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26 de novembro de 2015 - 16h21

Comunidade surda de Campo Grande uma realidade a par da sociedade ouvinte (Grande Reportagem)

Em Mato Grosso do Sul existem aproximadamente 8 mil surdos, de acordo com o Censo de 2010 do Instituído Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em Campo Grande não há um levantamento sobre a quantidade de deficientes auditivos, mas encontrá-los nas ruas, terminais, praças, shoppings, escolas ou em qualquer outro lugar da capital é uma fato comum, principalmente, por chamar a atenção pela comunicação que utiliza as mãos, conhecida oficialmente como Língua Brasileira de Sinais (Libras). 

A Libras é uma linguagem composta de sinais realizados pelas mãos seguidas por expressões faciais e corporais chamada de sistemas simbólicos visuais, que dão sentido à comunicação e fortalece a comunicação dos surdos. Essa linguagem não é universal, cada país possui a sua.

Gráfico com dados do IBGE

 A funcionária pública federal, Elaine de Oliveira, 36 anos, que é surda, afirma que ainda há discriminação e preconceito com as pessoas que não ouvem e as dificuldades são inúmeras. “É difícil explicar para um médico o que você sente, eles não entendem, ficam confusos e acabam não dando atenção ao problema”. Ela explica que sempre que precisa ir ao médico leva um intérprete, assim ele traduz o que ela sente.

Elaine de Oliveira é professora de Libras na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul há um ano e relata que dar aulas para acadêmicos é algo prazeroso, afirma que o curso é mais teórico do que prático. “Eles são interessados e gostam de aprender. Gostaria muito de aprofundar, ensinar vários sinais, mas o período é curto, em seis semestres não é possível ensinar todos”. A professora esclarece que é importante a sociedade aprender Libras. “Eu já passei por várias situações difíceis por causa da comunicação, por isso penso que todos deveriam pelo menos saber o alfabeto, isso facilitaria muito o entendimento”.

Vídeo entrevista Elaine 

O funcionário público federal, Carlos Landivar, 26 anos, surdo, perdeu a audição gradativamente depois de várias cirurgias em razão de um tumor no cérebro, descoberto aos 22 anos. Um ano depois da primeira operação, passou no concurso no Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS). “No começo tudo é complicado, voltar a ter uma vida social, a trabalhar. Para mim a maior dificuldade foi continuar os estudos, porque eu queria iniciar um mestrado, mas tive que mudar os planos”.  Landivar fala nitidamente e é um surdo que não domina Libras, revela que a primeira iniciativa foi aprender a fazer leitura labial, com as dificuldades em se comunicar hoje ele prefere a Libras. “Estou fazendo curso, quero aprender, porque acho que vai ser muito melhor para me comunicar com sinais”.

A maior dificuldade de Landivar foi se adaptar ao mundo do surdo. “Eu senti muita falta do barulho que antes eu ouvia bem e aos poucos foi diminuindo os sons, quando fiquei surdo de vez, foi muito ruim a sensação era de um vazio”. Ele explica que o seu maior apoio foi dentro de casa, sua mãe foi seu principal apoio.

 

Vídeo entrevista Carlos 

 

Lazer

Um grupo de surdos se reúnem todos os sábados para jogar bola em uma quadra de esporte particular em Campo Grande. Para eles a comunicação não é um problema, são feitos gestos, sinais e, às vezes, saem gritos para os ouvintes passarem a bola. O radiologista, Juliano Lovo, 27 anos, ouvinte, que fez curso de Libras durante um ano e meio esclarece que aprendeu o básico para se comunicar com os surdos e sempre que pode joga bola com eles. “É divertido, apesar do silêncio, a bola não para de rolar e o jogo segue em frente”. Para Lovo a surdez é algo superficial, “a gente até esquece que surdez é uma deficiência, eles são capazes de fazer tudo tem uma vida normal, estudam, trabalham, criam filhos e tudo de forma independente”. 

O vendedor autônomo, Ricardo de Aquino, 40 anos, surdo, sempre joga bola com os amigos ouvintes e surdos. “Trago meus filhos e sobrinhos para jogar e é difícil se comunicar com pessoas que não sabem Libras, por isso prefiro me reunir com os amigos que sabem, pois passei por várias dificuldades de comunicação e é muito ruim”.

