OPINIÃO

Não tem mais onde furar

Da disciplina de Jornalismo Opinativo, de Campo Grande18/05/2020 - 16h14
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Caminhando por um campo metafórico, ou nem tão metafórico assim, a guerra ideológica entre poderosos e jornalistas é caso antigo, mas não menos atual. De um lado, um governo familiar truculento, que com fome de poder ilimitado levanta sua bandeira e decreta “Monarquia ou morte!”. Enquanto de outro, jornalistas desafiam os credos, decretos e chefões em busca de exercer o legado da profissão: proteger a democracia.

Em um tempo em que a população se encontra caótica e busca por notícias confiáveis, as falsas informações se disseminam rapidamente e fica a critério do jornalismo profissional se tornar a fonte de checagem e serviço público mais confiável sobre a pandemia da covid-19.

Segundo a pesquisa do Datafolha, realizada entre os dias 18 e 20 de março, o jornalismo profissional atua como fonte mais segura sobre a crise atual. A credibilidade jornalística é distribuída em setores, e liderando o ranking estão TVs e jornais, com o índice de confiabilidade em 61% e 56%, respectivamente, de acordo com as informações propagadas sobre coronavírus. Em sequência, se encontram os programas de rádio e sites online de notícias, com 50% e 38%.

Diante de toda repressão aos jornalistas sofrida nos últimos anos por conta do avanço do governo antidemocrático vigente, ainda que não haja como combater o “vírus” de imediato, a melhor e mais segura forma de combate às fake news é a informação idônea e de credibilidade. Os reprovadores das autoridades administrativas em questão pretendem ter segurança sobre as informações quanto a doença em si, sua prevenção e o que os especialistas tem a dizer. Então, a autoafirmação do jornalismo atua como resistência diante de uma “sociedade de controle”.

Em contraponto, cabe evidenciar a eficiência presidencial em incitar o descrédito a essa gama de serviços prestados à comunidade. Os discursos de retaliação à mídia, por parte de Jair Bolsonaro, se intensificam ao passo que o seu governo se torna impositivo e desrespeitoso com a integridade humana. Em meio a uma quarentena mundial, a despreocupação do presidente e sua tentativa de minimizar a pandemia a uma simples “gripezinha” une seus súditos em aglomerações nas ruas, sem as medidas profiláticas, para ovacionar o mito, ou melhor, o Messias que vai garantir a salvação a todos os seus apoiadores.

Apesar de não se declarar de fato um coveiro, Jair Bolsonaro tem cavado covas todos os dias com seus ditos afim de apaziguar e invisibilizar o pranto da família que é proibida de se reunir para enterrar o ente vítima da letalidade do vírus. Afinal, “e daí?”

Na sua mira estão fanáticos blindados pelas crenças em discursos vazios, ou pela simples e velha ignorância, que seguem clamando pelo AI-5 sem ter noção alguma de seu significado, menos ainda buscam o jornalismo informativo para averiguar significação, já que a postura de seu líder primitivo e ignaro aponta aos jornalistas para que fiquem ‘quietos’ enquanto seus apoiadores acusam a imprensa de ‘canalha’.

Na coletiva do dia 30 de abril, diante do distanciamento crucial da imprensa para não sofrer qualquer tipo de violação física já que, segundo o relatório da Federação Nacional dos Jornalistas, em 2019, 70% dos ataques contra jornalistas partiu de políticos liderados por Jair Bolsonaro e, além disso, em quase 60% foi responsabilizado sozinho pelos ataques. Ainda assim, a ironia presidencial se acentua no seguinte discurso. “Mas vão abandonar o povo? Nunca vi isso, a imprensa que não gosta do povo.”

Fantasia. Histeria. Medinho. Gripezinha. Assim o vírus que impôs ao mundo um estado de calamidade é ridicularizado pela hostilidade presidencial.

Por isso, o jornalismo tem função, ou é minimamente esperado que tenha, de repudiar qualquer tipo de ameaça ao Estado de direito, mesmo que isso custe enfrentar um governo truculento e de perseguição. Estar aliado à população, em uma causa humanitária e que gera consequências graves para a sociedade, não é só um ato de liberdade das amarras incisivas governamentais, como também de resistência e oposição às imbecilidades que ameaçam a democracia. O jornalista já se encontra calejado em meio a tantos ataques, então, faz-se referência às palavras musicadas de Adoniran Barbosa, “não tem mais onde furar.”

De toda forma, o país precisa se apegar a dados e informações confiáveis, coisa que, em muitas das vezes, apenas o jornalismo profissional é capaz de atingir com êxito e tentar preservar a integridade social.

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