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  Friday, 22 de June de 2018
 
30 de October de 2017 - 17h25

Profissionais da saúde serão qualificados para atendimento às mulheres violentadas no estado

O Mapa da Violência de 2015 mostra que os atendimentos às vítimas de violência em unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) somam, por ano, o equivalente a um atendimento a cada quatro

ADRIAN ALBUQUERQUE, GABRIELA CONIUTTI E LUCAS CASTRO
Campo Grande, em 2015, foi a capital com maior taxa de relatos de violênciaCampo Grande, em 2015, foi a capital com maior taxa de relatos de violência  (Foto: Lucas Castro)

Mato Grosso do Sul é o segundo estado com o maior índice de relatos de violência de gênero, feitos por meio de denúncia no Ligue 180, segundo o balanço feito pela Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) há dois anos. Na maioria dos casos, os profissionais da saúde são os primeiros a terem contato com as vítimas e devem informar sobre os serviços da Rede de Atendimento a Mulheres em Situação de Violência, que incluem ações jurídicas e de segurança. O Governo do Estado de Mato Grosso do Sul e o Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso do Sul (TJMS) organizaram o curso “Atenção à mulher em situação de violência”, lançado no dia 30 de outubro, que tem o objetivo de orientar e qualificar os profissionais no atendimento às mulheres vítimas de violência, como uma medida que visa a humanização no sistema de saúde no estado. 

Segundo a juíza da 3ª Vara da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, Jacqueline Machado para que o atendimento seja humanizado em relação às mulheres violentadas, é necessário reconhecer que há características que diferem de casos de violência comum. Ela afirma também que, num primeiro momento, se bem acolhida e orientada pelo setor da saúde, pode dar prosseguimento ao processo de denúncia. "Os profissionais da saúde precisam entender o que é violência de gênero, porque ela tem especificidades bem diferentes e próprias. Então, se o profissional entende essas especificidades ele tem outra forma de ver essa vítima e outra forma de atender".

A juíza ainda afirma que, na capital há, em média, um registro de 20 pedidos de medida protetiva por dia. Ela ressalta que os índices de violência ainda perduram, mesmo com a criação da Lei Maria da Penha. "Sabemos que uma lei não muda um comportamento, mas a educação muda. Vivemos num estado patriarcal, que tem a questão do machismo muito forte. Então, para revertermos esse quadro é somente por meio da educação, com a mudança de cultura. Acredito também que a repressão é importante. É necessário que a gente responsabilize o agressor pelo ato praticado".

De acordo com o Mapa da Violência: Homicídio de Mulheres, de 2015, os atendimentos às vítimas de violência sexual, física ou psicológica em unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) somam, anualmente, 147.691 registros, o equivalente a um atendimento a cada quatro minutos. O relatório também mostra que o Mato Grosso do Sul foi o estado com as maiores taxas de atendimento, com 37,4 por 10 mil mulheres.

Para a enfermeira Glauciene Cruz os profissionais da saúde passam por um processo de sensibilização e humanização. "A gente trabalha para que a mulher receba um bom atendimento nosso, para que a situação dela seja resolvida. Se não resolveu aqui na Unidade Básica de Saúde (UBS), podemos encaminhá-la para um setor de referência, o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), que possui psicólogos e psiquiatras que podem ampará-la."

    Glauciene Cruz atua na UBS Pioneiros (Foto: Lucas Castro)

A enfermeira relata que, ao receber as notificações de violência, é preciso analisar a situação da mulher e da família para que o atendimento seja o mais adequado e acolhedor. "Analisamos o contexto social que está se passando, como ela está vivendo, se o marido ainda vive com ela, entre outras coisas. Quem faz a visita é o assistente social. Quando não tem assistente social, o enfermeiro faz uma visita domiciliar para essa mulher". 

