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SAÚDE

Campo Grande enfrenta epidemia de Sífilis

Capital registra mais de 500 casos por ano desde 2013

Eduardo Juliace, Helton Oliveira e Norberto Liberatôr, de Campo Grande24/09/2017 - 13h11
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O número de casos de sífilis em Campo Grande aumentou em 2017. De acordo com a coordenadora do Programa IST/Aids da Secretaria Municipal de Saúde Pública (Sesau), Denise Leite Lima, a capital registrou 662 casos de contaminação individual entre janeiro e agosto, mais do que os 564 registrados em todo o período de 2016. Em relação a 2017 esse número representa aumento de 30% no número de casos.
 
A escala de notificações individuais de sífilis teve aumento de mais de 6,5 mil casos nos últimos 10 anos. Em 2007, foram 45 registros. O Ministério da Saúde incluiu a doença na lista de epidemias nacionais em 2015, ano em que houve aumento em 10 estados, entre eles Mato Grosso do Sul, que apresentou crescimento de 6% entre 2014 e 2015. 
 
A sífilis é causada pela bactéria Treponema Pallidum e considerada infecção sexualmente transmissível (IST), nomenclatura estabelecida pelo Ministério da Saúde em relatório de 2015. A mudança do termo ocorreu porque as infecções têm períodos assintomáticos, nos quais não são consideradas doenças e, se não tratadas, evoluem para doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). 

A infecção é transmitida pela relação sexual, via penetração, oral ou contato de mucosas. A médica residente no Hospital Dia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Lorena Castoldi afirma que muitas pessoas negligenciam o sexo oral como meio de transmissão. “Quando fala em sexualidade, a gente acha que é só penetração. Mas sexo oral pode transmitir muito e com facilidade também”. 

Fonte: Secretaria Municipal de Saúde

Lorena Castoldi diz que muitas pessoas desconhecem os efeitos da sífilis à saúde. "Ela é pouco valorizada, porque acham que é só o cancro no genital, uma feridinha". Na fase primária, a sífilis causa feridas pequenas pelo corpo; na secundária, o infectado apresenta erupções na pele, dores na garganta e nódulos nas axilas; a fase terciária leva à queda de cabelos, cegueira, demência, manchas pelo corpo, perda gradual dos movimentos musculares, paralisia e morte.  
 
Entre as fases secundária e terciária, há o estágio latente, em que os sintomas desaparecem. Lorena Castoldi afirma que, nesse período, o risco é maior para mulheres grávidas. "Não tem sintoma, só que está transmitindo para outras pessoas. A maior complicação é para as gestantes, porque uma gestante infectada pode transferir para o neném". De acordo com artigo publicado na Revista Hospital Universitário Pedro Ernesto, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), a maioria das gestantes com sífilis encontra-se no estágio latente.

 

A coordenadora do Programa de IST/Aids da Sesau, Denise Leite Lima diz que muitos infectados ignoram os sintomas e não procuram o tratamento adequado. "Muitas vezes passa despercebido, principalmente na mulher". Ela afirma que há casos confundidos com outras enfermidades. "Acham que foi alergia, que foi uma reação alérgica a algum produto de limpeza, a uma roupa, a um perfume". 

Denise Lima afirma que a falta da vacina benzilpenicilina benzatina, conhecida como Benzetacil, contribuiu para o aumento dos casos. “A única medicação que passa a barreira transplacentária é a Benzetacil, que trata a gestante e o bebê, então a falta dela desde 2014 talvez levou ao aumento dos casos de sífilis”. A vacina Benzetacil é utilizada no tratamento da doença e para evitar a sífilis congênita, transmitida da mãe para o bebê. O remédio está em escassez há três anos e, em julho, sua produção foi suspensa pela fabricante Eurofarma, por tempo indeterminado. Segundo Lima, a Sesau possui estoque da medicação até o mês de dezembro.
 
A sífilis congênita em Campo Grande aumentou de 24 registros em 2007 para 91 em 2012. Nos últimos 10 anos, o maior número de casos foi do ano passado, que fechou com 127. De janeiro a agosto deste ano, foram 93 notificações. Os bebês contaminados com sífilis têm mais chances de morrer antes ou durante a gestação, e de nascer com cegueira, paralisia, surdez, deformações, meningite e demência. 


