pessoas para transplante renal, encaminhamento dos pacientes a outras regiões para o transplante cardíaco e exportação para outros estados de órgãos coletados na capital. A Associação Beneficente que realizou transplantes de córnea, rim e coração, apresenta problemas estruturais e falta de capacitação profissional.

A

Grande, Mato Grosso do Sul, por ordem do Ministério da Saúde

 paralisação do serviço de transplante na Santa Casa de Campo

(MS) em 2013, resultou em uma lista de espera com mais de 300

A suspensão dos transplantes foi consequência do despreparo do estabelecimento, que não cumpriu as exigências de equipe médica, suporte físico adequado e padrões de higiene segundo as normas do Ministério da Saúde, que é responsável por realizar os recadastramentos dos hospitais a cada dois anos para garantir o serviço de qualidade.

O transplante renal é a principal preocupação entre os pacientes do estado devido à alta demanda. Quando houve a paralisação em dezembro de 2013, a Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Mato Grosso do Sul (OAB/MS) convocou uma audiência pública para verificar a possibilidade de retomar as atividades.

Os pacientes que aguardam o transplante são submetidos à hemodiálise três vezes por semana. A

vice-presidente da Associação Doentes Renais Crônicos (Recromasul), Márcia Antunes , afirma que é uma

entre as 300 pessoas que perdem dias em tratamento exaustivo por falta do atendimento de transplante. “Estou esperando há muitos anos, fazendo hemodiálise, mas como a Santa Casa parou com o serviço por um tempo, eu já não acredito mais que serei chamada aqui”.

Recromasul

Sede da Associação Doentes Renais Crônicos em Campo Grande

Audiência

Convite da audiência pública sobre paralisação do transplante renal na Santa Casa

Márcia Antunes explica que após a audiência pública realizada com a diretoria e equipe médica do hospital, ficou decidida a reativação do transplante renal. Ela ressalta que a justificativa apresentada pelo Diretor Técnico da Santa Casa, Luís Kanamura, sobre a paralisação, era a ausência de médicos especialistas. Segundo o relatório da audiência, durante o evento, o Secretário Municipal de Saúde Pública, Jamal Salem, se comprometeu em ceder profissionais para o serviço. A retomada ficou prevista para janeiro de 2015 e desde então foram realizados apenas dois transplantes renais, de doador vivo, segundo dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO).

As informações divulgadas pela ABTO revelam um descaso em relação ao número de pessoas ainda na lista de espera. De acordo com Márcia Antunes, os pacientes precisam buscar atendimento em outros estados, mas poucos têm as condições necessárias para viver em outra cidade.  “Tem muita gente tentando ir para São Paulo, mas lá tudo é caro e o auxílio que dão é pouco, então não é fácil, ficamos sem esperança”.

O transplante é necessário quando a pessoa entra no processo de insuficiência renal, a doença pode ser crônica e por isso os pacientes fazem hemodiálise, as máquinas suprem o mau desempenho dos rins.

A substituição do órgão é o melhor tratamento. Para a presidente da Recromasul, Maura Trindade, transplantada há 20 anos, o transplante proporciona melhor qualidade de vida. “Eu estou muito bem graças a Deus. Sinto melhor, posso viver como uma pessoa normal e por isso eu tento ajudar os outros, eu já passei pelo que estão passando”.

Ajuda

A Recromasul permite visitas para doações de roupas, objetos e comida ou contribuições financeiras mensais

A Recromasul é uma associação que atende doentes renais e transplantados, formada por nove diretores e que funciona por meio de auxílio financeiro do município e ajuda voluntária de pacientes e familiares. Segundo Maura Trindade, em 2015 eram 280 pessoas cadastradas na associação, que buscam por medicamentos, comida e roupas. “Entre todos os pacientes, só quatro são transplantados. Do ano passado para cá, já fizemos muitas outras fichas, mas ainda não temos um número exato. É muita gente”.

