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6 de November de 2017 - 17h23

Falta de investimento compromete acervo da memória fotográfica de Mato Grosso do Sul

Acervo do fotógrafo Roberto Higa registra 40 anos de história do estado de Mato Grosso do Sul e se deteriora por falta de investimento para manutenção dos arquivos

ALEXANDRE KENJI, ANA CAROLINA PLANEZ E MARIA LUIZA PEREIRA
Roberto Higa ao lado de quadro onde guarda todos as credenciais de trabalhos anterioresRoberto Higa ao lado de quadro onde guarda todos as credenciais de trabalhos anteriores  (Foto: Ana Planez)

O fotógrafo Roberto Higa possui em seu acervo quinhentas mil fotografias, entre reveladas e em negativo, que narram a história do estado de Mato Grosso do Sul. A família Higa tem dificuldades em manter o acervo por falta de verbas e apoio governamentais. A preservação do material é realizada com recursos próprios e na divulgação de suas fotos em redes sociais identificadas com uma marca pessoal. Em 2017, Roberto Higa foi contemplado pelo Fundo de Investimentos Culturais (Fic) para expor fotografias da história do estado e de Campo Grande nas décadas de 70 à 80. As exposições foram realizadas na Prefeitura Municipal de Campo Grande, no Museu de Vidro que se localiza no Armazém Cultural e na Rodoviária.

Roberto Higa mostra negativos danificados (foto: Maria Pereira)

Para o fotógrafo, há pouco apoio governamental para a preservação do arquivo. “Hoje em dia, as pessoas não querem saber mais da história do estado. Pouco se importam, e os políticos também. Tenho fotografias que nenhum outro fotógrafo registrou de vários momentos da nossa história, e que parece não ter sentido para aqueles que pouco se importam com o que aconteceu nesses quarenta anos de história do estado e da própria cidade de Campo Grande. Isso me deixa muito triste”.

De acordo com Higa, a falta de investimentos para a preservação do arquivo fotográfico reflete na falta de interesse da gestão política do governo municipal e estadual em ter esses registros históricos preservados. “O problema da gestão pública de hoje é que tem que ter alguém que saiba do que é cultura no seu sentido amplo. Tem que englobar a fotografia junto com a música, o teatro, a gastronomia, a literatura, e não segmentar de acordo com o Secretário de Cultura do município. Já teve secretário que era artista plástico, e só tinha exposição de arte plástica na cidade, e não dava espaço para outros segmentos culturais. Outro ano foi um músico, e só tinha show e nada de teatro, fotografia, arte plástica”.

O jornalista e diretor-presidente da Fundação Luiz Chagas de Rádio e Televisão de Mato Grosso do Sul (Fertel), João Bosco de Castro Martins acredita que o trabalho de Roberto Higa deveria ser mais valorizado devido a importância dos registros do fotógrafo “Realmente era necessário ele já virar o palestrante de si mesmo. Ele tem muita história para contar, já era para ele receber por consultoria. Quando você valoriza o aspecto cultural do seu estado, quando você registra, resgata, quando a memória de um país é relevante, o Higa já era para estar nesse primeiro patamar dos grandes nomes”. Para Martins a história do Estado se mescla com a do fotógrafo. “Não há como você narrar a história do Mato Grosso do Sul sem passar por esse olhar enviesado do Higa”.

Para o fotógrafo Bolívar Porto, o acervo de Roberto Higa é o único que acompanhou a história e desenvolvimento do estado de Mato Grosso do Sul, pois o fotógrafo estava em acontecimentos importantes do cenário político. “Em todos os eventos, até as reuniões mais “secretas” do governo, ele fez o registro, e hoje, ele está perdendo essa memória por falta de investimento. Higa teve todas as vantagens de estar na presença sempre dos políticos, e estes, não o ajudam e nem querem saber desses registros, por falta de interesse. É uma pena quando o assunto é cultura, o governo do estado deixa como secundária todas as questões, inclusive aquelas que contam a própria história”.

A filha de Roberto Higa, Akemy Higa, que trabalhou sete anos no escritório do pai, realizou campanhas em redes sociais no ano passado para salvar o arquivo histórico do fotógrafo. "Mesmo com a repercussão da mídia, não apareceram interessados em ajudar a manter o arquivo. Fomos até o governo para reuniões, mas nada aconteceu. Quando terminaram as matérias nos veículos de comunicação a respeito do meu pai e do acervo, acabou o interesse do estado”.

Para Akemy Higa, os registros fotográficos estão em processo de perda. "A população da capital, em sua maioria, não sabem da história da cidade, e por isso não entendem a importância de preservar os registros fotográficos do meu pai, que é a própria história de Mato Grosso do Sul. Não há incentivos governamentais, o que faz com que apenas nossa família e o meu próprio pai cuide do acervo hoje". 

Para o secretário de Estado de Cultura e Cidadania, Athayde Nery o acervo fotográfico de Roberto Higa necessita de uma atenção cautelosa do governo para o resgate de suas obras. “Sua fotografia é única no registro histórico, e já perdemos muitas fotografias de profissionais que não tiveram o apoio nem do governo e nem familiar para a construção de um acervo. Roberto Higa hoje é o único que tem a história dos grandes acontecimentos, desde a criação do estados às enchentes de Porto Murtinho, da intimidade com Manoel de Barros e a fotografia dos grandes festivais que revelaram artistas como Tetê Espíndola. Se houver esse descuido, as fotografias dele irão se perder com o tempo, e a história do estado também”.

 Método criado por Higa para armazenar negativos antigos (Maria Pereira)

O fotógrafo Alisson Gonçalves acredita que a procura dos familiares de Roberto Higa e do próprio fotógrafo por editais de fomento à cultura para auxiliar nas exposições fotográficas é uma falta de respeito ao profissional. “Para quem registrou quarenta anos de história do estado, fotografou artistas como Délio e Delinha, Geraldo Roca, Manoel de Barros, Tetê Espíndola e a própria criação do estado, da construção de ruas e bairros de Campo Grande e tentar um edital para, talvez, conseguir um incentivo financeiro, é um desrespeito ao profissional. Dos quase cinquenta anos como fotojornalista, ele passar pela primeira vez em um fundo de investimento prova que o governo não se interessa em dar manutenção aos registros históricos, o que é um retrocesso para o setor cultural, não só para Roberto Higa, mas muitos artistas que marcaram história e não tiveram investimentos pelos editais”.

Para armazenar as fotos dos filmes negativos, Roberto Higa criou uma maneira de digitalizar as fotografias. Com o auxílio de um negatoscópio, aparelho com iluminação especial para a observação de chapas radiográficas ou negativos, e uma câmera fotográfica digital, Higa tira fotos dos filmes negativos e salva as imagens em arquivos digitais.

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