SOCIEDADE

Fenômeno das fake news é debatido em Semana Acadêmica de Jornalismo

A polêmica em torno do termo usado no cotidiano da sociedade levantou questões pertinentes entre profissionais, acadêmicos e professores do curso de Jornalismo da UFMS

AMANDA FRANCO, ANA KARLA FLORES E LETHYCIA ANJOS, de Campo Grande27/10/2018 - 19h22
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O termo fake news foi discutido na Semana de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) como um fenômeno cotidiano que impacta no ensino e na produção jornalística. Acadêmicos, professores e especialistas da área abordaram o assunto que se transformou numa das questões mais mencionadas nas redes sociais e na mídia. A Semana Acadêmica de Jornalismo (Semajor) ocorreu nos dias 25 e 26 de outubro, com o tema “Novas Linguagens, Novos Dilemas”.

O jornalista e diretor da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Marcelo Träsel explica que as fake news se referem a um tipo específico de desinformação, que imita notícias legítimas. Para ele, o uso do termo é contraproducente e inadequado, pois se a informação é ilegítima, desconfigura como notícia. Träsel ressalta que a expressão foi popularizada por pessoas que produzem desinformação como forma de criticar a imprensa de modo geral. “Pessoalmente gosto de usar o termo pseudo-jornalismo, que é algo que tenta se passar por jornalismo, para enganar o leitor, como se fosse uma notícia legítima”.

A checagem de fatos noticiosos possui limitações que dificultam a verificação de desinformação que circula pela internet. Träsel cita a desconfiança generalizada nas instituições jornalísticas tradicionais, a participação de diferentes grupos sociais de forma pública, a polarização política e a comunicação em rede como exemplos desses limites. O jornalista explica que a checagem de fatos nem sempre chega à população. “Uma coisa é checar um boato, outra coisa é ter um razoável grau de certeza de que quem viu o boato, tenha visto também o desmentir”.

Para Träsel, a checagem de fatos tem obstáculos no nível de conhecimento. De acordo com o jornalista, ao ouvir ou ler declarações, as pessoas primeiramente julgam como verdade e questionam apenas em um segundo momento. O grau de conhecimento e influência da fonte de informação, a facilidade de processamento, a presença de elementos narrativos, como gráficos, fotografias e ilustrações, auxiliam na propagação de desinformação. “Não é a toa que muita desinformação toma a forma de uma notícia, porque é um formato em que as pessoas estão acostumadas, portanto é um modelo previsível de notícia, oferece detalhes que ajuda no convencimento. E nisso não importa se está certo ou errado”.

O diretor da Abraji afirma que as redes sociais contribuem para uma maior circulação de fake news, polarizam a sociedade e criam bolhas de informação. “Sou muito crítico sobre as redes sociais porque vejo pouca salvação para elas, ao menos dentro do modelo de negócios atual, que é o de drenar a atenção das pessoas e vender essa atenção para anunciantes. Esse modelo sempre vai ter um incentivo perverso, que é fomentar as emoções mais baixas do ser humano”.

Träsel ressalva que o primeiro princípio da checagem é atentar-se à reação que a suposta notícia causa em quem a recebe. “Coisas que causam muita indignação, uma reação muito forte da nossa parte, provavelmente foram projetadas para fazer isso mesmo e portanto são propagandas”. Em seguida, deve-se buscar a fonte de informação, em qual e em quantos veículos jornalísticos foi publicada e pesquisar pelo fato em páginas na internet especializadas em checagem de notícias.

O jornalista e presidente da Associação Brasileira de Ensino de Jornalismo (Abej), Marcelo Bronosky explica que existe uma admiração exagerada da tecnologia, que determina o fazer jornalístico. “Quando há esse fetichismo, algumas operações que são centrais para as traduções dos fenômenos em peças jornalísticas ficam prejudicadas. É esse problema que tem especialmente nos cenários atuais, em dispositivos móveis e operações tecnológicas muito incidentes sobre o cotidiano da sociedade do jornalismo”. 

Bronosky destaca que, atualmente, há uma dificuldade em controlar o que é disseminado como notícia nas redes sociais por causa da ampliação de múltiplos discursos e conteúdos. As fake news configuram-se como estratégias de manipulação que resultam na produção de um efeito de senso comum e entendimento do que é notícia.

O presidente da Abej ressalta que o desenvolvimento de pesquisas e reflexões sobre a área é importante para qualificar e melhorar a atuação dos profissionais. “Na medida em que a ação qualitativa do jornalismo garante uma sociedade oxigenada democraticamente, com direitos e garantias individuais e coletivas, essas ações têm que estar pautadas em garantia da liberdade de expressão”.

Semana acadêmica

A Semana Acadêmica de Jornalismo (Semajor) foi coordenada pelo professor doutor Marcos Paulo da Silva e organizada pelo Centro Acadêmico de Jornalismo (Cajor). O evento foi realizado em comemoração aos 29 anos do curso de Jornalismo com palestras e oficinas na UFMS


  Silva propôs a escolha do tema para a Semajor
   (Foto: Lethycia Anjos)

O professor ressalta que a discussão acerca das fake news tem sido tratada com ênfase desde a última eleição nos Estados Unidos por causa das estratégias de desinformação utilizadas no processo eleitoral. Ele afirma que as redes sociais desempenham papel pertinente na propagação de boatos, os quais crescem em um cenário de crise e falência do jornalismo convencional. Silva explica que o tema central “Novos Linguagens, Novos Dilemas” foi escolhido para debater assuntos contemporâneos. “Pensamos em trazer esse tema para não só tratar as novas tecnologias de uma forma negativa, porque elas são importantes para o jornalismo. Nos proporcionam novas possibilidades e novos dilemas, de natureza ética e também deontológica”. 

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