sul quanto aos sintomas e sinais da doença e suas especificidades. "De três meses que essas crianças demoravam pra chegar aqui, depois desse programa do diagnóstico precoce, hoje é quinze dias, até menos".

Acompanhamento psicológico

A psico-oncologista Cláudia Pinho, especialista em cuidados paliativos e hipnoterapeuta, ressalta a importância de uma equipe de apoio para o tratamento do câncer infanto-juvenil. A equipe acompanha o paciente desde o processo de investigação da doença, pelo processo do impacto do diagnóstico e por todo o tratamento. A psicóloga afirma que o câncer ainda é um tabu. “Algumas famílias têm medo, pavor só de falar o nome da doença”. Isso dificulta no processo do tratamento da doença. "Quanto mais cedo se descobre o que é a doença, consequentemente a familia sabe sobre o tratamento e as possibilidades de cura existente para esse paciente são maiores".

 O trabalho da equipe da psicóloga é auxiliar o paciente e a família e trabalhar as diversas estratégias para combater a doença. O diagnóstico do câncer modifica tanto as estruturas físicas e emocionais do paciente quanto com a estrutura familiar, financeira e social. "Muitas vezes os pacientes não são de Campo Grande, ficam longe dos familiares da sua casa é um processo de adaptação tanto para o acompanhante quanto para o enfermo, além do estigma social, o olhar diferenciado que essa criança recebe ao estar em sociedade".

De acordo com Pinho, a alopécia, nome dado para a queda do cabelo, é marcante para a criança e adolescente. A psicóloga é a responsável por cortar o cabelo dos seus pacientes, e enfatiza que o momento não é de tristeza. “É o momento de ressignificar o viver, o cabelo cai mas não pode cair a fé, a esperança e a vontade de viver”. Ela também realça a autoestima dessas crianças nas diversas formas de prender ou usar o lenço e os bonés. “Trabalhamos a autoestima na questão de que quem o ama ama independente se ele está com cabelo ou não”.

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