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Leticia Bueno e Rafaela Fernandes

O preconceito ao portador de HIV e Aids

 HERANÇA ESTIGMATIZADA

Os casos notificados de HIV e Aids diminuíram em Mato Grosso do Sul no ano de 2016 em relação a outros estados do país. De acordo com dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), em Campo Grande, a infecção do vírus HIV diminuiu 79,9% ano passado e os casos de Aids passaram de 305 casos para 134.

 

De acordo com dados divulgados pelo Ministério da Saúde (MS) em dezembro de 2016, 827 mil pessoas estão infectadas com HIV e Aids no Brasil, e deste total, 112 mil não sabem que são portadoras do vírus. O número de casos notificados não corresponde ao número real de pessoas infectadas, porque nem todas as pessoas estão cientes da sua sorologia, o que reforça a necessidade de realizar o teste de HIV.

O HIV é um vírus que altera o sistema imunológico e causa imunodeficiência. Quando a pessoa soropositiva tem uma infecção ou doença e a imunidade do portador do vírus fica mais baixa, o vírus passa para um estágio mais avançado: a Sida (Síndrome de ImunoDeficiência Adquirida) mais conhecida como Aids.

Médica infectologista Anamaria Paniago

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TESTE E TRATAMENTO

De acordo com informações disponibilizadas na página do Departamento de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), Aids e Hepatites Virais, atualmente, existem vários métodos de testagem do vírus HIV no Brasil, como, por exemplo, o teste “Elisa”, que detecta anticorpos contra o HIV por meio de exame de sangue laboratorial. Caso o resultado dê positivo, é necessária a realização de um teste confirmatório, porque o resultado pode ser “falso positivo” em casos de doenças autoimunes, alguns tipos de câncer e artrite reumatoide. Também existe o “Western Blot”, um teste confirmatório que procura por fragmentos do vírus HIV no sangue. Além disso, o teste da imunofluorescência indireta para o HIV-1, que pode encontrar os anticorpos anti-HIV presentes no sangue, e os testes rápidos, feitos com amostras de sangue ou fluido oral. O exame de sangue busca anticorpos anti-HIV e o fluido oral detecta anticorpos para o HIV-1 e HIV-2, ambos resultados saem em até 30 minutos.

A testagem via fluido oral é utilizada por Organizações Não Governamentais e estandes de teste rápido nas ruas e em eventos, porque não necessita de infraestrutura especializada. O procedimento consiste em coletar a saliva com um cotonete especial e adicionar um reagente ao material coletado. A saliva e o reagente são depositados em um recipiente próprio, com uma fita que indicará se o resultado é positivo ou negativo, como acontece em testes de gravidez vendidos em farmácias.

Os Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA) e as unidades públicas de saúde oferecem apoio psicológico durante a espera pelo resultado. Caso seja positivo, a pessoa recebe indicações sobre o tratamento e cuidados necessários, e é encaminhada para o acompanhamento médico. A enfermeira-chefe do Hospital Professora Esterina Corsini, Adriana Negri explica que os pacientes encaminhados passam por uma consulta de acolhimento, para responder possíveis dúvidas e coletar exames específicos para iniciar o uso dos medicamentos.

Enfermeira-chefe Adriana Negri

Faz o primeiro acolhimento, coleta todos os exames a mais, necessários para fazer uma triagem mais minuciosa, e posteriormente a esse resultado, ele já inicia o antirretroviral, que é a medicação específica para o HIV e Aids, e o acompanhamento ambulatorial.

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O paciente precisa tomar pelo menos três tipos de antivirais ou antirretrovirais diferentes para impedir a multiplicação do vírus no sistema imunológico. De acordo com a médica infectologista Anamaria Paniago, é preciso passar mais do que um antiviral para o paciente, porque o vírus pode resistir ao medicamento. “Usar três antivirais garante que esse vírus pare de se multiplicar no sangue do paciente. Daí nós vamos acompanhando um exame que chama carga viral e CD-4”. Ela afirma que, atualmente, o antirretroviral é o medicamento mais importante para o tratamento da HIV e é mais conhecido como “3 em 1”, pois são três drogas em um único comprido.

Médica infectologista Anamaria Paniago

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Após um mês de tratamento, a carga viral do paciente, que fica entre 10 mil a 100 mil por milímetro cúbico, deve diminuir para níveis indetectáveis, menos de 40 vírus por milímetro cúbico no sangue.

 

Segundo Anamaria Paniago, o programa do controle ISTs e Aids no Brasil é referência mundial, porque fornece gratuitamente os medicamentos. Em Campo Grande, esses remédios podem ser encontrados nas farmácias do Hospital Professora Esterina Corsini e Hospital Dia do bairro Nova Bahia, e no CTA. Além disso, o Sistema Único de Saúde (SUS) também disponibiliza medicamentos para evitar ou tratar infecções.

As pessoas diagnosticadas com o vírus HIV recebem acompanhamento médico ambulatorial, psicológico e nutricional pelo SUS. É altamente recomendado que o medicamento seja ingerido diariamente, além da prática de atividades físicas regularmente e hábitos alimentares saudáveis, para evitar agravos na saúde, como diabetes e colesterol alto.

