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30 de October de 2017 - 13h33

Escorpiões entram em ciclo de reprodução e aumentam riscos de acidentes

Período entre outubro e janeiro é quando acontece o maior número de casos de picadas que causam danos e lesões nas pessoas

EDUARDO JULIACE, HELTON OLIVEIRA, NORBERTO LIBERATOR
Escorpiões do gênero tityus no Centro Integrado de Vigilância Toxicológica (Civitox)Escorpiões do gênero tityus no Centro Integrado de Vigilância Toxicológica (Civitox)  (Foto: Norberto Liberator)

O calor e a intensificação do período de chuvas dos últimos dias são condições propícias para a reprodução dos escorpiões. O número de picadas de escorpiões é maior nessa época, devido ao período de reprodução. Segundo informações do Centro Integrado de Vigilância Toxicológica (Civitox), nos últimos três anos houve 645 notificações de acidentes em humanos. Uma média anual de 215 casos. De outubro a janeiro, as espécies do animal encontram ambiente adequado para se reproduzirem.

De acordo com o pesquisador do Grupo de Estudos em Espeleologia do Instituto de Biociências da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (Inbio/UFMS), João Frederico Berner os escorpiões são atraídos pela reprodução dos insetos, cuja maioria se reproduz na mesma época. “É o período em que os escorpiões acham a maior abundância de comida no ambiente. É o momento perfeito para terem mais comida, que dá para eles também mais energia para criar os filhotes”. 

Berner afirma que a maioria dos escorpiões é inofensiva à saúde humana. Em Mato Grosso do Sul, os que possuem peçonha são os do gênero tityus, de coloração amarela. “É uma baixíssima quantidade, das 90 espécies do Brasil, que são peçonhentas. A maioria delas é venenosa, sim, todos os escorpiões são. Mas que pode causar danos e lesões aos humanos, é uma pequena porção disso”.

Há diferenças entre animais peçonhentos e venenosos. Os peçonhentos inoculam veneno em outras espécies por meio de ferrões, aguilhões, dentes ou esporões; os venenosos produzem substância tóxica e não a injetam em outros animais, por não terem aparelho inoculador. 

A médica veterinária e plantonista do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), Juliana Resende Araújo afirma que o efeito da picada é mais danoso em pessoas com imunidade baixa e crianças. “Depende muito em quem é a inoculação. Por exemplo, se for uma criança, a situação é muito mais grave do que em uma pessoa que não tem hipertensão, que tem 40, 50 anos e que tenha a saúde boa. No idoso, que, às vezes, tem outras doenças correlacionadas, fica bem mais grave”.

O gênero tityus é dividido em vários subgrupos. Em Mato Grosso do Sul, encontram-se o tityus serrulatus e tityus confluens. Ambos são perigosos à saúde humana e identificáveis pelas características físicas. O serrulatus possui “serrilhas” na cauda e coloração mais escura que a do confluens. As duas espécies são conhecidas como “escorpião amarelo”.

Ela explica que os tityus serrulatus se reproduzem por meio da partenogênese, processo de reprodução em que não há ato sexual. “Numa situação em que [a fêmea] vê condições de alimento e abrigo, ela simplesmente se reproduz. Um escorpião produz cerca de 20 filhotinhos”. De acordo com Juliana Araújo, cerca de duas semanas depois de nascidos, os filhotes de escorpião saem da proteção da mãe e procuram abrigo em outros lugares.

A veterinária afirma que os escorpiões são encontrados majoritariamente “em casas que precisam de manutenção, em paredes que têm umidade e estufam, locais escuros e úmidos”. Os escorpiões não tomam água. Eles se hidratam por meio de contato com a umidade. De acordo com a veterinária, os locais onde esse processo ocorre com mais frequência são armários de cozinha, armários de banheiro, canis, pias de cozinha e panos de chão.

Prevenção e tratamento

João Frederico Berner afirma que, ao sofrer acidente com escorpiões, a primeira medida é matá-lo e, ao buscar ajuda médica, levá-lo para que os profissionais reconheçam a espécie. “Se você pisar e esfregar, como a gente faz com barata, não dá para saber realmente qual é, nem o gênero. Então, para saber a espécie exata, você só mata do jeito menos danoso que for, e leva até o posto de saúde, porque lá eles têm uma ficha de identificação”.

Berner aconselha que as pessoas matem o animal apenas se houver picada. Em caso contrário, o procedimento padrão é mantê-lo vivo e levá-lo a local afastado. “O ideal é que ela não mate, coloque num potinho e jogue em uma mata qualquer”. Segundo o pesquisador, os escorpiões são importantes no controle de mosquitos e de pequenos insetos transmissores de doenças. 

Juliana Araújo afirma que as principais medidas de prevenção são evitar entulhos e limpar a casa frequentemente para evitar o aparecimento de baratas. “A gente sempre pede para fazerem o controle da barata. Consequentemente, você está fazendo o controle do escorpião. Porque é alimento para ele e, se você dá alimento para um animal, a tendência é ele se reproduzir”.

Segundo a médica veterinária, o uso de tampas nos ralos de banheiro e pias de cozinha; panos nos vãos das portas; e de alvejante nos vasos sanitários e pias de banheiro são “medidas cautelares” para evitar o aparecimento de escorpiões. Ela afirma que, na crença popular, existe a falsa ideia de que galinhas são predadoras do aracnídeo. “Muitas pessoas dizem que criam galinhas para isso. As galinhas descansam à noite, e escorpiões são animais noturnos. Elas não ajudam e, além disso, podem transmitir doenças”.

Imediações de córregos e de redes de esgoto são locais mais propensos ao aparecimento do aracnídeo. A aposentada Ivanir Moreira, moradora do bairro Amambaí, vive próxima a córrego e viu escorpiões mais de uma vez.

Segundo ela, a família tem “cuidados redobrados” nesta época do ano. “Sempre procuro ter cuidado com os ralos para eles não subirem pelo esgoto. Tampo o ralo da pia e do box do banheiro. Também não junto entulho, se começa a acumular coisa, já jogo no lixo”.

Ivanir Moreira nunca foi picada pelos escorpiões que encontrou. “Graças a Deus, nenhum me atacou. Mas a gente fica com medo porque nunca sabe quando vai aparecer mais um”. Ela reclama da quantidade de lixo acumulado em terrenos pela vizinhança. “Jogam sofá, jogam garrafa, jogam televisão, plástico, lata. A gente faz nossa parte, mas tem gente que não tem consciência. Além disso a molecada brinca ali, é um perigo”.

A farmacêutica Flávia Luiza Lopes, que atende no Civitox, afirma que a picada se manifesta de forma leve, moderada ou grave.

Nos casos leves, as pessoas têm sensação de ardência, manchas avermelhadas ou alteração de pressão; sem o acompanhamento médico, o quadro clínico evolui para o moderado, no qual ocorrem vômitos, insuficiência cardíaca e dores abdominais; no quadro avançado, há risco de convulsão, edema pulmonar, alterações no sistema nervoso e morte, nos casos de pacientes com baixa imunidade.

O Civitox existe desde 1981 e tem sede em todas os Estados. São 36 centros em todo o País onde realiza o acompanhamento a pacientes afetados por picadas de animais, agrotóxicos, alimentos estragados, exposição a produtos químicos, uso de drogas e outras formas de intoxicação.

Serviço:

CCZ
Av. Sen Filinto Müller, 1601 - Vila Ipiranga, Campo Grande - MS, 79074-460
Telefone: (67) 3314-5000

Civitox
R. Joel Dibo, 267 - Centro, Campo Grande - MS, 79002-000
Telefone: (67) 3386-8655

 

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