MEIO AMBIENTE

Degradação dos rios de Bonito afeta ecoturismo da região

Agricultura sem medidas corretas e chuvas intensas causam deslizamento de sedimentos em rios, e geram insegurança para turistas e moradores da região

Guilherme Correia e Izabela Piazza, de Campo Grande31/10/2019 - 12h35
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Os rios do município de Bonito aprensentam situação instável e estão suscetíveis ao turvamento das águas devido à ação da chuva e agricultura predatória. O cenário se agravou após chuvas intensas registradas em dezembro de 2018. Segundo a Secretaria Municipal de Turismo de Bonito (Sectur) a degradação ambiental reflete nas regiões naturais e na economia local. O boletim divulgado no segundo trimestre deste ano pelo Observatório do Turismo de Mato Grosso do Sul mostrou que Bonito atrai em média 200 mil turistas e é o destino mais procurado em Mato Grosso do Sul.

Passeios turísticos foram cancelados em 2018 devido ao turvamento das águas, que impediram visitação de turistas em áreas naturais como o Rio da Prata e o Rio Formoso, que banha o Balneário Municipal de Bonito. No início deste ano o cenário se repetiu e fez com que profissionais do turismo em Bonito criassem o Instituto de Desenvolvimento de Bonito (IDB), com objetivo de promover ações para a preservação ambiental e promoção do turismo na cidade. Segundo dados do IDB, cerca de 70% dos empregos da cidade estão relacionados ao turismo.

 Alto índice de turbidez foi registrado no Rio Formoso, meses após chuvas torrenciais de dezembro (Foto: Fundação Neotrópica)

A secretária executiva do IDB, Gina Tolfo Félix enfatiza que o turismo na cidade diminuiu nos últimos seis anos, e que estratégias que atraíssem turistas foram necessárias . “Bonito sempre teve a ideia que nunca precisou de marketing, porque se autopromove”. Gina Tolfo Félix ressalta que a população busca a preservação ambiental. “Nós que moramos aqui temos cuidado ambiental ao ecoturismo. Temos vários projetos sustentáveis para que daqui 30 anos continue do jeito que está”.

O Instituto contribuiu para que a Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural (Agraer) fiscalizasse as áreas cultivadas nas proximidades da cidade, que devem cumprir com a Lei 1.871 , apelidada de "Lei das águas cristalinas". “Demos gasolina para o pessoal fazer fiscalização nas fazendas e checar todas a estruturas, para quando chover não acontecer o que aconteceu”. Ela explica que tensionamentos ocorreram com proprietários de terra cujas áreas possuem pontos turísticos, e ressalta que o turismo é o que mais gera empregos e movimenta a economia na região. “Todos os atrativos estão dentro de propriedades privadas com agricultura ou pecuária, já tiveram brigas muito grandes, mas estamos mostrando que podemos trabalhar junto, principalmente depois do incidente [das chuvas de 2018]”.

Gina Tolfo Félix ressalta que prever como as próximas chuvas afetarão o turismo local é díficil. “O rio sempre turvou, mas pouco. A força da natureza não tem como prever, mas estamos trabalhando para que pelo menos não seja como foi como no último período que aconteceu”.

O professor e pesquisador em Ecologia da Universidade para o Desenvolvimento do Estado e Região do Pantanal (Uniderp), José Sabino explica que a degradação ambiental afeta o ecoturismo da cidade, rica em biodiversidade e águas cristalinas. “A água transparente, por conta da formação de um solo muito antigo de calcário, fez com que fosse estabelecida ao longo dos últimos 30 anos uma capacidade, pelo menos até agora, que houvesse uma operação turística mesmo com a agricultura e pecuária”.

