TECNOLOGIA

Pesquisa de iniciação científica desenvolve aplicativo de tradução entre o guarani e o português

Aplicativo "Guaruak" foi criado por estudantes do ensino médio e rendeu prêmios nas maiores feiras de pesquisa em Mato Grosso do Sul e no Brasil

Caio Teruel, Marcos Saucedo e Mylena Fraiha, de Campo Grande 3/12/2018 - 06h57
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Estudantes do Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS) em Dourados criaram aplicativo de tradução entre o guarani e o português. O aplicativo traduz o idioma e dá acesso à pronúncia correta do vocábulo. A versão mais atual do aplicativo permite a colaboração do usuário por meio da inclusão de novos termos. O Projeto Guaruak faz parte do projeto de pesquisa de iniciação científica “Língua e Antropologia: Corpo e Alma do Aplicativo Guaruak”, que objetiva documentar a língua guarani e ampliar o número de falantes em Mato Grosso do Sul. O acesso ao aplicativo será liberado ao público em 2019.

De acordo com o professor de Tecnologia da Informação e um dos criadores do projeto, Evandro Falleiro o desenvolvimento do aplicativo começou há dois anos e teve a participação de três alunos do IFMS, Gabriela Vito, Wiliam Medeiros e Ana Gabrielly Moura. Falleiro explica que a iniciativa foi proposta pelos alunos, que entraram em contato com a população indígena. “Como nós temos no IFMS os programas de iniciação científica, os estudantes apareceram com uma problemática em relação a preservação das línguas indígenas, e a professora Carmem, que trabalhou com antropologia e sociologia, se interessou pela temática e procurou o pessoal da tecnologia para a construção do aplicativo”.

Segundo Falleiro, o dicionário possui cerca de 800 termos entre palavras e frases. O professor ressalta que ,durante o processo de pesquisa, notou-se que alguns jovens indígenas desconheciam a própria língua. ”O dicionário foi construído por meio de entrevistas nas aldeias, os estudantes foram, conversaram com o pessoal que é mais antigo, e constataram que os mais jovens desconhecem a língua original, então é por meio das entrevistamos que filtramos os dialetos locais, montando as listas da palavra em português e guarani com suas respectivas traduções”.

A aluna do curso técnico de Informática para Internet do IFMS, Gabriela Vito é uma das bolsistas do projeto. Ela afirma que o aplicativo funcionará como uma plataforma colaborativa, na qual o usuário pode acrescentar novos termos. "Nosso projeto Guaruak é um aplicativo que traduz o Guarani para o português e vice-versa. O aplicativo vai funcionar também como uma plataforma de interação para o usuário que quiser adicionar palavras e áudios, por exemplo ele foi em uma região que fala guarani e conheceu uma palavra que ainda não tem no aplicativo então ele vai poder adicionar, de onde ela veio e poder colocar um áudio também dessa palavra no aplicativo como fala e claro antes irá passar por uma filtragem para ver se ela está certa".

O grupo de pesquisa é composto por alunos e professores de Sociologia, Língua Portuguesa, Literatura e da área de Tecnologia da Informação. O grupo surgiu do convite de uma professora do Instituto que desejava organizar e documentar a língua Guarani, pois a cidade de Dourados abriga a segunda maior aldeia indígena da fala no Brasil.

Gabriela Vito é indígena Guarani e desconhece a língua de sua comunidade, por ser alfabetizada no idioma português. Para ela, a pesquisa é uma forma de resgatar a língua e perpetuar para as próximas gerações."Eu sou Guarani mas eu não sou falante do Guarani, então aí já houve um problema porque o meu pai também não fala e já são duas gerações que não falam o Guarani, isso é uma forma de ver como a língua está se perdendo, aqui só os anciões falam o Guarani. E pra mim a pesquisa foi muito importante, eu sou indígena e eu estava vendo a minha língua morrer e não poder fazer nada mas eu vi que com o aplicativo eu poderia mudar essa realidade".

A pesquisa recebeu prêmios em feiras de pesquisa no estado e no Brasil, como na Feira de Tecnologias, Engenharias e Ciências de Mato Grosso do Sul (Fetec), quinta maior feira de tecnologia e ciência do Brasil e a Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace).

Preservação das línguas indígenas

De acordo com a linguista Ilda de Souza, um dos fatores que contribuem com a gradual redução de falantes de línguas indígenas é a perda do território de origem. "São vários motivos. Um dos motivos apontado pelos pesquisadores sobre o que motiva a perda da língua, é a perda do território. Então um fator muito importante, ainda dentro disso, é o contato das línguas. Porque se ele perdeu o território, mas se manter o contato com outras etnias, eles vão continuar falando a língua deles. Mas a perda do território é apontado pela literatura com um fator preponderante para a perda da língua".

 

Para a linguísta, a transmissão cultural entre gerações é outro fator que interfere na disseminação e preservação das línguas tradicionais. "Quando a língua deixa de ser socialmente utilizada e perde sua função social, ela começa a se perder muito facilmente. Então quando os pais deixam de ensinar a língua como materna para as crianças, ela já começa a morrer. Aí quando ela começa a deixar de ter função social dentro da aldeia, ela também já acelera o processo de perda".

Segundo Ilda de Souza, as iniciativas de preservação das línguas indígenas convergem na tentativa de documentar a língua. "Sobre a revitalização, o que a gente pretende. Não temos a pretensão de fazer a língua ficar viva de novo, isso não existe. Então revitalizar, no sentido que eu trabalho, é dar uma sobrevida para a língua até que ela seja documentada. Porque o trabalho maior que tem sido feito no Brasil hoje é de documentação linguística. Para a língua ser preservada ela precisa ser escrita, ter literatura. Isso é revitalizar. Não significa que eles vão voltar a falar a língua".

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