PROCURA-SE

A busca pelos desaparecidos em Mato Grosso do Sul

e a angústia de quem os procura

textos, imagens e design

João fusquine

larissa moreti

larissa vizoni

dos casos de desaparecimentos em Mato Grosso do Sul são

de Campo Grande

Mais de 600 pessoas desapareceram em 2016 no estado de Mato Grosso do Sul, de acordo com dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp). Até dezembro, foram computados 423 casos no Setor de Pessoas Desaparecidas (SPD), integrado à Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Homicídio (DEH) de Campo Grande, que funciona há mais de 10 anos. Segundo a investigadora do SPD, Gisele Langwinski, a taxa de resolução é de mais de 98% e, mesmo assim, existem aqueles que não são solucionados.

 

A estudante Naiara Ribeiro Lucas desapareceu com o namorado em 2009, durante uma madrugada. A jovem, na época com 17 anos, foi vista pela última vez com Wellington Afonso dos Santos Aguerro, 14, em um ponto de ônibus na frente da casa dela, no bairro Nova Lima, em Campo Grande.

 

A costureira Neusa Ribeiro, mãe de Naiara, explica que a primeira atitude que tomou ao constatar que a filha sumiu, foi entrar em contato com a mãe de Wellington, Sueli Fernanda Afonso, para verificar se estavam juntos. Quando perceberam que os dois haviam desaparecido, foram até a polícia. “Fomos na delegacia umas 6 horas da manhã, porque até então a gente estava procurando por eles, achando que estavam por perto. Aí fomos lá e o delegado falou que eles deviam ter fugido juntos, que a gente devia esperar mais, mas o escrivão foi rápido e já registrou tudo”. A costureira afirma que descarta a hipótese de Naiara ter fugido com o namorado. “Minha menina não era assim. Ela era estudiosa, os professores gostavam dela, ela tinha um futuro promissor”.

NEUSA RIBEIRO

SOFRE COM O DESAPARECIMENTO

DA FILHA HÁ QUASE OITO ANOS

67%

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Não tem um dia que

eu não me lembro dela

MARIA NUNES SE DESENCONTROU DO MARIDO DURANTE UMA VIAGEM E SÓ DESCOBRIU QUE ELE ESTAVA perdido CINCO DIAS DEPOIS

Na época, o caso foi encaminhado para a Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), e as buscas se encerraram em 2015. Para Neusa Ribeiro, as condições precárias de trabalho influenciaram na investigação da polícia. “Faltaram pessoas preparadas para isso. A DPCA não dá conta. São poucos policiais, poucos recursos. Na época, os carros eram disputados entre eles para fazer investigação”.

 

O desaparecimento de Naiara Lucas e Wellington Aguerro completa 8 anos no dia 8 de fevereiro de 2017. A maioria das ocorrências registradas na Capital são situações em que a pessoa desaparecida é encontrada alguns dias depois, como aconteceu com Florisvaldo Francisco Nunes, que sumiu no dia 5 de janeiro de 2017 e foi encontrado após uma semana.

 

Florisvaldo Nunes mora em Londrina, Paraná, e viajou a Campo Grande com a esposa, Maria Nogueira Nunes, para visitar o cunhado que mora no bairro Caiobá II. No terminal rodoviário de Londrina, ele percebeu que esqueceu a passagem em casa e voltou de mototáxi para buscá-la. Maria Nunes esperou na plataforma, foi avisada que o ônibus para Campo Grande iria sair, decidiu embarcar, e imaginou que o marido pegaria o próximo. Os dois se separaram e, ao chegar na Capital, os familiares receberam apenas Maria Nunes.

 

Florisvaldo Nunes chegou depois, e portava apenas seus próprios documentos, sem saber como contatar ou encontrar o endereço da família. Na rodoviária, procurou por uma atendente de uma lanchonete próxima ao local e pediu ajuda. A mulher começou a divulgar que Florisvaldo estava perdido e publicou recados nas redes sociais com a foto de seus documentos.

 

Maria Nunes explica que não contatou a polícia porque só se deu conta do desaparecimento quando uma sobrinha de Londrina viu a postagem e ligou para a atendente, cinco dias depois. “Eu não procurei nada. Achei que ele tinha ficado em Londrina e voltado para casa, fiquei tranquila”. Após o contato com a atendente, a família descobriu que Florisvaldo Nunes não estava mais na rodoviária. O homem sofre de leves distúrbios mentais e vagou pela cidade por uma semana, e chegou até a pedir comida nas ruas.