Maura Trindade

Depois de viver anos na luta contra a insuficiência renal, Maura decidiu ajudar aqueles que hoje se encontram na situação de aguardo para o transplante. Atual presidente da Recromasul, ela já amparou mais de 200 pessoas

Para a presidente, apesar da retomada do serviço na Santa Casa, o estabelecimento não está adequado para continuar a realizar transplantes. “Precisa melhorar a capacitação dos enfermeiros sobre cuidados com os pós-transplantados, higiene no local e disposição dos médicos em relação aos pacientes”. Maura Trindade ressalta que a maioria das captações de órgãos é de doadores cadáveres, mas explica que o risco de rejeição é maior. O estado realiza apenas de doador vivo, que são poucos e insuficientes para a demanda. “Eu entendo que doação de cadáver está sujeita a mais riscos, mas é o que temos. Se a Santa Casa continuar fazendo só de doadores vivos, nunca vamos conseguir melhorar esta situação”.

De acordo com a coordenadora da Central Estadual de Transplantes, Claire Miozzo , há uma discrepância entre o número de pessoas cadastradas na associação e na lista de espera oficial. “Temos hoje apenas 36 pacientes inscritos, ou seja, mais de 250 pessoas não receberão a

Central

Cada estado tem uma central responsável por organizar uma lista de espera dos pacientes que precisam de transplante

notificação da Central sobre doação de órgão compatível porque não sabemos nem quem eles são".

A coordenadora relata que para serem cadastrados, os pacientes precisam dos atestados médicos que comprovem a situação de doença renal e a necessidade de transplante. Os que residem em cidades do interior do estado não conseguem realizar todos os exames solicitados e por consequência não são inscritos no sistema. “Alguns pacientes não tem condição de ir ao

Doença renal

hospital e esperar até que todos os exames estejam prontos. É muito complicado. Eles saem de suas casas e precisam passar horas em estabelecimentos públicos, onde o atendimento é mais demorado, e saem de lá sem o atestado. Fica mais cômodo fazer hemodiálise”. Claire Miozzo ressalta a importância de conscientização destas pessoas em seguir todo o procedimento, além do auxílio do poder público na garantia de que estes pacientes consigam fazer as viagens para a capital e sejam atendidos.

Coração

Perspectiva

Estima-se que o paciente transplantado pode viver em média mais 10 anos

Transplante

O  transplante cardíaco é uma das cirurgias mais delicadas, que exige plena capacidade médica e hospitalar em atender o paciente

Dados da ABTO revelam que em 2013 foram realizados três transplantes de coração em Mato Grosso do Sul e nenhum nos anos posteriores. De acordo com o cardiologista, que participou destes transplantes, Cláudio Albernaz, a Santa Casa de Campo Grande está proibida pelo Ministério de Saúde de realizar este serviço até que o estabelecimento cumpra as readequações físicas e a capacitação de profissionais. “Devido a disfunções internas foi decidido pela suspensão do transplante até que a reestruturação exigida seja feita, mas estamos dispostos a reativar o serviço”.

A Santa Casa está em processo de adequação para atender as demandas. Em 2014 fiz um curso de readaptação de transplante cardíaco e estou apto pelo Ministério da Saúde a realizar novamente o serviço.

- Cláudio Albernaz

Segundo Cláudio Albernaz, o paciente que precisa do transplante, não tem como estar na fila de um estado que não realize o procedimento devido ao tempo que existe entre o processo de captação e doação. “O paciente precisa morar em uma cidade que tenha um hospital que faça o transplante porque quando for avisado ao receptor sobre o doador compatível ele precisa estar perto do local para receber o coração”.

O transtorno em que se encontram os pacientes e suas famílias é uma das principais consequências da paralisação do serviço em Mato Grosso do Sul. O deslocamento definitivo para outros estados exige boas condições financeiras. “São pessoas simples, com pouco dinheiro, que não podem demorar muito para receber o órgão e precisam deixar toda uma vida consolidada para buscar uma nova esperança”, ressalta o cardiologista e esclarece que a perspectiva do paciente está na estimativa de que um transplantado de coração viva mais 10 anos após o procedimento.

