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27 de novembro de 2015 - 12h51

Plano Municipal de Educação recomenda ensino de História e Cultura Afro

UEMS iniciará, em 2016, curso de pós-graduação em Educação para as Relações Étnico-raciais

IAGO PORFÍRIO E LETÍCIA ÁVILA
A estudante Bárbara Isabelle diz que o professor deve orientar os alunos sobre a cultura afrobrasileirasA estudante Bárbara Isabelle diz que o professor deve orientar os alunos sobre a cultura afrobrasileiras  (Foto: Letícia Ávila)

Plano Municipal de Educação de Campo Grande (PME), aprovado em 2015 com vigência até 2025, orienta mudanças e ações que valorizem a educação étnico-racial sobre a história e a cultura africana e afro-brasileira. De acordo com o Plano, para diminuir as atitudes preconceituosas e de negação da identidade étnico-racial, é necessária uma mudança em relação à forma de representar o continente africano e a história afro-brasileira. Segundo o vereador Eduardo Romero, o cumprimento do Plano é prejudicado pela crise da Prefeitura de Campo Grande. “No marco jurídico estamos bem, a prática e efetivação é outra discussão”.

O ensino da História e Cultura Africana e Afro-brasileira nas escolas de Ensino Fundamental e Médio é obrigatório, regulamentado pela Lei Federal nº 10.639/03. A Lei tem o objetivo de promover uma educação que reconheça e valorize a diversidade. Com isso, cursos de graduação passaram a oferecer disciplinas para capacitar os futuros professores a trabalharem o tema na estrutura curricular.

A estudante de Artes Visuais, psicóloga e ativista no movimento social “Mulheres Negras em Ação” Soane Piuna pretende trabalhar a Lei em sala de aula e afirma que sentiu falta de habilidade dos professores com questões da cultura Afro. “Não tive nenhum professor negro, nenhum que possuísse a real dimensão do que é vivenciar o racismo cotidianamente”.

A estudante de Letras Bárbara Isabelle diz que a inserção de matérias de cultura e história afro-brasileiras ajuda a acabar com o preconceito. "Está faltando, ainda mais em respeito a essas religiões que fazem parte da composição história do Brasil. O papel do professor é de orientar, passar atividades para os alunos e pais compreenderem melhor". 

Para a técnica pedagógica da Educação Étnico-racial da Coordenadoria de Políticas Específicas para a Educação (COPEED/SED) Tania Milena Nugoli, a temática precisa ser trabalhada dentro da escola em vários âmbitos. “Precisa ser permeada dentro dos componentes curriculares como um todo. Nas aulas de história e geografia, lembrando da importância que esses povos tiveram na formação social brasileira”.

Segundo Nugoli, os educadores precisam ter conhecimento sobre a cultura e a religião afro-brasileiras. “A gente escuta casos de professores que tentam levar pais de santo, mães de santo, os tambores. E às vezes os diretores, dentro da sua concepção religiosa, acabam proibindo isso”. A técnica pedagógica ressalta a importância da criação do curso de pós-graduação em Educação para as Relações Étnico-raciais, que será iniciado em 2016 na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS).

Para Nugoli, as religiões afro-brasileiras devem ser trabalhadas em salas de aula. “O Estado é laico, mas não é ateu. Se nós temos uma base cultural, cujo a história do nosso povo está ligada a esses processos religiosos eles devem ser falados, devem estar presentes na escola. Por que não falar dessa religião?”.

O professor de Pedagogia Antonio Lino diz que a religião deve ser discutida na escola como expressão de cultura, sem doutrinação. "Em princípio não deveria ter religião dentro da escola. Tem que ser sobre a formação do aluno em termo de cultura geral, apresentando as religiões, as formas de expressão". 

Na sala de aula com os Orixás

Zila Dutra, mãe de santo é pós-graduada em Psicopedagogia e dirige atualmente a Federação das Religiões de Matriz Africana de Mato Grosso do Sul Ajô Nilê. "Mãe Zila" destaca que negar a cultura afro é negar a si mesmo. “O Candomblé é ancestralidade, natureza e, não só uma religião, mas um modo de vida. E os Orixás representam a natureza e a ancestralidade”.

Ainda de acordo com "Mãe Zila", quando seu filho estava com nove anos, teve contato com livros escolares de cultura afro-brasileira na escola mas que se frustrou pela falta de abordagem da professora. “Ele desesperado para que a professora compartilhasse, falasse do Orixá, contasse suas histórias. A professora não soube dar explicação nenhuma, ele teve que dar uma aula para a professora e desmistificar a situação”.

A mãe de santo defende que teria de haver espaço para outras religiões. “Um programa que levasse todas as religiões para dentro da escola, um esclarecimento sobre a religião, sobre a cultura”.  Ela destaca que passou por situações de intolerância religiosa, quando seu filho foi barrado na porta da escola por estar com trajes da religião.

Para "Mãe Zila", a Lei 10.639/03 deve ser cumprida e os professores deveriam ser capacitados para ensinar a cultura afro-brasileira. “Isso não pode ficar só no papel ou no discurso. A lei existe e tem que ser cumprida. Teria que pegar pessoas qualificadas, pessoas que tivessem uma formação boa. Trazer a escola para dentro dos terreiros, em festas para acabar com esse preconceito”.

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