OPINIÃO

Uma suposta polarização política

Da disciplina de Jornalismo Opinativo, de Campo Grande20/05/2020 - 08h00
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Há tempos a mídia hegemônica vem relativizando discursos de caráter insipientes através do enraizamento da polarização, onde as propagações de convicções anticientíficas são protegidas pelo verniz do debate amplo e restrito. Dessa forma, discursos que antes representavam uma ameaça à ordem estrutural da sociedade, agora com a covid-19 se mostram uma ameaça direta à vida das pessoas, dada a legitimação que princípios como esses ganham ao serem expostos pela imprensa dessa maneira.

Um bom exemplo disso é o surgimento dos “debates” na mídia tradicional, principalmente na recente CNN Brasil. Esse formato segue a orientação do The Great Debate, programa exibido no horário nobre da CNN norte-americana, que constitui um modelo de apresentação de diálogos entre uma pessoa dita progressista e outra de caráter conservador, evidenciando a pluralidade de ideias. Em meio ao contexto de pandemia, um dos integrantes, Caio Coppolla, defende abertamente a transgressão diante das recomendações da OMS (Organização Mundial de Saúde) e de qualquer outro tipo de argumento científico. A CNN, como uma forma de entreter as massas surfando na dita polarização, exibe esses discursos em horário nobre.

Normalizar opiniões não saudáveis para a sociedade, principalmente diante da crise em que vivemos, está além de espectros políticos que dividem a população. A propagação de ideias sem qualquer pudor ou controle por parte dos meios de comunicação permite a compactação de princípios que podem pôr em risco a saúde da sociedade. Nesse sentido, certos meios de comunicação têm falhado de forma grosseira ao relativizar ataques feitos às medidas de segurança contra a Covid-19.

Desde 2013, com a efervescência de extremos políticos, o surgimento de grupos ultraconservadores no meio virtual se tornou cada vez mais comum, consolidando assim um espaço de debate entre frentes intituladas de esquerda e outras de direita. Não demorou muito para os meios de comunicação adotarem esse formato: o programa de rádio do Pânico, apresentado pela emissora Jovem Pan FM, apoderou-se dessa ideia, convidando personagens importantes do cenário político brasileiro a realizar dinâmicas dialógicas com seus jornalistas (nesse programa que surge Caio Coppolla). A audiência logo subiu, cravando recordes no horário nobre da rádio e se revelando líder do segmento.

Fechar os microfones para a retórica extremista e irresponsável pode ser difícil quando sua figura máxima é o próprio Presidente da República. Cada vez mais se percebe que declarações “polêmicas” do presidente tratam-se de artifícios semióticos, levando o discurso a um patamar sensitivo e não inteligível, estabelecendo assim tentativas de operar elementos irracionais da população. Se Jair Bolsonaro assumisse uma posição diferente ficaria clara sua falta de capacidade de liderança diante da crise do coronavírus. O jornalismo deve parar de rotular suas declarações como meras polêmicas e passar, portanto, a revelar suas estratégias populistas.

Em um momento em que o Brasil bate recorde de mortes, resultando em ampliações emergenciais de cemitérios, o número de negacionistas e defensores de políticas obscurantistas vem diminuindo, ou ao menos limitando suas declarações. Cabe ao jornalismo perceber que dar espaço à narrativas anticiência não é proporcionar um espaço amplo democrático. Pressupondo uma teoria do agendamento, que defende a ideia de que a sociedade tende a considerar mais importante os assuntos veiculados na mídia, o jornalismo não pode considerar o debate entre essas questões, auxiliando em sua propaganda.

O termo polarização, alimentado por anos pela mídia hegemônica, é usado para que não haja discernimento entre debates incorporados dentro de um ambiente institucional e debates que assumem um risco à sociedade. A convivência com um governo federal de viés antidemocrático, que faz constantes ataques à ciência nesse momento, não pode ser encaixado como apenas o outro lado da moeda em um país polarizado. A mídia comercial deve colocar de lado seus interesses econômicos liberais e romper com determinada postura maniqueísta.

Portanto, em um cenário político marcado pelas fake news e teorias conspiratórias, muitos veículos midiáticos acabam por rotular uma disputa entre histeria – descaso, direita – esquerda, contribuindo para uma lógica de naturalização do desprezo contra a ciência, que se encontra escondida sob o manto da liberdade de expressão.

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