Cláudio Albernaz

Médico cirurgião cardiovascular desde 1995, Cláudio  Albernaz participou de 13 transplantes de coração em 10 anos. Em 2015, realizou um curso de readequação para o transplante pelo Ministério da Saúde

 

Córnea

Em Campo Grande, os transplantes de córnea foram suspensos na Santa Casa em outubro de 2014 por determinação da Coordenadoria de Vigilância Sanitária e Ambiental (CVSA) do estado. De acordo com o oftalmologista e diretor do Banco de Olhos da capital, Marcos Piccinin, a paralisação do transplante na Santa Casa não interferiu na lista de espera porque o Hospital São Julião supre as demandas de atendimento. “Dificilmente o paciente permanece mais de um mês na fila do transplante de córnea, muitas vezes a pessoa é chamada no mesmo dia e o transplante é feito no São Julião, um dos centros que mais realiza este serviço no estado há vários anos”.

Visão

O  transplante de córnea permite a muitos pacientes recuperar a visão

Segundo dados da ABTO, foram realizados 118 transplantes de córnea em Mato Grosso do Sul de janeiro a setembro de 2015. Piccinin afirma que o atendimento é favorecido pela captação efetiva do Banco de Olhos, onde as córneas que não são utilizadas no estado são enviadas a outros hospitais do país. “Temos uma ótima coleta e um sistema que funciona, assim podemos ajudar além dos pacientes que aqui residem”.

O Banco de Olhos de Campo Grande foi construído em 2006 nas dependências da Santa Casa com o objetivo de assegurar que os tecidos oculares passem pelos processos de remoção, avaliação, preparação e conservação dentro dos padrões técnicos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Sistema Nacional de Transplantes (SNT) para garantir ao paciente a prevenção da cegueira.

O transplante de córnea consiste em uma cirurgia na qual uma porção da córnea doente é substituída por uma córnea saudável, em forma parcial ou total. É recomendado para casos de infecções graves, leucomas, perfurações oculares e, principalmente, para ceratocone. Além da vantagem deste transplante não exigir compatibilidade entre doador e transplantado, sua captação é possível em até seis horas após a morte de um indivíduo.

Procedimento

O  transplante de córnea é uma das cirurgias mais simples e com menos risco de rejeição

Para Piccinin, a eficiência do transplante também é favorecida em razão do suporte oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Os pacientes ficam isentos dos custos que, segundo a Aliança Brasileira pela Doação de Órgãos e Tecidos (ADOTE), podem ser em torno de mil reais se feitos por meio de um sistema privado.

Marcos Piccinin

O oftalmologista é especialista em transplante de córnea e um dos que mais realiza o atendimento no estado de Mato Grosso do Sul

 

O oftalmologista ressalta que apesar da eficácia dos transplantes de córnea em Campo Grande e de uma fila de espera praticamente inexistente, a paralisação do serviço pela Santa Casa compromete o pronto-atendimento oftalmológico do local, que em casos de transplantes de urgência seria o estabelecimento necessário para fazer o procedimento. “Se um paciente precisar realizar o transplante de imediato, não será possível, pois o pronto-socorro está situado na Santa Casa. Então, será preciso encaminhar este paciente ao São Julião e o atendimento lá não é

de urgência”.

As equipes médicas dos hospitais sul-mato-grossenses demonstram capacitação e competência no serviço de transplante de córnea, mas para melhor atender à população, é previsto que a Santa Casa seja recadastrada pelo Ministério da Saúde e o transplante no local seja retomado.

Medula Óssea

Mato Grosso do Sul tem uma alta procura por outros tipos de transplante além dos que são ou já foram realizados pela Santa Casa de Campo Grande. Um exemplo é o transplante de medula óssea, serviço que os hospitais da capital podem oferecer se algumas preparações físicas e profissionais forem executadas.

Transplante de Medula

O  transplante de medula óssea pode ser utilizado para diversos tratamentos médicos

Segundo a cirurgiã pediátrica, Andréia Antoniolli, o número de pacientes que precisam deste transplante aumentou nos últimos anos, mas os leitos são insuficientes em todo o país. Na região Centro-Oeste, a única cidade a realizar o serviço é Brasília. “O que é preciso entender é que temos filas enormes de transplante e a aplicabilidade da medula óssea é diversa, serve para outros tratamentos também, então precisamos estruturar um projeto aqui”.

localizado dentro do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (HUMAP), que desenvolve pesquisas experimentais com o objetivo de se

tornar um centro de excelência em terapia celular para atender os pacientes pelo SUS, que não têm condições de adquirir o tratamento em outros estados em função dos altos custos.

