OPINIÃO

A fome do medo alimentada pela imprensa

Da disciplina de Jornalismo Opinativo, de Campo Grande19/05/2020 - 16h37
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O Brasil vivencia um período de intensa polarização ideológica, o qual não se limita apenas ao âmbito da política partidária, mas atinge todos os setores sociais, inclusive a cobertura jornalística. Essa bipolaridade, acirrada com a atual crise de saúde mundial, mas iniciada a partir do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (2016), exaltou os ânimos da população brasileira e provocou a tomada de “lados”, causando uma segmentação de juízos no país. Isso contribui para que o leitor fique à mercê da disputa, sem saber qual informação veiculada é confiável, o que potencializa a disseminação do pânico e do medo, deixando o foco principal, que é a notícia, em segundo plano.

A desordem nas ideias dos meios de comunicação de massa e a busca por sua hegemonia no mercado de comunicação provoca-os a medirem forças com o Governo Federal (e/ou entre si). De modo que, a linha editorial dos “media mass” tradicionais defende a importância do isolamento social e os perigos da Covid-19, não por razão exclusiva de este ser o discurso da OMS (Organização Mundial de Saúde), mas principalmente por ser o contrário do que é sustentado pelo atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. Esse cenário é evidenciado, especialmente, pelo Jornal Nacional, apresentado em horário nobre pela Rede Globo, de forma que os âncoras do programa, William Bonner e Renata Vasconcellos, vêm criticando abertamente as decisões tomadas por Bolsonaro, declarando diretamente, assim, um embate com a presidência, escancarando a posição da própria emissora.

A irresponsabilidade do jornalismo brasileiro em tempos de pandemia ignora o fato de que a abordagem midiática define a agenda do debate público. Essa cobertura exagerada, mais presente nos grandes monopólios de comunicação, propaga notícias ruins massivamente que geram verdadeiros impactos negativos no psicológico dos leitores e telespectadores, os quais ficam divididos entre se informarem para evitar a ignorância ou ficarem isentos desse tipo de conhecimento para manterem a saúde mental ou, ainda, seguirem o caminho da desinformação e fake news, cenário este denominado de “epidemia do pânico” pelo Mestre em Comunicação Contemporânea pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM), Wilson Ferreira. Wilson argumenta também, em artigo publicado no dia 12 de abril no site Cinegnose, sobre o “jornalismo no álcool em gel”, que representa esse confronto “Grande Mídia VS Bolsonaro”. De um lado, a romantização do isolamento social pela classe média e, do outro, a criação de um “telecatch para o respeitável público”. Ele considera essa maneira de atuação um oportunismo irresponsável, que pode ser visto em ambos os lados: a mídia faminta pela exposição do presidente, visando abaixar sua popularidade, e Bolsonaro adorando ter a veiculação de sua imagem.

Ao abordar as ações da imprensa, enfatiza-se que a mensagem se molda em decorrência da forma em que é narrada, por meio da escolha dos verbos e do impacto das palavras. Esse pensamento é apontado por Márcia Franz Amaral, professora do Programa de Pós-graduação em Comunicação pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), quando de sua participação em um debate realizado ao vivo pela SBPJor (Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo) na sexta-feira 24 de abril. Apesar de acreditar na importância do jornalismo, Márcia destaca que em casos extremos ele assume uma radicalização na produção e sofre com a falta de especialização de seus profissionais. Termos e expressões são usados de maneira sensacionalista, como é observado na pandemia do coronavírus a circulação de falas como “vírus assassino” e metáforas bélicas. Ela afirma que isso acaba “escrevendo os acontecimentos em ordem imaginária”, ampliando o pavor na população. A chave, então, para a mídia, está nos cuidados não tomados com as palavras usadas para passar a informação, constituindo um desserviço para os consumidores de notícia, pois a escolha dos vocábulos produz efeitos distintos no imaginário popular, ora alimentado pelos veículos de comunicação, ora alimentado pelo desdém presidencial para com a doença. Temos um público atônito, confuso, diante do bombardeio de informações controversas.

É preciso, então, que o jornalismo se lembre de seu papel na sociedade e comece a atuar com responsabilidade e integridade, colocando a notícia como foco principal, e não seus interesses políticos presentes na disputa de poder.

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