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13 de November de 2017 - 23h15

Mato Grosso do Sul registra um novo caso de Aids por dia

O estado está em sétimo lugar no ranking nacional de ocorrências e apresentou 350 casos até julho deste ano

ADRIAN ALBUQUERQUE, GABRIELA CONIUTTI E LUCAS CASTRO
O tratamento para HIV/Aids, no Brasil, é universal e gratuitoO tratamento para HIV/Aids, no Brasil, é universal e gratuito  (Foto: Adrian Albuquerque)

Mato Grosso do Sul registra, por dia, um novo caso da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids), causada pela infecção do Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV). De acordo com o último levantamento feito pela Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso do Sul (SES/MS), o estado apresentou 350 casos até julho deste ano. Especialistas acreditam que o principal motivo para o número de infectados pelo vírus é a perda do medo do contágio e a facilidade do acesso ao tratamento, que garante maior expectativa de vida.

Segundo dados do Boletim Epidemiológico de Aids 2016, do Ministério da Saúde, Mato Grosso do Sul é o sétimo estado com maior casos de Aids no Brasil. No ranking das capitais, Campo Grande aparece em sétimo lugar, além de ser a com maior índice de casos, entre as capitais com menos de um milhão de habitantes.

   Denise Lima acredita que o medo do HIV acabou (Foto: Lucas Castro)

De acordo com a coordenadora do Programa Municipal de IST/Aids e Hepatite Virais da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) de Campo Grande, Denise Lima a população jovem é a que mais ignora o uso dos preservativos. “Os adolescentes não vivenciaram a década de 1980, época em que as pessoas, os famosos morriam de Aids. Hoje, eles têm acesso às redes sociais e pesquisam, sabem da existência do vírus, que não tem cura, mas também sabem que tem tratamento, todo de graça pelo SUS e de fácil acesso. Então, acredito que perderam um pouco o medo e esquecem da responsabilidade de usar preservativo”.

Denise Lima ainda afirma que, para os adolescentes, a maior preocupação é uso de métodos contraceptivos. “Observo que os jovens têm realmente a preocupação com a gravidez. A partir do momento em que a garota toma o anticoncepcional, o relacionamento fica mais sério, existe a confiança no parceiro e eles passam a não usar mais o preservativo. Hoje, se usar a camisinha corretamente, além de não contrair uma doença, não haverá chances de ter uma gravidez indesejada".

   Adriana Negri ressalta prevenção (Foto: Adrian Albuquerque)

A enfermeira-chefe do Hospital-Dia "Professora Esterina Corsini", Adriana Negri explica que, no primeiro atendimento, os pacientes passam por uma consulta de acolhimento, para depois dar prosseguimento ao tratamento com exames e liberação para o uso de medicamentos. “Como são muitas informações, temos que ir por etapas. Vamos conversar, ver o que o paciente sabe sobre o assunto e saber, inclusive, como ele recebe essa notícia. Tem pessoas que se desesperam, que a ficha não cai. Oferecemos esse suporte social e psicológico e não passamos todas as informações num primeiro momento. Entramos em contato, abrimos o canal, fazemos a empatia, para que ela saiba que pode tirar dúvidas conosco”.

Para o infectologista Maurício Pompilio houve uma redução significativa na letalidade pelo HIV com o advento de medicamentos mais modernos. O antirretroviral, atualmente, é o medicamento mais importante para o tratamento. Ele também é conhecido como "3 em 1", pois em um comprimido há três drogas e se toma uma vez ao dia. “A taxa de letalidade reduziu mais de 50%. Hoje, uma pessoa jovem, que se diagnostica com HIV antes de adoecer, tem um excelente prognóstico. Ela vai fazer o seu tratamento e seguir adiante a sua vida. Tudo dependerá de como ela se cuida, se usa os medicamentos de forma correta, se esses não apresentam efeitos adversos. Tudo isso determinará se novos problemas de saúde irão surgir ou não. Se a pessoa realmente fizer o tratamento adequado, a expectativa de vida é muito boa”.

O infectologista ressalta que ter o HIV é diferente de ter Aids. Uma pessoa infectada pelo vírus pode permanecer sem manifestar sintomas num período de cinco até 10 anos. “A maioria das pessoas vive com o HIV sem estar doente. Então, não é ideal buscar um serviço, porque um sintoma pode ser de Aids. A pessoa deve procurar o sistema de saúde quando estiver bem, antes de apresentar sintomas, para que seja diagnosticada no melhor momento possível e, assim, em tempo hábil, o tratamento terá o melhor resultado. Se adoeceu e procurou um médico que confirmou o HIV, ainda há tempo de se tratar”.