 

PRECONCEITO

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Para Nicolas Borges, descobrir ser soropositivo foi uma experiência traumática, porque ele tinha preconceitos em relação ao tema. Após tratamento psicológico, Borges não vê problema em divulgar que é portador do vírus HIV para as pessoas com quem se relaciona, e explica que não se importa com o julgamento das pessoas, por ser um assunto que diz respeito apenas a ele. "Quem paga minhas contas sou eu, ninguém tem que falar nada da minha vida. Eu não permito, porque se a minha família, tanto por parte de mãe quanto por parte de pai, que são religiosos, já me respeita, eu não vejo porquê um desconhecido vai falar alguma coisa para mim. Eu não vejo problema em contar, mas tem muita gente que não conta para combater o preconceito".

 

Lucas* afirma que descobriu ser HIV positivo ao receber uma ligação do laboratório onde realizou exames de rotina. Ele ressalta que, durante a ligação, eles pediram para que ele refizesse o teste de HIV. Com o resultado em mãos, ele avisou a mãe, visitou o CTA e procurou uma médica infectologista. Ele foi encaminhado para realizar exames mais específicos no Hospital Professora Esterina Corsini. “Eram muitos exames e meu exame de CD-4 mostrou que minha carga viral estava ‘ok’, porque era recente. Em um mês de medicação meus níveis já estavam indetectáveis”.

 

*Nome fictício

 

Lucas relata que não sofreu discriminação por parte dos familiares e amigos, mas que o fato de alguns deles se sentirem mal, mostra que ainda há desinformação sobre o tema. “Algumas pessoas sentiram dó, o que é uma forma de preconceito também. Ficaram ‘e agora, o que você vai fazer?’, mas é só tomar o medicamento e seguir com a vida”. Ele ressalta que passou por um momento de constrangimento no laboratório em que refez o teste de HIV. “A moça falou que eu precisava refazer o exame de HIV muito alto, para todos ouvirem. Eu me senti constrangido e reclamei na ouvidoria. Eu tenho preparo psicológico e era esclarecido sobre isso, mas uma pessoa sem esse preparo pode nem voltar mais lá”.

 

 

Iracema Vasconcelos afirma que negar emprego ou trabalho, exonerar ou demitir de seu cargo, segregar no ambiente de trabalho ou escola, pública ou privada, divulgar a sorologia do paciente e recusar ou retardar atendimento de saúde, são crimes com multa e pena prevista de um a quatro anos. “Desde o ano de 1996 há no Brasil uma política de amparo, tratamento e auxílio às pessoas soropositivas para o HIV e doentes de Aids, e a Lei 12.984 de 02 de junho 2014 trata da criminalização da prática de discriminação contra estas pessoas”.

 

 

 

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PERSONALIDADES PORTADORAS DO VÍRUS HIV E DA AIDS

Duque explica que num segundo momento, o discurso sobre a doença mudou para a imposição de um método preservativo, o uso da camisinha. Nos dias de hoje, incluiu-se o ponto de vista do tratamento, que se seguido corretamente, a vida pode ser prolongada. O professor afirma que a abordagem escolhida pelas campanhas de saúde influenciam no pensamento da sociedade sobre o vírus. “O medo pode ser agenciado para as pessoas criarem discurso saudosista que, de alguma forma, acaba apontando para uma irresponsabilidade da juventude, para o não cuidado da juventude e aí entra outros estigmas em torno do ‘ser jovem’, como o ‘ser jovem’ fosse irresponsável e imaturo, quando na verdade não é nada disso”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para o professor Tiago Duque a resistência das pessoas em realizar o teste de HIV é porque o estigma em torno da doença continua negativo, devido ao preconceito. “Nós construímos a ideia de que o vírus tem a ver com promiscuidade, com não responsabilidade, com não cuidado de si. Ser soropositivo para algumas pessoas pode ter essa relação negativa e isso tem a ver com preconceito criado historicamente, interpretado por diferentes instituições e empreendedores morais”. Para ele, o fato de as novas tecnologias de testagem terem se expandido para além do espaço constitucional dos hospitais e Centros de ISTs e Aids, o acesso para a realização do teste em locais públicos é facilitado como, por exemplo, a universidade, praças e eventos, para atingir toda a população e não apenas grupos específicos.

VIDA ALÉM DO DIAGNÓSTICO

Lucas afirma que mantém uma vida normal depois do diagnóstico e escolheu compartilhar com as pessoas mais próximas e para a pessoa com quem é casado. “Contei quando percebi que o relacionamento estava ficando sério, que ia virar namoro. A pessoa aceitou tranquilamente, porque era esclarecida sobre o assunto”. Ele explica que os cuidados com a saúde são simples. “Eu cuido da minha alimentação, bebo bastante água para não sobrecarregar os rins com a medicação e tomo os remédios”.

 

Segundo Nicolas Borges, suas relações familiares e afetivas não alteraram depois do resultado do teste. Para ele, a melhor maneira de seguir a vida após o diagnóstico é se manter forte diante das críticas e dos preconceitos.

Nicolas Borges, HIV positivo

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CONTATO

Leticia Bueno

lefbueno@gmail.com

Rafaela Fernandes

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