Dados da violência

O Brasil está entre os países com maior índice de homicídios femininos - feminicídios -, com uma taxa de 4,8 assassinatos em 100 mil mulheres. O país ocupa a quinta posição em um ranking de 83 países, segundos dados do Mapa da Violência de 2015: Homicídio de Mulheres no Brasil.

Entre 2001 a 2011, ocorreu uma morte a cada uma hora e meia, de acordo com levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Em 2015, de acordo com o balanço feito pela Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), Mato Grosso do Sul é a segunda unidade federativa com maior taxa de relatos de violência no Ligue 180. 

Curso “Atenção à mulher em situação de violência”

O curso foi planejado pela Subsecretaria de Políticas Públicas para Mulheres do Estado de Mato Grosso do Sul (SPPM/MS), Secretaria de Estado de Saúde (SES) e Maternidade Cândido Mariano com o propósito de incluir diversas áreas que atuam na rede de atendimento à mulher, que abrangem aspectos jurídicos, psicológicos, sociais, políticos e de atenção à saúde.

As aulas estão disponíveis no portal do Telessaúde, núcleo de Mato Grosso do Sul. O projeto faz parte do programa “EmPENHAd@as pela Saúde” e foi pela Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do TJMS.

Elaborado por Adrian Albuquerque, com informações do Telessaúde

Segundo a enfermeira e coordenadora estadual do Telessaúde, Deisy Zanoni o principal objetivo do curso é oferecer uma atenção humanizada, para que a vítima sinta-se acolhida nos serviços. "A nossa expectativa é que haja uma sensibilização dos profissionais que atuem com mulheres em situação de violência a realizarem uma escuta qualificada e atenta para reconhecer as possíveis situações de violências. É necessário também que estes conheçam os serviços de apoio à mulher nessas condições, o modo de buscar apoio jurídico, assistencial e psicológico dentro da rede de atendimento".

   A subsecretária da SPPM (Foto: Adrian Albuquerque)

De acordo com a subsecretária da SPPM/MS, Luciana Azambuja o curso foi focado para a área da saúde porque, na maioria dos casos, o profissional de saúde é o primeiro a ter contato com uma mulher violentada. “Às vezes, ela não vai para uma delegacia de polícia e não procura outra pessoa. Ela precisa de alguém da saúde. Então, entendemos a necessidade de tentar fazer com que esse profissionais compreendam, com empatia, 'pensa se fosse com você'. Se ela já sofreu a violência, superou o medo, a vergonha, já conseguiu sair de casa e dar um jeito de chegar na unidade de saúde, o mínimo que ela precisa é ser atendida de modo digno, sem julgamentos ou piadinhas".

Luciana Azambuja afirma que as políticas públicas paras as mulheres são voltadas principalmente para os municípios do interior. “No interior não há todos esses serviços especializados como os oferecidos pela Delegacia de Atendimento à Mulher e, principalmente, pela Casa da Mulher Brasileira aqui em Campo Grande”.

A feminista e acadêmica de Ciências Sociais da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Fernanda Campos acredita que os profissionais que estão ali para aprender devem estar motivados a fazer um atendimento mais humanizado. “Não adianta se submeter a um treinamento só para entrar por um ouvido e sair pelo outro. Você tem que estar de cabeça aberta e acreditar naquilo que está sendo ensinado, refletir sobre aquilo. Então, eu acho que, por meio do curso e também de conversas e debates, a pessoa tem que, acima de tudo, querer ouvir e não julgar assim de primeira, não ser preconceituosa”.

A estudante ainda ressalva que a qualificação deve ser feita no momento em que o profissional de saúde é admitido em uma unidade de atendimento à população e que seria essencial educar permanentemente agentes policiais e quaisquer outros funcionários que trabalham no atendimento à mulher, principalmente no que se refere às denúncias e processos.

Serviço

Em casos de violência contra a mulher, denuncie na Central de Atendimento à Mulher, por meio do Ligue 180. A ligação é gratuita e anônima.

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