SAÚDE

Mato Grosso do Sul registra 16 casos de mortalidade materna em 2019

Maioria dos casos do estado ocorre em mulheres na faixa etária de 20 a 34 anos

Amanda Raíssa, Evelyn Mendonça e Jéssica Lima, de Campo Grande 1/11/2019 - 13h54
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O número de óbitos registrados e classificados como mortalidade materna em Mato Grosso do Sul chegou a 28 em 2018, de acordo com dados divulgados pela Secretaria de Saúde do Estado (SES). Em 2019, até outubro, foram 16 mortes. Segundo dados do último levantamento divulgado pelo Boletim Epidemiológico do Comitê Estadual de Prevenção da Mortalidade Materna e Infantil, entre os anos de 2013 e 2017 ocorreram 128 óbitos maternos obstétricos no estado, que representam 2,73% do número geral de mortes de mulheres em idade fértil. De acordo com o parâmetro de Razão da Mortalidade Materna (RMM) definido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), nove dos 13 municípios analisados pela pesquisa receberam classificação “muito alta” no número de óbitos em 2017.

Segundo dados de 2018, 76,19% dos casos registrados em Mato Grosso do Sul são de mulheres na faixa etária de 20 a 34 anos. A meta global proposta pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) é de que, entre 2016 e 2030, a taxa de mortalidade materna seja de 70 a cada 100 mil bebês nascidos vivos. Segundo o Guia de Vigilância Epidemiológica do Óbito Materno do Ministério da Saúde, 92% dos casos de óbito materno acontecem por causas evitáveis, como infecção. 

A coordenadora de Ações em Saúde da Secretaria do Estado de Saúde (SES), Karine Cavalcante afirma que a incidência de óbitos maternos registrados em Mato Grosso do Sul expressa uma "realidade preocupante" no estado. “A mortalidade materna tem um quantitativo alto, no ano passado nós fechamos com 28 óbitos maternos, que parece ser pouco mas não é. Uma morte materna, ainda mais por causas preveníveis, é inadmissível. Quando uma mãe morre, se desestrutura toda a família, geralmente essa mãe é o vínculo principal que agrega os outros membros da família, quando se faz a investigação desse óbito a família já se encontra desestruturada. Então é algo muito ruim para toda sociedade”.

De acorco com a coordenadora, a contagem geral do número de óbitos maternos é finalizada 120 dias após o último mês do ano. Neste ano foram registrados 16 óbitos maternos no estado até outubro. A expectativa é de que o número se mantenha menor do que o total de 2018. “Quando o Ministério da Saúde publicou a Portaria da Rede Cegonha, a rede de assistência materno-infantil, foram explicados os serviços e pontos de atenção dessa rede. Tudo começa na atenção primária, na qual se faz o pré natal acompanhado de uma equipe multidisciplinar, formada por enfermeiros, nutricionistas e psicólogos”. Karine Cavalcante explica que o funcionamento da Rede é responsável pela investigação dos casos de óbitos maternos no estado.

A coordenadora explica que o projeto de Planificação de Atenção Primária à Sáude (APS) que atua em nível nacional, prioriza a reorganização da atenção primária e a qualificação da atenção especializada, e é representado pela Rede Cegonha em Mato Grosso do Sul. “O projeto recebe recursos vindos do Hospital Israelita Albert Einstein, que faz parte do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi), no estado estamos trabalhando com as regiões de Aquidauana, formada por seis municípios e também com a região de Jardim, onde trabalhamos com a Unidade Básica de Saúde (UBS) para a melhora de questões como estrutura física, equipamentos e no processo de trabalho realizado pela assistência básica. Além disso, também envolve as unidades de atenção especializada, principalmente com ambulatórios de atendimento a gestantes classificadas como alto risco”.

Karine Cavalcante ressalta que o investimento na atenção primária, antes e durante o período de gestação, é importante. “Nos estudos dos óbitos, encontramos uma incidência maior em mulheres que possuem uma baixa escolaridade, baixa renda e uma rede social prejudicada. O planejamento reprodutivo é muito importante, já que no primeiro contato é preciso munir a mulher de toda informação, antes da gravidez e durante o pré-natal. O ideal é conseguir captar essa mulher no primeiro trimestre, onde se responderão todas as dúvidas e se oferecerão todas as respostas necessárias”.