Em 2010, a coordenadora do CeTroGen realizou um simpósio sobre o tema e nessa ocasião surgiu a oportunidade de cooperação entre a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e o Instituto de Pesquisa em Células Tronco (IPCTRON). Com a parceria, foi possibilitada a construção do laboratório que funciona desde 2013 no HUMAP. De acordo com Andréia Antoniolli, o centro tem a maioria dos equipamentos necessários para realizar o transplante de medula óssea, mas faltam algumas estruturas que dependem de investimentos financeiros. “Estou numa batalha de quase um ano para conseguir recursos, montar o que falta e, principalmente, alocar o banco de cordão umbilical dentro do hospital universitário porque ele serve não só como um depósito de células, mas como um laboratório de manipulação celular, que permite toda a manipulação para o transplante de medula óssea”.

Andréia Antoniolli

Além de coordenar o CeTroGen, Andréia Antoniolli é gerente de ensino e pesquisa do Hospital Universitário

O Banco de Cordão Umbilical (BCU) é uma forma de estocagem das células tronco do cordão umbilical que servem para tratamento de leucemia e anemia falciforme, por exemplo. A dificuldade de se encontrar doadores compatíveis para o transplante de medula óssea reforça a necessidade de um banco que possa fazer este tipo de captação, além de servir de incentivo as mães para doarem o sangue do cordão umbilical de seus bebês.

Clique para ouvir o áudio

O BrasilCord é uma rede nacional que integra os Bancos Públicos de Sangue de Cordão Umbilical e Placentário (BSCUP) criado pelo Ministério da Saúde com o intuito de aumentar a coleta deste material por todas as regiões do país. Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil possui 12 unidades e mais de 15 mil amostras.

Marcelo Souza

O hematologista é responsável pela maioria dos encaminhamentos de transplante de medula óssea  de Campo Grande para outras cidades

A cidade de Campo Grande foi escolhida pelo Governo Federal para sediar um banco, mas o serviço ainda não foi implantado. Na capital há apenas um estabelecimento privado, onde o material é usado por quem pagou pelo armazenamento.  De acordo com a coordenadora, o CeTroGen trabalha para que este tipo de transplante seja realizado no estado e os pacientes sejam beneficiados com esta facilidade. "A superintendência do Hospital Universitário apoia o projeto, isto é um grande começo".

O hematologista Marcelo Souza afirma que tanto o banco de cordão como o CeTroGen são serviços auxiliares que facilitam a implantação do transplante de medula óssea, mas ainda faltam outras adaptações internas do hospital. “Para que se realize o transplante, precisamos de setores de isolamento, laboratórios pós-transplante, leitos específicos e toda uma preparação da equipe médica para atender um paciente que esteja submetido a qualquer tipo de complicação”.

Segundo o hematologista, o HUMAP ainda carece destas estruturas e acredita que o Hospital Regional de Mato Grosso do Sul (HRMS) e a Santa Casa estão mais preparados para oferecer o atendimento. “Ambos os hospitais tem mais condições de apoio do que o Hospital Universitário, mas também é preciso readequações para que os estabelecimentos se enquadrem nas exigências do Ministério da Saúde”.

Luciana Ferreira

Mãe das gêmeas Daniela e Gabriela, Luciana buscou informação e auxílio para entender a necessidade da implantação do transplante de medula óssea em Mato Grosso do Sul

 

Quando é avisado sobre a compatibilidade, o paciente necessita das condições financeiras para o procedimento de transplante e pós-transplante, o que resulta muitas vezes na desistência do mesmo, que não tem recursos financeiros suficientes para arcar com as despesas. “É muito mais complicado do que se ele tivesse o atendimento perto de casa. Ele teria a estrutura familiar, mais auxílio, seria outra realidade”.

Os pacientes que precisam do transplante são encaminhados a outros hospitais devido a falta do atendimento no estado, Marcelo Souza explica que quando a doação é feita por um parente, o procedimento é simples e pode ser realizado em poucos meses no estabelecimento mais próximo. Mas quando é necessária a busca por um doador, o paciente precisa fazer a inscrição no Registro Brasileiro de Receptores de Medula Óssea (REREME) que faz a procura pelo Registro Brasileiro de Doadores (REDOME) de doador compatível.

