CAMPO GRANDE19º MIN 26º MAX
Primeira Notícia UFMS
  segunda, 20 de novembro de 2017
 
20 de fevereiro de 2017 - 19h52

Combate à leishmaniose terá mudanças no Centro de Controle de Zoonoses

Prevenção ao mosquito transmissor da doença é a proposta do médico veterinário que assumirá o Centro neste mês

GABRIELA DE CASTRO, JULIANA CRISTINA E PEDRO BAASCH
Dara é portadora de leishmaniose e faz tratamento há seis anosDara é portadora de leishmaniose e faz tratamento há seis anos  (Foto: Gabriela de Castro)

Dados da Secretaria Municipal de Saúde Pública (Sesau) mostram que a capital possui 162 mil cães e cerca de 20% possuem o diagnóstico de leishmaniose. Segundo o assessor da Sesau, Michel Grance o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) realiza o exame para a leishmaniose gratuitamente e, os resultados quando positivos para a doença, o animal é recolhido para realização da eutanásia, mediante aprovação do dono. Para o novo diretor do CCZ, André Luís Soares da Fonseca a castração de animais é uma das propostas na prevenção e transmissão da leishmaniose em cães.

O médico veterinário André Luís Soares da Fonseca acredita que as políticas de eutanásia são repressivas e a castração pode ser uma alternativa para a redução de animais infectados.“Você deixa surgir o problema para depois fazer a castração. A gente acredita que a política deva ser voltada para a castração de animais. Temos um projeto para, quando eu assumir o CCZ, de fazer a castração de animais pontual. Vamos trabalhar nos bairros que tem mais casos de leishmaniose, geralmente bairros de periferia, com menor poder aquisitivo”.

Para Fonseca o primeiro passo é a conscientização (Foto: Pedro B.)

Fonseca explica que a principal proteção contra o mosquito é a instalação de telas nas janelas de casa e a limpeza dos terrenos. “É importante deixar a janela telada. Se o seu vizinho tiver um jardim super bem cuidado, aguado e adubado, também vai ter mosquito que vive nesse tipo de ambiente. Uma coisa que faz proliferar muito sabidamente o mosquito, é fruta podre”. Segundo Fonseca, a prevenção tem que ser o principal foco, e não deve funcionar como mutirão. É necessária uma política permanente e constante.

Fonseca afirma que a leishmaniose é um tipo de doença urbana. “A relação direta que tem de ser pesquisada não é a doença canina ou a doença humana, e sim a presença do vetor que vai caracterizar, de fato, a maior ou menor quantidade de doenças. O que mata o mosquito dentro da sua casa? O inseticida, porque nós destruímos os predadores naturais e artificializamos o controle do mosquito. O uso de telas em janelas é algo óbvio em país tropical".

O professor do curso de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, especializado em parasitologia animal, Fernando Paiva explica que o agente causador da doença é um protozoário. Para que o inseto adquira e transmita a doença, é necessário a alimentação de sangue de animal infectado. Segundo Paiva, pelos aspectos biológicos do mosquito, o combate é difícil. “O controle é focado em medidas ambientais, como limpeza, remoção de matéria orgânica e uso de inseticidas, quer seja por aspersão ou proteção de telas. Nos animais o uso de coleira com inseticidas é uma opção de prevenção”.

Paiva relata que a transmissão da leishmaniose é, principalmente, de forma vetorial. Há outras modalidades como congênita, transfusão de sangue, transplantes de órgãos e tecidos, além de suspeita da transmissão por relação sexual. “A infecção dos organismos vertebrados ocorre pela picada do vetor portador de formas infectantes de Leishmania. Entre o inseto vetor e o vertebrado, nunca entre insetos”.

De acordo com Paiva a leishmaniose, em suas diversas formas clínicas, surgiu no início do século XX. "No Brasil, essa forma clínica era comum nos trabalhadores que construíram a estrada de ferro no noroeste do país, quando era conhecida, no início do século XX, como 'úlcera de Baúru'".  Paiva explica que a leishmaniose foi diagnosticada em Mato Grosso do Sul no início da década 80 nas cidades de Corumbá e Ladário, tanto em cães quanto em humanos. Nos anos seguintes, foi diagnosticada em outras cidades.

Para a médica veterinária, Ana Lúcia Salviatto Andrade é preciso compreender que sacrificar os animais não resolverá o caso da doença. “A leishmaniose é transmitida através do mosquito, é específico. Não é um pernilongo, não é uma mosca, é o Phlebotominae, mais conhecido como mosquito-palha. A porcentagem de cura dessa doença é pequena, o que nós temos é o controle dela e a qualidade de vida do animal”.

Ana Andrade afirma que é contra a eutanásia e que os animais portadores da leishmaniose precisam ser tratados. “Esse tratamento tem que ser feito à risca, com a orientação exclusiva de seu médico veterinário, porque só assim nós vamos conseguir fazer com que tenhamos um animal positivo e não transmissor da doença em casa, que é o que os donos dos bichos mais querem”.

COMENTÁRIOS
 © Copyright 2017 Primeira Notícia