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Manifestantes se reúnem na capital em repúdio às comemorações de 31 de março

O ato reuniu cerca de 120 pessoas em frente à sede do Ministério Público Federal em protesto contra a ditadura e o assassinato de 8300 índios

Ketlen Gomes, Lua Souza, Mariana Alvernaz, de Campo Grande 1/04/2019 - 22h52
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O Comitê Memória, Verdade e Justiça de Mato Grosso do Sul em parceria com artistas e integrantes de movimentos em defesa a democracia de Campo Grande realizaram um ato de repúdio às comemorações do golpe militar de 1964 no dia 1º de abril. A manifestação foi organizada após o presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, convidar as Forças Armadas e a população a realizar as “devidas comemorações” referentes a 31 de março, data que marca o golpe de estado, que deu início ao regime militar no país, e foi retirado das datas comemorativas das Forças Armadas desde 2011, pela presidente Dilma Rousseff

Cerca de 120 pessoas participaram do protesto que aconteceu em frente ao Ministério Público Federal. Segundo o representante do Coletivo Terra Vermelha, Jorge de Barros o ato é contra a ditadura militar e o assassinato de 8.300 indígenas na época. Barros afirma que a população tem que se manifestar a respeito da democracia e da liberdade de expressão.

Membro do Comitê Memória, Verdade e Justiça do Mato Grosso do Sul, Mário Fonseca comenta que foi entregue uma nota à Ordem dos Advogados do Brasil – MS (OAB) e divulgada no evento nas redes sociais, em repúdio ao decreto do presidente. Segundo Fonseca, esse tipo de atitude é uma apologia ao crime. “Presidente eleito pelo voto popular, que jurou defender a Constituição, que logo no primeiro artigo afirma que a República Federativa do Brasil é um estado democrático de direito, causa repúdio que incite a comemoração de um golpe que rompeu a ordem democrática”. Ainda de acordo com Fonseca,  há um inquérito no Ministério Público Federal período da ditadura no Brasil.

Segundo o participante do Coletivo Terra Vermelha e vítima do período ditatorial no Brasil, Breno Moroni a ditadura matou familiares próximos. Segundo ele, durante a Guerrilha do Araguaia perdeu a irmã, Jana Moroni, que estava gravida, e o cunhado, Nelson Phyaui.  "Isso deixa uma marca muito grande na história da família. Todos nós aqui temos pessoas que sofreram as penas da ditadura. Então nós estamos aqui hoje para falar sobre a justiça e a verdade"

Segundo a representante do Movimento Juristas Pela Democracia, Giselle Marques os grupos se articularam para defender a cidadania e a democracia. "A democracia serve aos interesses do povo brasileiro e existem pessoas que se beneficiam da ditadura. Existe uma classe social dominante que não tem projeto de nação para o Brasil, e que se beneficia desse regime em que as liberdades públicas são cerceadas e a voz do povo é calada”.

O sociólogo Paulo Cabral afirma que de todas as situações que aconteceram durante a ditadura, o fato mais dramático seja os desaparecimentos. “Eu vivi de perto a perda de um companheiro. Abílio Clemente Filho desapareceu no dia 10 de abril de 1971 e desde então nunca mais soubemos absolutamente nada. Ele era negro, de uma família pobre, era o caçula e primeiro e único a entrar na universidade e desaparece dessa maneira. A mãe enlouqueceu e a família se desintegrou. São quase 50 anos e até hoje essa dor não passa. Porque a dúvida é corrosiva e permanece sempre. Em memória de Abílio, de todas as vítimas e, principalmente, para que as novas gerações não precisem viver o horror de uma ditadura”.

 

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