O cuidado com doenças que afetam preferencialmente as pessoas mais velhas cresce com o aumento da população idosa. O Estatuto do idoso assegura, desde 2003, a atenção integral à saúde dos idosos, com o amparo de ações que garantam o direito à prevenção, promoção, proteção e recuperação do idoso, e do Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo cartilha do Ministério da Saúde, doenças crônicas não transmissíveis e  degenerativas como diabetes, hipertensão, derrame, AVC e infarto respondem por 72% das mortes no Brasil. A geriatra do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian, Marta Driehmer, afirma que estas são as principais doenças em idosos.

 

A gerontóloga Juliana Duarte afirma que a diabetes e a hipertensão também atingem a população idosa. Ela ressalta que além de uma transição populacional, passamos por uma mudança do perfil das doenças.

Além da transição demográfica a gente teve também nas últimas décadas a transição epidemiológica, ou seja, a transição das doenças infecto contagiosas, como doenças de febre amarela, tuberculose, para as doenças crônicas não transmissíveis” - Juliana Duarte

 

Para a geriatra, um envelhecimento saudável está relacionado a promoção da saúde. Ela afirma que as pessoas devem aceitar o envelhecimento para que ele ocorra da melhor forma e seja possível minimizar os problemas futuros, e para isso são necessárias mudanças no estilo de vida como a prática de atividades físicas e alimentação saudável. “Você precisa se alimentar adequadamente, evitar qualquer tipo de vício como cigarro, bebida alcoólica e fazer atividade física”. A nutricionista Tatiane Passarini reconhece a importância de hábitos saudáveis e diz que o cuidado deve começar desde cedo.

Nutricionista Tatiane Passarini

A gerente técnica da saúde do idoso da Secretaria Municipal de Saúde Pública (SESAU), Rejane Sorto, afirma que sem a prevenção das doenças, o sistema terá que se adequar a um maior número de idosos doentes e precisará se reestruturar para atender a demanda, o que pode gerar um gasto maior em relação à saúde do idoso. “Ele vai exigir uma atenção especializada e terciária maior, que é onde tem o maior custo de investimento e onde ocorre as dificuldades de vagas . Você nunca você vai ter uma vaga suficiente para atender a população se você não prevenir. Então por isso que a gente tem que focar na prevenção e a promoção à saúde”.

 

Em Campo Grande, os atendimentos de saúde pública são coordenados pela Secretaria Municipal de Saúde Pública. Segundo Rejane Sorto, não há na capital um atendimento específico para o idoso. Esta faixa etária, assim como as outras, é atendida nas unidades básicas, especializadas e unidades da família do município. O idoso deve ir primeiro à Unidade Básica e, se precisar de atendimento específico, ir ao Centro Municipal Especializado, onde recebe a assistência de profissionais da área da neurologia, geriatria, psiquiatria, entre outros. Há também as Unidades da Família, que junto ao Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NAFS), uma equipe com profissionais de diferentes especialidades como fisioterapia, fonoaudiologia e psicologia atende as pessoas da região.

 

A atenção domiciliar em Campo Grande é realizada pelo Hospital Regional ou Hospital do Câncer e pela Unidade da Família. Segundo Rejane Sorto, a atenção domiciliar não foi implementada no município por falta de recursos.

Ela não está implantada integralmente como deveria  por conta da falta de recursos do Governo Federal para o município” - Rejane Sorto

Segundo dados da SESAU, 260.707 idosos foram atendidos na Atenção Básica no ano de 2016, por consultas médicas de enfermagem e atendimentos domiciliares. Atualmente, há na rede do Sistema Único de Saúde (SUS) do município, dois geriatras para o atendimento. Rejane Sorto afirma que o atendimento na Atenção Básica precisa melhorar e o sistema de saúde do Brasil e de Campo Grande não está preparado para o atendimento da pessoa idosa. “Nós estamos em sistema de construção com essa nova conjuntura que a gente tem em relação ao envelhecimento da população. Precisa ser discutido muitas coisas. Acredito que ao longo do tempo a gente precisa redefinir algumas formas de trabalho”.

ILPI's

Instituições de Longa Permanência Para Idosos

Quando o idoso tem laços familiares rompidos, sofre violência, violação de seus direitos ou perde autonomia, ele pode ser direcionado para as Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI), mais conhecidas como Asilos. Segundo a geriatra Marta Driehmer, estas instituições não devem ser vistas como uma forma de afastamento entre o idoso e a sociedade. “A casa de repouso ela não deve ser vista como uma marginalização do idoso. Na verdade ela deve ser vista como uma ajuda quando o idoso é muito difícil para o familiar cuidar. É quando o idoso se torna justamente dependente, então tem que haver a troca de fralda, às vezes eles tem traqueostomia e tem que aspirar, então são uma série de procedimentos, às vezes de cuidado, que são um pouco complicados e a institucionalização nesse aspecto vem para ajudar”.