 

A família procurou o ex-motorista Wesley Neres, fundador do jornal comunitário Diário Caiobá, para iniciar as buscas. Neres mora no bairro há 14 anos e há sete desenvolve o trabalho social por meio de uma página no Facebook. “Quando liguei para eles, estavam todos desesperados. Naquela mesma noite, publicamos o pedido de ajuda em mais de 40 grupos e fomos marcando no mapa por onde haviam visto ele. No outro dia, fomos direto para o centro, já que tudo indicava que ele estava lá. Às 10 da manhã, o sobrinho dele o achou saindo da Praça do Rádio, sentido prefeitura”.

Florisvaldo Francisco Nunes ficou desaparecido por uma semana COM todos

os seus documentos pessoais

WESLEY NERES DESENVOLVE UM TRABALHO COMUNITÁRIO HÁ SETE ANOS E AJUDOU MARIA NUNES A ENCONTRAR O MARIDO

Casos como o de Florisvaldo Nunes, nos quais o distúrbio mental contribui para o desaparecimento, podem tomar proporções perigosas na medida em que são desencadeados por doenças mais sérias. Um exemplo é o de Valdevino Coelho de Oliveira, diagnosticado com esquizofrenia. Segundo a confeiteira Zulmira Coelho de Oliveira, irmã de Valdevino Oliveira, em 2012, ele teve uma crise e saiu de moto em direção à BR-163, saída para São Paulo.

 

“Ele contou que ouviu uma voz e a voz dizia que ele iria para o céu e não precisava de nada. Aí ele foi para a saída e jogou no mato o celular, a carteira com todos seus documentos, todos os seus pertences, e foi embora. A gasolina acabou e ele parou em um posto, mas não tinha dinheiro, então o frentista perguntou seu nome e ele, em um momento de raciocínio, falou o nome da nossa irmã, que sempre abastece lá”. O rapaz chamou o gerente do posto e notificou a família, que já estava em busca de Valdevino Oliveira. Zulmira Oliveira explica que, por causa da doença, precisa estar sempre atenta ao paradeiro do irmão, e qualquer problema em se comunicar com ele gera preocupação.

 

Em agosto do ano passado, Valdevino Oliveira sofreu outra crise e se dirigiu ao mesmo local. Ao constatar o sumiço, sua irmã ligou para várias instituições, como o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e o Corpo de Bombeiros, em busca do irmão. No dia seguinte, se dirigiu à Santa Casa e descobriu que ele havia se acidentado.

 

A confeiteira afirma que o atendimento dos órgãos contatados não foi muito eficaz. “O Samu falhou com a gente. Liguei lá, liguei para os bombeiros, e eles informaram que não teve ocorrência, sendo que meu irmão já estava na Santa Casa e foi socorrido pelo Samu. O acidente foi às 10h20 e nós só o encontramos no outro dia”. Nos dois casos, Valdevino ficou aproximadamente 24 horas desaparecido.

zulmira coelho de oliveira

ligou para várias instituições ao descobrir que o irmão esquizofrênico havia desaparecido

O TRABALHO DA POLÍCIA

A investigadora especializada em desaparecimentos Maria Campos, da 5ª Delegacia de Polícia de Campo Grande, explica que o primeiro passo a partir da constatação do desaparecimento é registrar o boletim de ocorrência (B.O.) em qualquer unidade de polícia. “Mediante o B.O., a nossa central de rádio é informada e ela comunica a todas as viaturas em ronda, tanto da Polícia Civil, como da Militar, da Rodoviária e da Guarda Municipal”.

 

Maria Campos explica que, ao contrário do que muitas pessoas acreditam, não existe um período mínimo a se esperar para registrar a pessoa como desaparecida. “Não existe esse período de 24 horas, principalmente para o Mato Grosso do Sul. Nós estamos no meio de duas fronteiras secas e próximas, em três horas você já pode estar fora do país. Quando a autoridade diz que é preciso esperar esse período, ela está sujeita a uma sindicância administrativa que pode trazer problemas sérios para ela. Em 24 horas, nós perdemos muitas vidas”.