As gêmeas Daniela e Gabriela Ferreira nasceram com anemia falciforme, doença hereditária que causa anemia ao paciente, que pode ter intensas crises de dor e infecções. A mãe das meninas, Luciana Ferreira, afirma que especialistas indicaram o transplante de medula como o melhor tratamento. “Nós felizmente temos uma filha mais velha que será a doadora para uma das meninas, é um trabalho a menos. Mas teremos muitos gastos com as viagens e com os medicamentos”.

Luciana Ferreira ressalta que a implantação do serviço de transplante de medula óssea em Mato Grosso do Sul é necessário para que outras pessoas, que se encontram em situações como a de suas filhas, possam ser ajudadas e tenham a chance de adquirir melhor qualidade de vida.

Leis

A Lei nº 9.434, de 4 de fevereiro de 1997, que regulariza o transplante e a doação de órgãos e tecidos, traz os procedimentos padrões de remoção e normas que estabelecimentos e equipes hospitalares devem seguir. Alguns dispositivos continuam vigentes e outros foram alterados pela Lei nº 10.211, de 23 de março de 2001. Entre os que ainda vigoram, a

Regularização

A lei que regulariza o procedimento do transplante e doação foi modificada com o intuito de aumentar o atendimento no país

autorização de estabelecimentos de saúde e de equipes médico-cirúrgicas pelo órgão de gestão nacional, Ministério da Saúde.

Foram anulados os parágrafos que previam que o individuo que não registrasse a expressão “Não doador de Órgãos e Tecidos” na Carteira de

Identidade, Registro Geral (RG), ou na Carteira Nacional de Habilitação (CNH), era um possível potencial doador. O Art. 4° da lei de março de 2001 estabelece que a retirada de tecidos, órgãos e partes do corpo de pessoas falecidas para transplantes ou finalidade terapêutica, dependerá somente da autorização do cônjuge ou parente, maior de idade, até segundo grau. A advogada Tatiana Garcia explica que o modelo não deu certo e as manifestações de vontade registradas nas carteiras perderam sua validade desde dezembro do ano 2000. “As pessoas tinham medo de que se colocassem em seus documentos que eram doadores, podiam ser vítimas de acidentes propositais para ter seus órgãos ‘roubados’”.

Tatiana Garcia

A advogada atua nas questões que envolvem todos os tipos de transplante no estado

A mudança reforça uma necessidade de conscientização sobre a doação. Quando a vontade relativa à retirada posterior à morte não é atendida pelos familiares, o procedimento não é possível. A advogada afirma que a informação em torno dos benefícios da doação é um dos fatores que podem contribuir para que o serviço seja eficaz. “Precisamos apontar o desejo para nossa família de que somos doadores e então fazer um trabalho de conscientização para que nossas vontades sejam atendidas e possamos salvar outras vidas”.

Claire Miozzo

Claire Miozzo desenvolve anualmente campanhas de conscientização sobre o transplante e doação de órgãos e tecidos no estado por meio da Central Estadual de Transplantes

De acordo com Claire Miozzo, outro fator neste processo de compreensão é o acolhimento familiar. “Entre os vários motivos que levam a família a não autorizar a doação, alguns chamam mais atenção. O cuidado e a receptividade são de extrema importância. O acolhimento de quando a família chega ao hospital é decisivo”.

Tatiana Garcia ressalta que apesar da obrigatoriedade da consulta familiar exigir que parentes sejam os principais alvos desta conscientização, a mudança na lei é positiva, visto que, a regularização do processo trouxe segurança ao receptor e doador que são amparados por uma legislação humanizada. “Quando a família é a testemunha, sentimos mais garantia na eficácia da lei e, consequentemente, os pacientes buscam mais o serviço”.

Para a doação em vida, a pessoa só dependerá de uma autorização judicial prévia se o receptor não for um parente. A facilidade do processo não descarta a necessidade de se trabalhar em sociedade a informação sobre os resultados positivos da doação. Segundo Claire Miozzo, as campanhas devem ser contínuas para que os impactos sejam observados por meio de uma redução de pacientes na lista de espera por transplante.