Aquino vende chaveiros e suportes de bolsas no centro da cidade. Ele explica que a maior dificuldade das pessoas é entender os valores. “Às vezes fazem confusão, principalmente, quando pedem desconto, se soubessem Libras seria bem melhor, não precisaria escrever em um papel”. Ele revela que fica feliz quando encontra um ouvinte que sabe Libras, isso significa que sua comunicação será clara e sem dificuldades.

O estudante Fábio Oliveira, 10 anos, ouvinte, consegue se comunicar com sua mãe que é surda, Maurícia Oliveira, 43 anos, com muita facilidade. “Aprendi Libras desde bebê, acho ela muito legal, meus pais me ensinaram e meus irmãos também aprenderam com eles”. Maurícia Oliveira acompanha seu esposo e filhos nos jogos aos finais de semana. Ela relata que nasceu surda, assim como seu marido, com quem é casada há 13 anos. “Vem de família, genética, tenho vários primos, tios, sobrinhos todos surdos e meus três filhos são ouvintes, mas podem ter filhos surdos também”. 

Foto de Fábio com sua mãe Mauricia, conversando em Libras

Maurícia conheceu seu marido ainda criança quando estudavam no Centro Estadual de Atendimento ao Deficiente da Audiocomunicação (Ceada), os dois fizeram os anos inicias do Ensino Fundamental juntos e concluíram o Ensino Médio em escola regular.  “Eu terminei meus estudos há dois anos, antes não existiam intérpretes nas escolas normais e era muito difícil, agora a realidade mudou, conheço muitos intérpretes que estão nas escolas trabalhando”.

Galeria de fotos dos surdos jogando bola

 

Estudos (destaque)

O primeiro surdo a ingressar em um mestrado em Mato Grosso do Sul foi o professor de Libras, Adriano Gianotto, que aprendeu em casa com o pai  que a surdez não era um problema e que seus objetivos podiam ser alcançados. “Eu sempre me dediquei aos estudos, pois soube que se eu quisesse algo tinha que partir do meu esforço, por isso fiz Letras, depois pós-graduação e agora mestrado”.

No Brasil, de acordo com uma pesquisa realizada pela a Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis), em 2014, há 319 surdos com mestrado, 59 doutores e dois com pós-doutorado. Para Gianotto os números ainda são pequenos, mas crescentes para a comunidade de deficientes auditivos.

Gianotto concluirá o mestrado em Desenvolvimento Local em dezembro de 2015. O professor de Libras é destaque na comunidade surda, ele afirma que enfrentou várias barreiras na universidade e ressalta que o intérprete tem o papel fundamental na sala de aula. “Para mim a comunicação foi fundamental na conclusão dos meus estudos, o intérprete em sala de aula faz toda a diferença”.

 

Codas

 

A expressão Coda, Children Of Deaf Adults é usada para se referir aos filhos ouvintes de pais surdos. O termo que significa Crianças de Adultos Surdos surgiu nos Estados Unidos em 1980, junto a Fundação Children of Deaf Adults, CODA, que se dedica a promoção de temas relacionados às experiências de filhos ouvintes de pais surdos em todo o mundo.

O intérprete de Libras, Gilliard Bonner é um coda formado em Letras que trabalha há três anos no Centro de Capacitação de Profissionais da Educação e de Atendimento às Pessoas com Surdez (CAS). Para ele a maior dificuldade durante a adolescência foi superar a crença de que era apenas um canal de comunicação dos pais com o mundo. “A gente não tinha muitos momentos de lazer juntos, toda vez que estávamos próximos era para eu interpretar alguma coisa, isso era até dentro de casa, para tudo, para uma notícia, propaganda, novelas”.

Bonner relata ainda que a Fundação Coda foi criada também como uma forma de trabalhar com os pais e os fazerem entender que os filhos não são somente um canal de comunicação. “Cada família tem seu modo de ser, então hoje eu vejo vários pais surdos que tratam seus filhos de uma forma completamente diferente, acredito que seja até pelo desenvolvimento. Não é que meus pais não tenham carinho por mim, eles têm, mas do jeito deles”.