Nascente do Rio Olho d'Água, protegida por mata-ciliar (Foto: José Sabino/ Natureza em Foco)

Sabino ressalta que as áreas desmatadas utilizadas para agricultura cresceram exponencialmente desde 2010, o que prejudicou a natureza. “Com a valorização da soja nos últimos anos, houve uma mudança no uso do solo. Eram cerca de 50 mil hectares de pasto bem consolidado, com boa estrutura de solo, mas que foram rapidamente convertidos para uso de agricultura”. Para ele, fazer os agricultores obedecerem à legislação e às boas práticas de conservação é um problema.

O professor relata que a falta de fiscalização das matas-ciliares, responsáveis por proteger os rios, é prejudicial para a preservação e para a vida dos peixes. “O código florestal exige, dependendo da largura dos rios, uma mata-ciliar de 50 metros de cada lado. A ‘Lei das águas cristalinas’ sugere uma mata-ciliar de 150 metros aplicada na Bacia do Formoso e Bacia do Rio da Prata, mas ela nunca foi obedecida”.

Sabino ressalta que o aumento da temperatura média no planeta afeta diretamente a ação das chuvas em Bonito, que faz parte de uma região de extremos climáticos. “A ciência não duvida que o clima do planeta está mudando. Aquecemos nos últimos 200 anos, 1,1 grau Celsius em média”. Segundo Sabino, o total de chuva em milímetros permanece o mesmo, de forma mais concentrada. "São menos dias de chuva ao longo do ano, mas que fazem um estrago muito maior do que várias chuvas moderadas espalhadas num mesmo período”.

O secretário de Turismo de Bonito, Augusto Mariano explica que vários fatores convergiram para causar o turvamento dos rios em Bonito. Segundo Mariano, as ocupações das margens dos rios com propriedades rurais e os períodos de chuvas que aumentaram nos últimos anos impactam diretamente o meio ambiente. “Tem chovido muito em curto espaço de tempo, nós chegamos no começo do ano a ter 15 dias de chuvas que está previsto para um mês”.

Para Mariano, o aumento do número de visitantes que utilizam os serviços de turismo e transitam pelas áreas naturais em Bonito é outro problema que agrava a situação. “Hoje nós recebemos 240 mil turistas, isso impacta na produção de lixo, impacta na utilização de nossa água e também são mais veículos transitando pelas estradas”. Segundo Mariano, algumas intervenções foram realizadas para amenizar o problema de turvamento dos rios, principalmente no Rio Formoso, e vários produtores rurais realizaram ações de conservação do solo e da água. “Nós ainda não tivemos um teste a campo dessas intervenções que fizemos, após as chuvas que nós vamos determinar e elencar onde ainda poderá ter problema”.

O gestor ambiental e superintendente executivo da Fundação Neotrópica do Brasil, Rodolfo Portela relata que as áreas destinadas para conservação despertam interesse para produção agrícola e pecuária, e gera conflitos entre ruralistas e ambientalistas. Segundo Portela, a falta de governança do poder público em relação ao território é outro problema, e há uma falha na gestão, principalmente na fiscalização de crimes ambientais. Ele critica que falta apoio da sociedade para defender as causas importantes de Bonito e que isso prejudica na preservação ambiental.

Portela relata que existem falhas na legislação que rege a proteção das áreas de conservação, e que ocorreram diversas ações para a flexibilização da lei do uso da terra. “Ao longo dos anos houve uma pressão, onde os gestores e os políticos analisaram essa legislação e colocaram algumas alterações do código florestal”. O gestor ambiental explica que as alterações atendem à um interesse específico e que ignoram os benefícios que essas áreas trazem, principalmente do recurso hídrico, importante para manter as atividades de turismo.  

Para Portela, o interesse do setor rural é aumentar a produção e isso funciona como pretexto para avançar nas áreas naturais. “Existem muitas áreas que já estão abertas com pastagens degradadas e que poderiam estar sendo recuperadas”. Ele destaca que a alteração do solo na agricultura, sem considerar os limites naturais e o manejo correto do solo, agravam a situação. “Tudo esbarra na falta de governança do poder público, que não consegue fazer a gestão do território de maneira eficiente, e na falta de sensibilidade dos proprietários de terra com relação a preservação desses recursos”.

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