Devemos sempre trabalhar com essas campanhas, não podemos parar. Este é um trabalho que precisa ser reforçado dentro de todos os ambientes sociais

- Claire Miozzo

Além da tarefa em torno da doação, Claire Miozzo reforça outro aspecto que é garantido por lei, mas inviabilizado muitas vezes por falta de conscientização dos médicos. O termo de morte encefálica, depois de preenchido e assinado, deve ser arquivado no prontuário do paciente, e é responsabilidade da instituição hospitalar comunicar à Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos (CNCDO) a que estiver vinculada. Estas condições são determinadas pela legislação e pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e de acordo com Claire Miozzo não ocorre como deveriam. “Independente de a morte encefálica evoluir para uma doação, é obrigatória a notificação à Central. Porém, é subnotificada. Os médicos não abrem o protocolo e a Central nunca terá conhecimento. Isso faz com que o número de doações por esta situação seja menor. Então, é preciso estimular os médicos a notificarem”.

A morte encefálica representa um estado clínico irreversível, quando as funções cerebrais estão comprometidas e o paciente respira apenas com a ajuda de aparelhos. O coração bate por mais algumas horas e por isso já é caracterizada a morte do indivíduo. Para abrir o protocolo de morte encefálica é preciso a realização de dois exames clínicos com intervalo de seis horas e acompanhamento por neurologistas.

Esta é uma das situações que segundo Claire Miozzo precisa ser melhor informada para a população, que desconhece casos de morte encefálica e não compreende todas as possíveis doações que podem ser realizadas. “Se as pessoas e, principalmente, os familiares compreenderem sobre a situação de morte encefálica vão saber a importância de consentir a doação a tempo de salvar outras vidas”.

Conscientização

Assim como as campanhas de prevenção ao câncer, atenção no trânsito e inclusão social têm seus meses “coloridos” para incentivar conscientizações sociais, o “Setembro Verde” é uma alusão ao Dia Nacional de Doação de Órgãos, comemorado em 27 do mesmo mês. Uma iniciativa da ABTO para chamar atenção dos cidadãos brasileiros sobre a importância e benefícios da doação de órgãos e tecidos.

Doação

Quase todos os dias a doação de órgãos e tecidos salva vidas por todo o país

De acordo com o Ministério da Saúde, o Brasil realiza 95% das cirurgias de transplante pelo SUS, com assistência integral ao paciente. Em 2015, o país alcançou a maior porcentagem de aceitação familiar, 58%, e superou os demais países da América Latina, além de ter reduzido o número de pessoas em aguardo por transplante em 36%.

A situação nacional é positiva em relação às condições de outros países latino-americanos, mas os dados não são iguais entre as regiões brasileiras. Centro-Oeste ainda é uma das regiões que menos tem captação de órgãos e realização de transplantes. Mato Grosso do Sul está entre os estados que menos realiza o serviço e tem equipes médicas capacitadas apenas para transplante de coração, rim e córnea.

A Santa Casa de Campo Grande, que em 2015 teve 60% de recusa familiar para doação de órgãos de parentes em morte encefálica, aderiu pela primeira vez à campanha nacional “Setembro Verde”. A cor, que representa para os mobilizadores uma nova vida que renasce por meio da doação, foi usada para iluminar monumentos e a fachada do hospital. Há sete anos, a Santa Casa realiza eventos sobre doação e transplante, a 7ª Campanha de Doação de Órgãos e Tecidos ofereceu no local um ciclo de palestras sobre morte encefálica e transplante renal com o objetivo de informar a população campo-grandense e trabalhar com o tema que é visto como um tabu.

Seja um doador

Entenda importância da doação e passe a informação adiante. Deixe registrado no coração de suas famílias a sua vontade. Lute pela vida e salve uma.

 

Para alguns médicos que estão inseridos neste processo de conscientização, repassar à mídia local e levar às escolas e universidades campanhas informativas sobre doação é um dos passos para melhorar a situação dos transplantes no estado. Informadas, as pessoas questionam sobre as condições do serviço e então pressionam o poder público por melhorias estruturais e profissionais das quais os hospitais necessitam.

Texto: Iasmim Amiden

Fotografias: Iasmim Amiden

 Vídeos: Iasmim Amiden

Design gráfico: Iasmim Amiden