Os codas são os preferidos pelos os surdos na hora de se escolher um intérprete. Por serem filhos de pais surdos, a Libras é a primeira forma linguística aprendida e  a sensibilidade com a língua é maior. “Pelo que eu sei eles preferem os codas pela convivência que nós temos com a comunidade surda. É identidade”.

Sonora Gilliard

 

Ceada

 

O Ceada é uma escola especializada para surdos, surdocegos e outros comprometimentos relacionado a surdez. O professor auxiliar de informática da instituição, Milton Terrazas, 36 anos, surdo, relata que "eles aprendem desde pequenos a Libras, que é a língua mãe e depois aprendem o Português que acaba sendo a segunda língua". A escola oferece ensino regular de 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental, além de disponibilizar atendimento com fonoaudiólogo e psicólogo.  

Terrazas relata que estudou no Ceada e para ele todos os surdos deveriam iniciar sua trajetória educacional na instituição, que oferece toda base de apoio para Libras. A inclusão desses alunos nas escolas de ensino regular acontece a partir do 6º ano do Ensino Fundamental. Para o professor de Matemática Kenny Oliveira a inclusão é extremamente necessária. “O aluno sai do mundo só de Libras e entra para o mundo dos ouvintes e acaba aperfeiçoando o português”. 

O professor ainda salienta que existem três tipos de surdez, os que nascem surdos, os que ficam durante a infância e aqueles que perderam a audição na fase adultos. Os dois primeiros tipos "não desenvolvem a fala porque nunca ouviram e nem praticaram a fonologia, mas isso não significa que não podem aprender a falar”. O terceiro,“estes conseguem falar, porque aprenderam quando ouvintes”.

Vídeo interativo com o abecedário em Libras

 

Cursos para Intérprete de Libras

A Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso do Sul (SED), por meio do Centro de Capacitação de Profissionais da Educação e de Atendimento às Pessoas com Surdez (CAS), órgão criado pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC) em 2003, oferece todos os anos curso de Libras gratuito para a sociedade, com foco principal em educadores e familiares de surdos.

A coordenadora do CAS, Suliane Barros, explica que o Centro foi desenvolvido para atender, principalmente, a comunidade surda diante das diversas dificuldades de comunicação e também foi necessário envolver a comunidade ouvinte que precisa de suporte e orientação. Assim oferecem dois cursos para docentes ouvintes que dominam a Libras, o de professores mediadores, que ensina e interpreta para os surdos e o de formação de professores para salas de recurso, que são lugares específicos para atender as necessidades dos alunos surdos nas escolas.

Suliane Barros afirma ainda que o mercado de trabalho precisa de pessoas especializadas no atendimento às pessoas com surdez. “Aqueles que têm a Libras estarão a um passo de um bom emprego”. Por este motivo o Centro oferece um curso aprofundado de Libras que tem duração de três anos.

A instrutora Ângela Paes, 34 anos, surda, explica que aprender Libras exige determinação e dedicação, pois o curso é extenso. “São quatro módulos, cada um tem seis meses de duração e mais um ano de Prática de Interpretação (PI)”. Nos módulos I e II são ministrados conteúdos básicos, o III e IV trabalham assuntos mais amplos e construções de frases. A Prática de Interpretação é subdividida em dois semestres. As turmas seguem escalas durante a semana, segundas e quartas-feiras ou terças e quintas-feiras na Escola Estadual Zamenhof e aos sábados na Escola Estadual General Malan, cabe ao aluno decidir qual frequentar. Ângela Paes ainda explica que os conteúdos modulares são ministrados somente por surdos, denominados professores instrutores, para que os alunos só se comuniquem em Libras. 

Galeria de fotos das aulas de Libras no CAS

A professora de Educação Infantil Denise Soares Almeida, 32 anos, aluna do curso de Libras, relata que é formada em Pedagogia há dois anos e decidiu aprender Libras para se prevenir no futuro. “Eu considero que a Libras é uma língua que todos os professores deveriam saber se caso eu tiver um dia um aluno surdo vou conseguir me comunicar com ele”.