 

De acordo com a investigadora, a partir do registro da ocorrência, o trabalho da polícia se inicia com o depoimento da família. A experiência do policial neste tipo de ocorrência é fundamental para coletar as informações verdadeiras. “A família maquia o boletim de ocorrência, muitas vezes por vergonha ou medo. Quando o policial não tem experiência, não indaga as perguntas certas no momento certo, o boletim não funciona. Quem acaba ajudando mesmo, muitas vezes, são os amigos, que relatam a verdadeira situação da pessoa desaparecida”.

 

Segundo o delegado Márcio Shiro Obara, titular da Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Homicídio (DEH), onde se localiza o Setor de Pessoas Desaparecidas de Campo Grande (SPD), o desenvolvimento do trabalho de localização realizado pela polícia depende diretamente das informações que constam no boletim de ocorrência. “Cada perfil de pessoa desaparecida demanda um tipo de investigação. Nós temos as pessoas mais idosas, que geralmente têm problemas de locomoção, ou Alzheimer. É importante que isso esteja no boletim. Há também jovens que frequentemente entram em conflito com a lei, chamados de adolescentes infratores - isso é um perfil”. Outro perfil citado pelo Delegado é o de pessoas com algum tipo de condição médica que pode contribuir para o desaparecimento, como a esquizofrenia.

 

Obara afirma que muitas famílias não fazem um levantamento antes de registrar o desaparecimento. “Algumas pessoas querem transferir algum problema familiar para a polícia. Nós temos ocorrências em que o jovem, por exemplo, por um motivo ou outro de desentendimento mais sério na família, resolve fugir de casa. Nesse caso é uma fuga, não um desaparecimento. É importante fazer uma investigação prévia antes de notificar as autoridades”.

 

A DEH centraliza as ocorrências de todas as delegacias da cidade, e recebe o boletim primeiro virtualmente, por meio do Sistema Integrado de Gestão Operacional (Sigo), e depois fisicamente. Obara explica que após a localização do desaparecido, a família deve comunicar à delegacia para que o boletim seja encerrado.

 

A investigadora do SPD, Gisele Langwinski, explica que são muitos os casos em que o reaparecimento não é comunicado e o boletim permanece nas estatísticas da delegacia. Gisele Langwinski afirma ser necessário que o comunicante notifique todos os dados pessoais corretos, como, por exemplo, o endereço e telefone, porque durante o processo de investigação, a polícia precisa manter contato com a família.

MARIA CAMPOS

é investigadora especializada em desaparecimentos há mais de 20 anos

MáRCIO SHIRO OBARA

é delegado titular da delegacia especializada de repressão aos crimes de homicídio (Deh)

gisele langwinski

é investigadora do setor de

pessoas desaparecidas da deh

o abalo psicológico

Para a psicóloga Daiane Ribeiro, a família é como um sistema no qual cada um desempenha uma função. “Os pais, os filhos, cada um tem um papel a ser desenvolvido. Se uma pessoa sai dessa cena, muda para todo mundo, muda uma rotina. As famílias têm que arranjar um novo modo de fazer vida, fazer acontecer a rotina, mesmo com uma perda”.

 

O desaparecimento pode gerar diversas reações nas famílias que vivem o problema. Daiane Ribeiro destaca a reclusão e a busca infindável por qualquer pista que leve à pessoa desaparecida. “As famílias tendem a se culpar pensando no que poderiam ter feito para impedir o sumiço. Agregar culpa não ajuda”.

 

Cada membro da família encontra um meio para enfrentar a situação, como no caso de Neusa Ribeiro, mãe de Naiara, que recorreu à religião para ajudar na reestruturação emocional. De acordo com a psicóloga, “as religiões, por mais diferentes que sejam, têm o mesmo fundamento, que é o de dar um apoio. Uma palavra de conforto, um sermão… Muitas vezes o grupo da igreja se sensibiliza com a situação de um dos membros. Não dá sentido, mas dá conforto”.

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As religiões, por mais diferentes que sejam,

têm o mesmo fundamento,

que é o de dar apoio.