 

O professor e pesquisador em Ciências Sociais da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS)  Guilherme Passamani afirma que, muitas vezes, o asilo é o único cuidado voltado ao idoso porque ele é considerado improdutivo socialmente. “Parece que a única coisa que é pensado para o idoso é o asilo porque a família não quer e porque ele vai estar doente. Sem dúvida, historicamente, o asilo é construído como um lugar de isolamento. Tanto que hoje se fala de instituições de longa permanência, que tentam mudar a cara do asilo e ter uma infraestrutura diferenciada”. Ele ressalta que as instituições mais equipadas e com maior espaço de sociabilidade são frequentados pela classe média alta e que o asilo ainda carrega um estigma de lugar de abandono entre as classes mais pobres.

Atualmente, existem três instituições de longa permanência filantrópicas na capital, o Recanto São João Bosco, a Associação dos Amigos da Casa de Abraão e a Sociedade de Integração Reabilitação Pessoa Humana (SIRPHA Lar de Idosos). Casas de idosos filantrópicas não são instituições públicas. Mantém um convênio com a prefeitura, que cede funcionários e um valor mensal para manutenção do local. As instituições arrecadam doações da comunidade e os idosos devem ceder 70% de sua renda, muitas vezes de um salário mínimo, para a entidade. As três instituições têm parceria com a Secretária Municipal de Assistência Social (SAS) que encaminha os idosos para acolhimento nos asilos.

 

Segundo o presidente do Recanto São João Bosco, Gersino José dos Anjos, a impossibilidade da família cuidar do idoso é um dos principais motivos pelos quais eles são encaminhados para os lares. “As famílias não têm condição de ficar com idoso. As famílias trabalham e deixar o idoso em casa sozinho, ele pode sofrer um acidente e a medicação, ele não tem capacidade pra fazer sozinho”.

Recanto São João Bosco

Associação Amigos da casa de abraão

SIRPHA

O aposentado José Sebastião de Brito tem 67 anos e mora no Recanto São João Bosco há cinco. Ele afirma que foi para o asilo após ter ficado doente e ter sido encontrado na rua. A aposentada Luzia Rosa de Jesus de 72 anos teve uma história parecida, há dois anos foi morar na "Casa de Abraão" após ter sido encontrada sozinha em casa. “Os filhos casaram, cada um pra suas casas, e eu passei a ficar sozinha. As meninas do bairro chegaram a achar eu sozinha tentando pegar as coisas pra comer e não tava conseguindo”.

O estado de saúde dos idosos é classificado por graus de dependência, os mais graves são os de grau III, que necessitam de assistência em todas as atividades cotidianas ou têm comprometimento cognitivo. Muitos dos moradores do Recanto São João Bosco são de grau III e uma das preocupações do presidente da instituição é de que o local se torne mais uma clínica do que um lar. Segundo ele, um idoso mais dependente gera um custo muito maior para a instituição. “Os idosos de grau III custam de R$ 4500 até tem uns que vão até R$ 10.000 porque ficam tomando soro o dia inteiro e além disso o uso de medicamento caro, tem a manutenção da unidade que tem que ser adequada para receber o idoso”.

Segundo o presidente do Conselho Municipal do Idoso, Helton Rocha, em janeiro, oito idosos aguardavam na fila para serem acolhidos em uma das três instituições da cidade. Em alguns desses casos, os idosos esperavam em hospitais da capital até que surgissem vagas nas ILPIs. “Esse é um grande desafio para Secretária de Assistência Social em parceira com o Conselho Municipal do Idoso e o Ministério Público Estadual de aumentar o número de vagas ou pensar em instituições de longa permanência para atender essa demanda”. A Presidente da Associação Amigos da Casa de Abrahão, Edméa Almeida Couto afirma que a procura de vagas na instituição é grande e que há fila de espera.

A gente orienta, mas todo dia, final de semana, as famílias vêm procurando lugar, olhando, sabe? A procura é muito grande, a demanda é muito grande, eu acho que a demanda é muito maior do que a acessibilidade, o que nós podemos oferecer ou até o que o município pode oferecer" - Edméa Couto

A geriatra Marta Driehmer afirma que o município e o estado ainda não possuem suporte para receber mais idosos. “O Brasil está envelhecendo de uma maneira muito acelerada, então a programação desse cuidado com o idoso, existem várias políticas para a saúde do idoso e tudo mais, mas eu acredito que a gente não tenha aqui em Mato Grosso do Sul, em especial, uma equipe muito preparada ainda para esse atendimento”.

 

Segundo o presidente do Conselho Municipal do Idoso, tanto Campo Grande quanto o país estão em processo de implementação e ampliação de políticas públicas voltadas aos idosos. Para ele, a capital não está preparada para atender as demandas dessa população mais velha. “Um exemplo disso é que de seis meses pra cá o aumento de denúncias aumentou significativamente no Conselho do Idoso”. As denúncias estão relacionadas às violações de direito dos idosos, como violência doméstica e abandono. Além disso, ele afirma que o número de famílias em busca de lugar de acolhimento para os idosos também cresceu devido ao aumento da população idosa.