Números do HIV/Aids

De acordo com o Boletim Epidemiológico HIV/Aids do Ministério da Saúde, de 2007 até junho de 2016, foram notificados pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) 136.945 casos de infecção pelo HIV no Brasil, com 9.152 na região Centro-Oeste.

O relatório ainda destacou que Mato Grosso do Sul apresentou tendência de aumento nas taxas de detecção nos últimos dez anos. De 2000 a 2016, o Sinan notificou 5.807 casos de HIV no estado.

Em Campo Grande, segundo levantamento feito pela Sesau, foram registrados 182 casos de HIV e 117 casos de Aids até outubro deste ano.

Tratamento

No Brasil, o tratamento contra a doença é gratuito e oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Em Campo Grande, pelo serviço público, pode-se realizar o teste de HIV durante uma consulta de rotina, na atenção básica ou em centros de referência de testagem, como o Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA). A testagem é sigilosa, sem necessidade de agendamento e o resultado é obtido, aproximadamente, em 30 minutos. O teste só pode detectar o vírus 30 dias depois do contágio.

Caso seja detectado o HIV positivo, o paciente é encaminhado para unidades de referência. Na capital, os atendimentos são realizados no Centro de Doenças Infecto-parasitárias (Cedip) e no Hospital-Dia Professora Esterina Corsini.

Maurício Pompilio afirma que, nessas unidades de saúde, o paciente será orientado sobre as etapas do tratamento e que exames serão necessários. “Será agendada a consulta médica, os exames laboratoriais e, mediante a esta avaliação, é indicado o tratamento. Existe um tratamento de referência para pessoa que está com HIV, mas a depender de outros problemas de saúde, esses medicamentos são modificados, conforme a necessidade do paciente. Na fase sem complicações, o paciente deverá fazer uma consulta, pelo menos, a cada três meses e exames laboratoriais de três a seis meses. Os medicamentos são dispensados nessas mesmas unidades de saúde onde é feito o acompanhamento”.

Preconceito

Flávio Barbosa* descobriu em 2006 que tinha a doença, ao realizar consulta com um dermatologista para o tratamento de queda de cabelo, que solicitou uma série de exames, entre eles o de HIV. Ao receber a notícia, entrou em desespero e demorou a aceitar. Ele revelou aos familiares e amigos cinco anos depois. “Ninguém sabia, nem minha família, porque eu queria que isso morresse comigo. Em 2011, eu tive uma crise de transtorno bipolar e falei para todo mundo eu que tinha HIV. No começo, as pessoas não deram crédito, outros ficaram na dúvida. Hoje, minha família mais próxima é meu irmão e minha mãe. Meu irmão sabe, me apoia, me dá todo o suporte. Minha mãe não sabe, pois preferi não contar, até porque ela é uma senhora idosa, com uma série de problemas”.

*Nome fictício

Barbosa confessa que sofreu preconceito de sua melhor amiga de infância quando dividiam a mesma casa. “Ela não compreendeu a situação, ficou revoltada porque eu não tinha contado e disse que compartilhava o vaso sanitário comigo. Nossa amizade acabou por conta disso, sofri demais com a falta de sensibilidade dela. Ela não fez questão nem de me visitar depois disso. Então, realmente, às vezes o preconceito vem de onde você menos espera, daqueles que você menos espera”.

Para Fernanda Souza* o diagnóstico foi aceito com tranquilidade. “Não foi uma coisa de outro mundo e não me constrange. Eu não vejo problema em falar da minha situação, além de muitas pessoas não aceitarem o HIV. Tenho que conviver com isso para o resto da minha vida, igual uma pessoa que tem câncer ou diabetes. Vivo normalmente, vou ao médico todo mês, faço exames. Não fiquei com medo, sou uma pessoa muito esclarecida”.

*Nome fictício

Fernanda Souza também relata que o preconceito ainda existe, até mesmo entre os soropositivos. “É muito grande o preconceito, até mesmo entre soropositivos. Quando vou em uma consulta, pegar o retroviral no Hospital-Dia, existem pessoas que também vão até a farmácia do hospital. Ali só entram pessoas para pegar esse medicamento. Elas nem olham para a gente, entram e saem de cabeça baixa. Então, ali é um preconceito delas mesmas. Elas estão na mesma situação do que eu. Estamos ali para tratamento, para buscar uma forma de prolongar a nossa vida”.

Serviço

O Centro de Testagem e Aconselhamento fica na rua Anhanduí, 299, bairro Amambai. Informações pelo telefone 3314-3450.

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