 

BOX: Para mais informações:

 

Centro de Atendimento ao Surdo (CAS)

Rua Treze de Maio, 1090 – Vila Glória

Telefone: (67) 3314-1275

 

Centro Estadual de Atendimento ao Deficiente da Audiocomunicação (Ceada)

Rua Antonio da Silva Vendas, 159 - Jd. Bela vista

Telefone: (67) 3314-1290/ 3314-1289

 

Educação Inclusiva

A SED informa que em Campo Grande há 36 escolas estaduais que possuem alunos surdos, todos são orientados pelos intérpretes de Libras. O coordenador de Políticas para a Educação Especial (Copesp), Ronaldo Rodrigues, afirma que “existem 96 alunos surdos estudando e todos são auxiliados por intérpretes de Libras, aproximadamente, 87 profissionais”.

A intérprete de Libras, Renata Rojas Sodré, 28 anos, que trabalha há oito anos em escolas estaduais acredita que a profissão surgiu da necessidade dos surdos entrarem para o mundo comunicativo dos ouvintes. Ela revela que o intérprete é a voz do surdo e que sempre que pode se atualiza na língua. “Eu entrei em um mundo novo, vivo em um constante aprendizado, a vivência com os surdos nos ensina muito”.

Foto da interprete de Libras em sala de aula

Nas salas com alunos surdos os professores ministram todas as disciplinas, inclusive língua estrangeira e os avaliam da mesma maneira que os alunos ouvintes. A aluna do 3° ano do Ensino Médio, Mikaele Oliveira, 17 anos, explica que nasceu surda e aprendeu a língua de sinais aos 12 anos. “Tudo ficou mais fácil, a Libras me ajudou muito, criei uma nova identidade, antes eu só fazia leitura labial, era difícil de me comunicar”.

 

Conquistas (box com layout diferente)

Com a criação de duas leis especificas para os deficientes auditivos, a comunidade surda ganhou força. A legislação proporcionou avanços na língua e para a profissão intérprete. A primeira Lei 10.436 de 24 de abril de 2002 reconhece a Libras como meio legal de comunicação e expressão, em que se tem uma gramática própria e não pode ser substituída pela Língua Portuguesa. E ainda estabelece a educação inclusiva para os surdos, na modalidade bilíngue, na escolarização básica, que garante para alunos deficientes auditivos a presença de educadores capacitados e um intérprete de Libras nas salas de aula.

Oito anos depois foi criada a Lei 12.319, de 1º de setembro de 2010, que regulariza a profissão intérprete de Libras, o mesmo pode traduzir as duas maneiras, da Língua Portuguesa para Libras e vice e versa, em que se deve prevalecer a ética e  o respeito a cultura surda.

 

Dia Nacional do Surdo

Em 2008, por meio da Lei 11.796 foi criado o Dia Nacional dos Surdos. A data é motivo de festa para a comunidade surda, a intérprete de Libras Milena Pereira explica que o "momento é usado para relembrar os desafios e lutas por melhores condições de vida que os surdos enfrentaram durante anos". Ela ainda esclarece que esse dia foi escolhido por ser o mesmo da primeira escola para Surdos no Brasil inaugurada em 1857, no Rio de Janeiro (RJ). A escola recebeu o nome de Instituto Nacional de Surdos Mudos do Rio de Janeiro e atualmente é denominada de Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES).

O Instituto foi fundado pelo professor francês surdo Hernest Huet,  com o apoio do imperador D. Pedro II, inicialmente recebeu o nome de Imperial Instituto de Surdos Mudos. Segundo Milena Pereira, o estabelecimento era um asilo de surdos, onde eram abandonados deficientes auditivos de todas as regiões do país, e ainda só aceitavam somente surdos do sexo masculino.

O mês que é celebrado o dia dos surdos ficou conhecido como Setembro Azul e é comemorado anualmente como símbolo de conquista. Em Campo Grande o CAS e o CEADA desenvolvem atividades e diversas palestras para os deficientes auditivos como forma de reconhecimento da causa. 

Galeria de fotos arquivo

 

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