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17 de novembro de 2015 - 20h27

Mídia é inacessível à deficientes visuais e auditivos

O desrespeito à lei de inclusão social dificulta o acesso e compreensão das notícias

STEFANNY VEIGA E VIVIAN CAMPOS
Braile pode ser utilizado para compreensão das notícias no jornalismo impressoBraile pode ser utilizado para compreensão das notícias no jornalismo impresso  (Foto: Stefanny Veiga)

Deficientes auditivos e visuais têm dificuldades para se manterem informados pela mídia. O consultor em organizações não-governamentais (ONGs), João Marcos Tavares, deficiente visual, exemplifica que a televisão possui barreiras, com informações inacessíveis para o deficiente visual. A professora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Elaine Aparecida, deficiente auditiva, recorre a internet para melhor compreender as notícias.

O professor da UFMS e jornalista Marcelo Câncio percebeu o interesse dos deficientes auditivos nos telejornais e a pouca compreensão que tinham das notícias. Destacou que produziu uma reportagem que focou nesse público com a utilização da linguagem de sinais para facilitar a compreensão dos deficientes auditivos.

A Lei de Inclusão de Pessoas com Deficiência (13.146/2015) no artigo 67 estabelece que os meios de comunicação devem utilizar recursos como a audiodescrição, intérprete e legenda para que a informação alcance a todos de forma unânime.

A importância de produzir informação para pessoas com deficiência visual motivou o trabalho realizado pela jornalista e aluna de mestrado em Letras da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), Daiana Carpes que apresentou  pesquisa sobre o  jornal laboratório audiodescritivo Revista Unicom no 13º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJOR),  que aconteceu na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), entre os dias 4 a 6 de novembro.

Carpes explica que seu interesse em trabalhar com audiodescrição surgiu de uma necessidade. "Um acadêmico da Unisc havia ficado cego e não tinha domínio com a leitura em braile, então fiz as audiodescrições de todas as imagens e textos do jornal impresso e entreguei a ele em um CD”. Segundo a pesquisadora, o tema de seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) foi motivado pela produção da audiodescrição do jornal laboratório, o que resultou na página www.jornalismoemaudiodescricao.com.br, finalista do concurso de acessibilidade na internet - Todos@Web, em 2014.

De acordo com Daiana Carpes, a informação é ferramenta para o desenvolvimento da opinião do indivíduo e deve ser acessível. “Uma comunicação sem barreiras seja ela em braile, audiodescrita, libras ou até mesmo em sites acessíveis, promove a inclusão de pessoas com deficiência na sociedade”. Segundo a pesquisadora, a audiodescrição exige dedicação de tempo, o que dificulta esse tipo de acessibilidade em jornais diários, com a facilidade de transpor o conteúdo para internet, o jornalista pode realizar o trabalho de audiodescrição. Carpes sugere mudanças, “para as matérias de telejornalismo é necessário manter uma distância razoável do microfone, para que os surdos possam fazer a leitura labial do repórter”.

O consultor e fundador da Federação Inclui Brasil (FIB-MS), João Marcos Tavares, que é deficiente visual e trabalha com a inclusão de deficientes, afirma acompanhar sempre que possível programas informativos e humorísticos pela TV e rádio, além de escanear jornais impressos em um software de leitura para cegos, como por exemplo o NVDA.

Ele aponta dificuldades no acesso à informação, que nem sempre é passada de forma adequada ao deficiente visual. “É muito frequente ouvir algumas coisas como ‘Muito bem, você pode entrar em contato conosco neste momento, o telefone está na tela’. Para nós, deficientes visuais, morreu ali a comunicação. O que se deveria falar? ‘Está na tela, mas eu vou falar para você o número, anote aí’. Isso aí vai onerar alguma coisa? Não, mas acontece que as pessoas não estão preocupadas em passar a informação completa para todos”.

 
 
 
 

 

Tavares trabalha com projetos de inclusão social

O consultor sugere que o profissional deva ser preparado desde a universidade com disciplinas que trabalhem a inclusão social e a busca de informações sobre esse público. “É preciso saber quem é o Tavares e qual é o nível dele, identificar o público, depois conhecer tudo sobre o público, sobre braile, sobre impressão braile, tecnologia, o que é ser cego, o que é a bengala, o que é esse mundo do cego, para você começar a pensar na produção de alguma coisa, é importante mapear a necessidade de cada indivíduo por nível escolar, por cultura”. Tavares afirma que os profissionais de comunicação, muitas vezes, tomam uma postura preconceituosa em relação às pessoas deficientes e sugere que os jornalistas devem melhorar a forma como denominam os deficientes. "Muitos fazem afirmações preconceituosas como, por exemplo, ‘Tavares, deficiente há 20 anos, convive com a sua triste deficiência visual’, eu já vivo com isso e tem que ser triste? Não precisa enfatizar a parte trágica, a parte negativa”.

A professora de Letras/Libras da UFMS, Elaine Aparecida, deficiente auditiva, explica que consegue compreender o contexto das novelas e programas pelas expressões corporais, mas que acompanhar as legendas e as cenas é algo complicado. Segundo Aparecida, com a internet as informações jornalísticas ficam mais acessíveis. "Quando eu me interesso por algum tema, procuro no Google, por exemplo, os ataques terroristas que aconteceram na França, eu li os sites  e soube que foi em um bar. Então, o texto e a tv no closed caption me ajudam, mas o melhor mesmo é o interprete que está dentro do meu conforto linguístico". A professora afirma que com algumas modificações na produção da comunicação, as dificuldades dos deficientes auditivos em receber a informação podem ser superadas.

O jornalista e professor universitário Marcelo Câncio começou a realizar trabalhos sobre a inclusão social no jornalismo ao sugerir uma pauta na emissora que trabalhava e afirma que o tema é de relevância social. "Essa parcela da população que é bem significativa, merece toda a atenção e é preciso que a tecnologia vá se aprimorando, para permitir cada vez mais a inclusão dessas pessoas e que possibilite que elas acompanhem as notícias, informações e o entretenimento, tanto no rádio como na televisão”.

Câncio apoia a causa da inclusão social no jornalismo

O interesse no assunto surgiu quando o jornalista visitou um Centro de Apoio ao Surdo (CAS) e que, durante a visita, percebeu que aquelas pessoas assistiam muitos programas de televisão, mas não entendiam por completo as informações, decidiu  fazer uma reportagem em Libras sobre esse público e para esse público, que falasse sobre o Centro, os problemas que eles enfrentavam, tudo isso em linguagem de sinais. "Então eu apareço na matéria falando que no Mato Grosso do Sul tinham em torno de dez mil deficientes, cinco mil em Campo Grande e que eles tinham muitas necessidades e toda essa parte da fala eu me expresso verbalmente e também em linguagem de sinais”.

Câncio considera que o profissional deve ter a sensibilidade de olhar para esse público como uma parte da população que também necessita entender as notícias. “Eu acho que os acadêmicos e jornalistas devem ter a sensibilidade de entender que é uma parcela da população que necessita de muita informação. Se o jornalista tiver a preocupação em falar para esse público, construir matérias  que façam referência a eles, que dirija um conteúdo específico para esse público”.


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