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15 de agosto de 2016 - 01h15

Assoreamento do Lago do Amor de Campo Grande é discutida em audiência pública

Problema preocupa especialistas da área e questões para salvar o Lago do Amor são debatidas na Câmara Municipal da capital

GABRIELA DE CASTRO, JULIANA CRISTINA E MAYARA BAKARGI
Audiência pública na Câmara Municipal de Campo Grande reuniu estudiosos da área ambientalAudiência pública na Câmara Municipal de Campo Grande reuniu estudiosos da área ambiental  (Foto: Juliana Cristina)

O Lago do Amor, um dos pontos turísticos de Campo Grande, pode desaparecer devido ao assoreamento. O problema foi discutido em audiência pública, na Câmara Municipal de Campo Grande, no dia 9 de agosto. A solução não é apenas a retirada dos sedimentos que afetam o lago, e sim um plano de urbanização de ruas e lotes da capital.

O problema não é recente. Em 2011, o Ministério Público Estadual (MPE) instaurou um inquérito para apurar o assoreamento do lago, que passou por processos de revitalização, e após três anos, a situação se agravou com formações de praias artificiais nas margens. Outros dois lagos da capital sofrem problemas semelhantes ao do Lago do Amor, a lagoa do Parque das Nações Indígenas e o desaparecido lago do Rádio Clube Campo por consequência do assoreamento avançado, que fez com que a argila tomasse conta de todo o lago.

  Assoreamento do Lago do Amor é discutido em audiência pública (Foto: Gabriela de Castro)


O professor da Faculdade de Engenharias, Arquitetura e Urbanismo e Geografia (FAENG) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Teodorico Alves Sobrinho, explicou que o lago é formado por dois córregos: Ribeirão Cabaça e Bandeira e, este segundo é o que apresenta um processo mais avançado de assoreamento. “O outro lado está estabilizado, devido às próprias características da bacia. Com interferência do homem, podemos agravar ou reduzir esse processo".

De acordo com Sobrinho, o processo de assoreamento ocorre quando há acúmulos de sedimentos, que excedem a quantidade de material no leito do lago, o que dificulta a navegabilidade. O processo ocorre de forma natural, e a intervenção humana compromete ainda mais. Atitudes como desmatamento em torno do lago, intensificam o assoreamento e as consequências como desastres naturais, é o caso das enchentes, por exemplo. “A vida útil do lago hoje é estimada em 21 anos. Em 2037, não teremos mais o Lago do Amor se nada for feito. Por mês, 600 metros cúbicos de sedimentos caem no lago. Ele vai acabar, não tem jeito”.

       Exemplo de como ocorre o assoreamento no Lago do Amor

Sobrinho afirmou que estudos de monitoramento são realizado desde 2002, e acredita que há soluções para reverter o cenário atual do lago. “Para vocês terem ideia de magnitude, em 2002 a área de superfície do lago tinha uma área equivalente a 112 campos de futebol, igual a 11,3 hectares. Hoje, nós temos uma área já medida de um pouco mais de 8 hectares, então é uma redução 3,2 hectares, quase 4 campos de futebol do nosso lago já sumiram. Em termos de volume, em 2002 havia cerca de 241 mil metros cúbicos. Hoje esse volume é próximo a 150 mil metros cúbicos, ou seja, um terço do volume sumiu ou reduziu nesses 14 anos”.   

Conforme Sobrinho, a dragagem é o processo de retirada dos sedimentos do fundo do lago, e para que essa obra ocorra, há um custo mínimo de 8 milhões de reais. “Esse sedimento é resultado de um processo erosivo que ocorre ao montante do lago e toda a contribuição na redução vem de uma degradação de mais de 15 anos. Os últimos sedimentos vêm do córrego bandeira que passa próximo ao Rádio Clube e o nosso lago do amor está sendo consequências disso”.

O coordenador do programa de pós-graduação em Ecologia e Conservação da UFMS, Rafael Dettogni, acredita que o problema deve ser discutido com a presença da Secretaria de Meio Ambiente (Semadur). “O problema deve ser discutido no âmbito da bacia. Fiscalizar postos de gasolina que jogam sabão no rio, enfim qualquer problema relacionado. Deve existir esse comitê, que vai olhar não apenas para o lago, mas para todo o contexto da bacia. Tudo acaba caindo no lago, E onde a velocidade é zero, acaba parando ali".

Dettogni afirmou que a quantidade de sedimentos produzidos em volta do lago, não é o mais preocupante, e sim, o que vêm da própria bacia. “Encontramos sofá, para-choque de carro e não é a universidade que está jogando isso, né? É tudo que vem dos seus afluentes. Tudo só vai ser solucionado se expandirmos a visão para o que acontece na bacia e consequentemente, alimenta o lago”.

O engenheiro ambiental, Willian Ribeiro, disse que a UFMS desempenha seu papel na preservação. “São retirados em torno de 1,5 toneladas de resíduos mensalmente do lago e das margens. E foi feito toda a retirada desses resíduos que chegam ao lago através do córrego bandeira e o cabaça. Então está vindo todo esse montante. A universidade está fazendo a parte de coletar resíduos que não são produzidos na UFMS”.  

Ribeiro relatou que dentro da universidade há um plano de recolhimento de resíduos sólidos e que por todo o campus têm lixeiras disponíveis e containers para armazenar o lixo e também reciclar. A solução, de acordo com Ribeiro, é evitar que 500 toneladas de areia e sedimentos cheguem até o Lago do Amor, proveniente de bacias que ficam acima do lago. E para isso é necessário um plano de urbanização para evitar erosões em ruas e lotes. Essa medida passa por outras estatais que vão além da universidade. 

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