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23 de janeiro de 2017 - 22h39

Incidentes causados por abelhas em Campo Grande aumentaram 88%

Desmatamento da zona rural é uma das causas da migração de enxames de abelhas para a cidade

JÚLIA BEATRIZ, LUANA MOURA E MICHAEL FRANCO
A Apis Mellífera é uma espécie resultado do cruzamento de abelhas trazidas da Europa e da ÁfricaA Apis Mellífera é uma espécie resultado do cruzamento de abelhas trazidas da Europa e da África  (Foto: Michael Franco)

Ocorrências de incidentes causados por abelhas em Campo Grande aumentaram 88% neste ano, de acordo com informações divulgadas pelo Corpo de Bombeiros em sua página na internet. Na primeira quinzena de janeiro foram registradas 111 ocorrências em Mato Grosso do Sul e 59 durante o mesmo período no ano passado. Em 2016, a corporação atendeu 1.579 casos em todo o estado.

Corpo de Bombeiros informou, por meio da mesma nota, que os principais motivos para o aumento do número de incidentes são as altas temperaturas, registradas nos primeiros dias deste ano, e o desmatamento na zona rural, que fazem com que os enxames de abelhas migrem para a área urbana em busca de locais para construírem suas colmeias.

O presidente da Federação de Apicultores e Meliponicultores do Mato Grosso do Sul (FEAMS), Gustavo Nadeus afirma que a situação é alarmante. "O desmatamento, as queimadas e o uso indiscriminado de agrotóxicos tem sido a causa da maior incidência de enxames dessas abelhas de gênero Apis nas cidades". 

De acordo com Nadeus, a redução da oferta de alimentos às abelhas e a redução das áreas de nidificação causada pelo desmatamento e pelas queimadas são os principais motivos para a migração e mortandade destes animais. "Por causa dessa saída da natureza, elas procuram locais como proteção, como forros, paredes, canos, caixas de esgoto e de energia, já que elas não tem mais natureza e acaba se instalando ali".

Fonte: ONG Sem Abelha Sem Alimento

O meliponicultor João Marcelo Kassar afirma que é importante não classificar a abelha como a única responsável pela situação. "A abelha não ataca ela se defende, ela só vai picar se perceber uma situação ameaçadora. O barulho de um carro, de uma moto, de alguém se aproximando apresenta ameaça à abelha. É muito custoso para uma abelha ferroar, porque ela morre. Ela tá se defendendo". O meliponicultor ressalta que, além do desmatamento, a expansão das cidades também aproxima o contato com estes animais. 

Kassar afirma que é necessário divulgar informações sobre as abelhas no país. "É importante destacarmos que no Brasil já conhecemos cerca de 1700 espécies de abelhas e 400 delas são sem ferrão. Algumas delas tem uma capacidade de ferir maior ainda que a da Apis. Só que muitas dessas são espécies solitárias e por isso não se vê acidentes como estes com estas. A Apis é a mais conhecida pois tem sido bastante reproduzida em função da sua alta produtividade". A abelha Apis Mellífera é uma espécie híbrida, resultado do cruzamento de abelhas trazidas da Europa e da África para o Brasil durante o século 19.

De acordo com Kassar, as abelhas são responsáveis pela polinização de até 90% da flora e, consequentemente, a manutenção e existência dos ecossistemas e da biodiversidade. A polinização é um processo que garante a diversidade de alimentos no planeta e contribui diretamente para a conservação ambiental e para a produção agrícola.

Fonte: ONG Sem Abelha Sem Alimento

Enxames na cidade

No bairro Cidade Jardim, um incidente causado por um enxame de abelhas, instalado no poste de luz da rua da residência da estudante Giovanna Tavares, resultou na morte dos três cachorros da jovem. A estudante afirma que estava com os pais e o irmão em casa, quando o incidente aconteceu, no dia 8 de janeiro. "O meu pai foi tomar tereré lá fora com meu tio quando percebeu que tinha abelha entrando na varanda, aí ele entrou e lembrou dos cachorrinhos que estavam presos no lado externo da casa. Quando fomos ver, tava infestado de abelha, parecia filme de terror, elas batiam nas janelas". Nenhum dos animais de estimação sobreviveu ao ataque e a estudante e o irmão, alérgicos, conseguiram sair de casa após a chegada do Corpo de Bombeiros.

Giovanna Tavares afirma que a família notou a presença da colmeia no poste e tentou por diversas vezes relatar à Energisa e não obtiveram retorno da empresa. "Estávamos implorando para eles irem tirar e eles não foram, isso antes do incidente com os cachorrinhos porque a diarista de casa já havia sido picada pelas abelhas".

Para o presidente da FEAMS, Gustavo Nadeus, é importante que, ao se deparar com um enxame na zona urbana, o cidadão ligue imediatamente para o Corpo de Bombeiros. "A pessoa que não tem conhecimento jamais deve mexer com os enxames, jamais deve tentar capturá-los ou exterminá-los. O importante é ligar primeiramente para o Corpo de Bombeiros para que as providências sejam tomadas". 

Nadeus explica que, após a chegada da equipe do Corpo de Bombeiros, um apicultor é convocado para ajudar na retirada do enxame e que há divergências em relação aos procedimentos. "Em alguns casos, por condições de dificuldade e local, deve haver o extermínio pois esse é um animal que não pode se ter na cidade. Acredito que em alguns anos teremos uma regulamentação para este tipo de serviço mas por enquanto não há nada muito claro". O Artigo 29 da Lei Número 6905, de 1998, proíbe o extermínio de espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, e o classifica como crime ambiental. Kassar ressalta que é necessário desenvolver algumas ações. "Ainda não existe nenhuma lei que afirma quem deve mexer com isso, se são as secretarias das cidades ou o Corpo de Bombeiros, que muitas vezes não tem equipamento. É uma situação a ser resolvida".

O presidente do órgão afirma que há ações em desenvolvimento para conter a situação no Estado e no país. Uma delas é a instalação de armadilhas em pontos da cidade. "Colocamos estas caixas que são como armadilhas e capturamos estes enxames que procuram algum lugar. Assim que a gente detecta a presença das abelhas, encaminhamos o enxame para algum apiário na zona rural". O apicultor afirma que a federação pretende fazer parcerias com entidades como o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR/MS) para realização de cursos de capacitação de bombeiros para manuseio dos enxames. 

 

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