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11 de maio de 2015 - 15h54

A educação sangra num país que não respeita seus educadores

IAGO PORFÍRIO E ESTEVAN OELKE

No mês em que se comemorou o Dia Internacional da Educação, o quadro que se pintou não foi, certamente, o dos mais animadores a respeito da busca de elevar a qualidade da educação. Nas palavras de Paulo Freire, no livro 'Educação e Mudança' (1981), é indiscutível a conscientização do papel do trabalhador social no processo de mudança, “a mudança de uma sociedade de oprimidos para uma sociedade de iguais”.  

Pensar no desenvolvimento do país é, também, respeitar e valorizar o professor. No entanto, no dia 29 de abril, em Curitiba, quando professores e funcionários da rede estadual de ensino do serviço público do Paraná decidiram fazer uma manifestação legítima em frente à Praça dos três poderes, onde ficam a Assembleia Legislativa, o Palácio Iguaçu (sede do governo do estado) e o Tribunal de Justiça, a sociedade brasileira assistiu a um confronto entre trabalhadores e a polícia militar. Foram mais de duas horas de extrema violência contra professores e professoras, sob o uso de bomba e tiros de balas de borracha. Até um cinegrafista da TV Bandeirantes foi mordido por um cachorro da polícia. Ação essa que foi referendada pelo governador Beto Richa (PSDB). Segundo a prefeitura de Curitiba, 213 pessoas ficaram feridas. Para a Associação dos Professores do Paraná (App-sindicato), o número de feridos chega a 392. 

A contradição salta à vista quando nos atentamos ao que é veiculado pela mídia. Não houve confronto, disso não tenha dúvida, como os jornais pressupõem. Houve um excesso militar de uma polícia agressiva, repressora e autoritária, que remonta aos períodos da ditadura, com autorização do governador Richa. Desse modo, não há margem para qualquer dúvida que a responsabilidade dessa ação violenta é do governador. Acrescenta-se a isso o fato de Roberto Richa ter assinado, semanas antes ao atentado contra professores e servidores públicos do Paraná, um decreto que visa “disciplinar, aprimorar, normatizar e padronizar” o uso de munição não letal em manifestações públicas. 

A mídia, mais uma vez, cerceou a liberdade de imprensa que tanto defende. O que vimos nas últimas semanas foram matérias que colocam a greve como  prejudicial aos alunos e que os professores não teriam motivos para tal manifestação. De fato, o que mais prejudica alunos são as péssimas condições de trabalho a que os profissionais da educação são submetidos e que são desestimulados pela remuneração, as situações desoladoras de escolas em ambientes degradados, muitas das vezes, a falta de projetos consistentes para a educação por parte dos governantes. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), que insiste em negar a greve dos professores, em greve desde 13 de março, assim como o fez quando a cidade de São Paulo entrou em crise hídrica, deixou claro que não valoriza esses profissionais, o que manifesta indiferença. Os jornais que, no entanto, também insistentemente veiculam uma ignorância a respeito desse movimento legítimo dos educadores, afora o fato de que a imprensa de São Paulo ainda está submissa aos "tucanos".

Tanto Alckmin quanto Richa (PR) não aprenderam a respeitar e valorizar os professores e professoras, com uma postura apática diante da educação. E, ao que parece, aqui em Campo Grande, o prefeito, Gilmar Olarte (PP), segue os passos de seus colegas, quando cortou, sem aviso, pagamento de férias e 13º de professores convocados da Rede Municipal de Ensino. 

Paulo Freire  disse, no livro 'A educação como prática da liberdade' (1976) que “a educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem. Não pode temer o debate. A análise da realidade. Não pode fugir à discussão criadora, sob pena de ser uma farsa”. A título de exemplo, segundo a Unesco, 58,5% dos professores trabalham em uma única escola; 32,2% fazem dupla jornada; 9,3% trabalham em três escolas ou mais. E 31% trabalham entre 1 e 20 horas em sala de aula por semana; 54% ficam entre 21 e 40 horas; 15% trabalham mais de 40 horas semanais.  Exigir mudanças nas formas de educação, cobrar melhores condições de trabalho e equiparação salarial digna à formação e jornada de trabalho é um ato de coragem. Reconhecer esse ato, tanto a sociedade e a mídia, é perdurar um sonho de sair dos rankings de analfabetismo.

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