Não dá sentido, mas dá conforto

Outro modo de enfrentamento é a participação em grupos de apoio. Daiane Ribeiro diz que o Brasil é um país comunitário e que compartilhar experiências pode ajudar no processo. “Ouvir também é terapêutico. Quando a pessoa percebe que isso não acontece só com ela, que ela não é única e que outros já passaram por aquilo e encontraram um meio de viver e seguir em frente, ela percebe que é possível fazer o mesmo”.

 

O exemplo mais conhecido de associação de amparo é a Mães da Sé, que existe desde 1996 e foi criada por duas mães de crianças desaparecidas. A organização surgiu como uma forma de buscar soluções e divulgar desaparecimentos em São Paulo e, atualmente, atende todo o Brasil, por meio do cadastro de desaparecidos de todas as idades, além de oferecer acompanhamento psicológico aos familiares. A instituição registrou mais de 9 mil casos no país e solucionou cerca de 2900 deles.

A CRIANÇA E O ADOLESCENTE

O desaparecimento de crianças e adolescentes é comumente causado por desentendimentos e problemas familiares. Para a investigadora Maria Campos, pais ausentes, pouco atenciosos e que não participam da vida dos filhos podem contribuir para uma fuga e dificultam a localização do desaparecido. “Os pais se preocupam em trabalhar e dar tênis bom, roupa boa, mas esquecem de dar afeto. Chegam cansados em casa e não sabe com quem o filho convive, não sabem como está a escola, não dialogam. Muitas vezes um beijo de boa noite faz uma diferença imensa para o jovem”.

 

A psicóloga Daiane Ribeiro afirma que ainda que os pais sejam presentes e tentem construir uma relação saudável com os filhos, podem acontecer situações problemáticas que resultem em uma fuga. “O desejo do outro é algo que a gente não consegue dar nome e é difícil de tratar isso. A criança ou o adolescente tem de tudo, tem todos os brinquedos, todas as roupas, mas sempre falta alguma coisa, e essa coisa é quase sempre da ordem do indizível”.

 

Outro fator que pode motivar a criança ou adolescente a fugir de casa é o sentimento de querer pertencer a um determinado grupo. “Se não sentem que pertencem àquela família, vão procurar um grupo ao qual pertencer. É preciso que os pais questionem os filhos coloquem limites no desejo deles, até para que possam argumentar e sentir que ocupam um lugar naquele núcleo”.

daiane ribeiro

é psicóloga e afirma que um desaparecimento pode desequilibrar a estrutura da família

o Centro de Policiamento Especializado (cepol) do bairro tiradentes abriga a deh e o setor de pessoas desaparecidas de campo grande

PROCURE E AJUDE A ENCONTRAR

Assim que constatado o desaparecimento, é importante que a família procure uma delegacia e registre o boletim de ocorrência. O B.O. reconhece a existência do problema e permite que a polícia inicie o procedimento de busca.

 

O que comunicar no Boletim de Ocorrência?

 

  • Dados pessoais (nome completo, idade, etc);
  • Características identificatórias (cor do cabelo, tatuagens, cicatrizes e marcas corporais, como fraturas e queimaduras)
  • Eventuais tratamentos e medicamentos utilizados;
  • Uso de drogas ou alcoólatra;
  • Se houve outra ocorrência de desaparecimento anteriormente (ainda que breve);
  • Em caso de desaparecimento com veículo, os dados do veículo: modelo, cor, placa;
  • Últimos locais frequentados;
  • Fotografia recente.

 

Qualquer unidade policial está apta a fazer o boletim de ocorrência. As autoridades recomendam a não divulgar o telefone da família, e sim o da delegacia responsável pela investigação do caso. Isso evita trotes e informações equivocadas que podem ser um transtorno para os familiares e amigos.

 

Endereços úteis

 

DEH - Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Homicídios

Rua Soldado PM Reinaldo de Andrade, S/N

Bairro Tiradentes (CEPOL)

Campo Grande – MS

CEP: 79041-118

(67) 3318-9045 | (67) 3318-9047

deh@pc.ms.gov.br

 

DEPCA – Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente

Rua Dr. Arlindo de Andrade, 145

Bairro Amambaí

Campo Grande – MS

CEP: 79008-370

(67) 3323-2500

depca@pc.ms.gov.br

 

LINKS ÚTEIS

 

Reportagem especial produzida para a disciplina de Laboratório de Ciberjornalismo II

Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

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