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17 de novembro de 2014 - 14h57

Contra a parede: pichação e grafite como expressão

JOÃO MARCELO SANCHES E GUSTAVO ARAKAKI

Acompanhamos uma frequência quase semanal de publicações sobre pichações e o grafite pela cidade, e as matérias seguem sempre a tônica de entrevistar apenas os cidadãos que foram atingidos por pichadores e ouvir suas reclamações, sem acrescentar nada novo para a discussão. Como instigadores, característica primordial do jornalista, tentamos fugir do lugar comum ao abordar este tema, não nos atendo a respostas prontas baseadas na culpabilidade do sistema. Ao invés disso, acompanhamos histórias que ilustram de modo mais tangível o que cada personagem sofre em razão ou por consequência do que fazem. Nada ali é feito por acaso; tanto o grafite quanto a pichação requerem um desenvolvimento estético que, para muitos, certamente foi deixado de lado em uma assinatura de cor singular sob um viaduto, mas que também abarcou originalidade e criatividade.

As conversas com os agentes destas atividades nos levaram ao conceito de unificação das intervenções. Pichadores e grafiteiros consideram seus rabiscos como modalidades de um mesmo produto final; um com maior desenvolvimento estético que o outro, mas nem por isso menos criativo e trabalhado em sua concepção. O ego é, sim, o principal combustível para muitas das atividades: deixar a marca em um lugar mais alto ou de mais difícil acesso é uma justificativa presente em maior grau do que a revolta com o governo ou sistema. A adrenalina que tanto pichadores ou grafiteiros alegam sentir ao realizarem um trabalho ilegal é, segundo eles, inigualável. Ainda assim, sem uma ideologia expressa com clareza por meio das latas de spray, ambas as atividades se mostram como reflexos das desigualdades sociais na capital. Tanto o grafite quanto a pichação são formas de lazer para campo-grandenses que sofrem com a falta de infraestrutura em diversos níveis e setores. Protestam, sem saber que estão protestando; e por isso chamam a atenção apenas da ala sensacionalista da mídia local.

Tanto a observação da realidade de pichadores e grafiteiros campo-grandenses quanto o convívio com regiões periféricas da cidade nos permite afirmar que a cidade passa por um processo de desenvolvimento localizado, falhando em atender comunidades e regiões marginais com as mesmas condições de bairros centrais. Ainda que tal desigualdade não possa ser considerada a única razão para o crescimento destas intervenções gráficas, ela é, potencialmente, agravante de questões sociais mais severas que a disseminação das marcas em muros, como a violência. A constatação do frequente uso de drogas entre os agentes destas atividades comprova que elas já não são suficientes para afastar crianças e adolescentes de caminhos muitas vezes sem volta.

A “Cidade Morena”, aos poucos, ganha mais e mais tons de cinza. Prédios e concreto disputam espaço com o verde antes mais presente em Campo Grande. A verticalização, o crescimento periférico e o desenvolvimento de uma cultura urbana com personalidade própria culminam em situações e debates que não entravam na pauta dos cidadãos. E tanto o grafite quanto a pichação afetam, hoje, mais do que somente o seu suporte previsto (muros e paredes), mas também o cotidiano dos campo-grandenses.

Através de estudos e exemplos práticos, podemos afirmar que a pichação e o grafite são atividades irreversíveis. Ainda que individualmente, as marcas de tinta e spray sejam efêmeras, o processo em si seguiu uma tendência de crescimento em várias metrópoles e centros urbanos do mundo. Com o tempo, descobriremos qual será o rumo do grafite e das pichações em nossa cidade; se convergiremos para a incorporação destes elementos como parte de nossa cultura urbana ou seguiremos um rumo inédito. Seja qual for o resultado deste fenômeno social nos próximos anos, crucial, para nós, é que qualquer reflexão relacionada ao tema seja mais tolerante e fundamentada, não apenas para um lado, mas para todos os participantes.

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