 
Centros especializados 
 
Os testes para diagnóstico de sífilis e outras ISTs são realizados em postos de saúde e no Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA). De acordo com a enfermeira Mara Alice Bérgamo, as diferenças do CTA são o ambulatório específico para tratamento de ISTs e o atendimento universal, expandido a pacientes sem cartão do Sistema Único de Saúde (SUS) e a estrangeiros. 
 
Pacientes a partir de 13 anos são atendidos pelo serviço. Mara Alice Bérgamo explica que menores de idade são atendidos sem necessidade da presença de responsáveis. “De 13 anos em diante, eu não preciso nem de autorização dos pais. Nem de pai, nem de mãe, de ninguém. Eu tenho um documento ministerial que libera essa pessoa. Se ela estiver em plenas faculdades mentais, eu posso atendê-la”.

Segundo a enfermeira, a maioria dos casos de infecção ocorre entre os jovens. “Na faixa etária de 15 a 26 anos, é onde está o maior foco”. Ela afirma que a causa é a falta de proteção entre pessoas mais novas. “Os jovens são geralmente ativos sexualmente. E eles não estão querendo usar proteção”. 

Os CTAs existem em todo o Brasil e são vinculados ao Ministério da Saúde. Porto Alegre foi o primeiro município que implantou o serviço, em 1988. Três anos depois, criou-se o CTA de Campo Grande. Em 1994, o presidente Itamar Franco fechou acordo com o Banco Mundial para investimentos nos programas de prevenção e combate às DSTs e Aids e iniciou a implantação dos CTAs em todos os estados.
 
Prevenção e diagnóstico 
 
O uso do preservativo não evita o contágio em todos os casos de sífilis. No combate específico ao HIV, a camisinha é eficiente em quase 100% dos casos, com raras exceções de transmissão por meio de contato com o sangue contaminado. Mara Alice Bérgamo explica que o percentual é menor para outras ISTs. “Nas outras infecções, ele decai um pouquinho. Ele vai de 98, 99 a 97%. Por isso é difícil erradicar a sífilis. E para HPV é quase zero, então o que mais tem é HPV”. 
 
A enfermeira instrui as pessoas que fazem tratamento a não terem relação sexual. “Não pode ter sexo, protegido ou desprotegido, durante o tratamento. É abstinência sexual, por um mês. Porque se o remédio tiver mais efeito em uma pessoa e menos na outra, aquela em que ele fez menos efeito vai passar para o outro”. 
 
Ela afirma que há preconceito e desconhecimento sobre as ISTs. "As pessoas ligam muito a IST com promiscuidade, e não é isso. Isso que tem que ser quebrado. Às vezes, uma pessoa que vem aqui, nem sexo fez e está infectada". Mara Alice Bérgamo explica que a sífilis é contraída de várias formas além do ato sexual. "Tive paciente que pegou no corte do dedo, de manipular secreção. Teve um que sentou a pessoa no cangote dele, foi pular carnaval e, com a fricção, a bactéria entrou. Nem tudo é sexo". 
 
A sífilis é diagnosticada pelo teste rápido e, se o resultado é positivo, faz-se o teste VDRL (sigla em inglês para "Laboratório de Pesquisas de Doenças Venéreas). Há casos conhecidos como "falsos negativos", em pessoas na fase latente da doença, e "falsos positivos", em pacientes com imunidade comprometida. Aplica-se o FTA-ABS (abreviação de "Teste de Absorção de Anticorpos Treponêmicos Fluorescentes", em inglês) para confirmar a positividade ou negatividade do VDRL. 
 
O Ministério da Saúde recomenda o tratamento para os pacientes com diagnóstico positivo no teste rápido. Mara Alice Bérgamo explica que a medida faz parte do plano de erradicação. "Como o Ministério quer erradicar a sífilis, se surgir no teste, eles já pedem para tratar. Para saber se aquilo realmente é treponema sifílico, precisaria do VDRL e do FTA-ABS, mas como a gente está sem eles, tanto no estado quanto no município, na dúvida é para tratar". 
 
Serviço: 

Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA)
- Av. Fábio Zahran, 249/349
Telefone: (67) 3314 3450 

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