O ginecologista obstetra do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap), Benedito de Oliveira afirma que as três principais causas da mortalidade materna são a hemorragia, distúrbios hipertensivos e infecção. “É importante saber que uma simples infecção urinária, que acomete só a bexiga, pode subir para os rins e provocar uma infecção chamada pielonefrite. A infeccção é de fácil detecção clínica e de fácil tratamento, então existe algo errado no sistema quando algo que aparentemente é fácil, torna-se uma situação fatal".

Oliveira ressalta que a pré-eclâmpsia e as hemorragias são as doenças hipertensivas comuns e que questões ligadas ao aborto são tópicos de debates na avaliação dos índices de mortalidade materna. “Em situações longe do ideal de um cuidado médico, isso acaba expondo a pessoa a uma hemorragia que vem a morrer por anemia aguda, e isso até mesmo pode acontecer na situação de um aborto clinicamente justificado por alguma doença. No Brasil, temos desigualdades, onde populações possuem acesso a um pré-natal e a um parto de qualidade, e as regiões de cima do país, é encontrado um acesso mais difícultado".

O médico destaca que em 2015 houve queda no número de óbitos registrados e nos anos seguintes o avanço foi revertido. “Desde os anos 2000, houve uma preocupação mundial de redução de mortalidade materna. Em 2015, foram criados comitês de mortalidade materna estadual e municipal, onde cada óbito foi estudado, para ver se a falha foi no sistema do pré-natal, no sistema do atendimento hospitalar, por causa de um hospital sem condições ou se a pessoa não fez um pré-natal de maneira adequada”. 

Oliveira ressalta que a crise econômica é uma das responsáveis indiretas pelo aumento quantitativo nos indicadores de mortalidade materna. “O próprio Ministério de Saúde admitiu que devido a crise econômica deixou de chegar o dinheiro nas instituições de saúde. É um problema na verdade muito mais político do que um problema médico em si”. 

O projeto de extensão Proposta de intervenção de enfermagem à mulher no ciclo gravídico-puerperal, do curso de Enfermagem da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), atende gestantes durante a gravidez até o pós-parto no Hospital Universitário. A professora e coordenadora do projeto, Sandra Luzinete é enfermeira obstetra e diz que atualmente 20 mulheres são acompanhadas. Ela explica que mortalidade materna e uma gravidez de alto risco são casos independentes um do outro. "A mortalidade é uma preocupação bem grande, mas toda gravidez pode mudar, ser de baixo risco hoje e amanhã de alto risco. Não dá pra prever, nem avaliar. A partir do momento que surge um corrimento vaginal ou uma cárie dentária, a gestante já entra no alto risco. Se não houver uma atenção rigorosa, qualquer coisa pode evoluir para algo mais grave, por isso é preocupante quando uma mulher não faz o pré-natal adequadamente".

Acadêmicas do curso de Enfermagem participam do atendimento de gestantes na Clínica Escola da UFMS (Foto: Jéssica Lima)

A professora aponta que o pré-natal deve ser realizado o mais rápido possível, assim que a mulher descobre a gravidez, assim como todos os exames e consultas. "Eu percebo uma carência de informação muito grande nas pessoas. Elas muitas vezes não sabem nem como coletar um exame e isso gera erros no resultado. Isso faz do pré-natal um momento ainda mais importante para a gestante". Ela afirma que o envolvimento dos profissionais na orientação dessas mulheres é importante e explica que a sobrecarga dos hospitais dificulta essa prática. "É preciso que o município invista em pessoal e em capacitações. Esses profissionais precisam estar sendo frequentemente capacitados para que façam um bom trabalho".

Sandra Luzinete diz que a hemorragia pós-parto é uma das maiores causas de mortalidade materna e que nos casos em que a mulher sobrevive, a condição de "quase-morte" gera despesa para o convênio do Sistema Único de Saúde (SUS) e prejuízo pessoal para a mãe, que tem a amamentação e o vínculo com o filho prejudicados. A professora acrescenta que em casos graves, a maioria das complicações é prevenível e evitável por meio do pré-natal bem realizado. Enfatiza que há necessidade de uma assistência humanizada e ressalta que a residência obstetrícia para os cursos de Enfermagem e Medicina oferecidas no Hospital Universitário elevam a qualidade do serviço prestado.

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