EDUCAÇÃO

Projeto da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul promove oficinas em escolas do campo

Núcleo realiza atividades de apoio à formação de educadores em escolas rurais e promove debates sobre sustentabilidade e agroecologia no campo

Amanda Raíssa, Evelyn Mendonça e Jéssica Lima, de Campo Grande 8/11/2019 - 01h37
Compartilhe:

O Núcleo de Estudos e Pesquisas em Sociobiodiversidade e Agroecologia do curso de Educação do Campo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) realiza atividades de apoio à formação de educadores em escolas rurais no estado e promove debates sobre sustentabilidade e agroecologia no campo. Oficinas de artes visuais, comunicação e capoeira foram oferecidas para alunos das sete escolas rurais do município de Terenos em novembro. As atividades foram desenvolvidas no primeiro Encontro de Jovens do Campo.

Segundo o Censo Escolar 2017, divulgado pela Secretaria de Estado de Educação (SED), existem 246 escolas rurais em Mato Grosso do Sul. O número corresponde a 46,6% do total de instituições de ensino em Terenos. De acordo com a coordenadora Municipal da Educação do Campo de Terenos, Elizandra Nascimento aproximadamente 125 professores atuam na região rural do município. 

A coordenadora ressalta que questões voltadas à identidade do campo são prioridades nas atividades desenvolvidas nas escolas do município. “É importante trabalharmos a questão do pertencimento, nós entendemos que em algum momento eles vão ter que sair do campo para buscar uma formação de nível superior, mas que eles possam depois regressar para o campo, essa é a nossa esperança, o nosso futuro está dentro desses jovens. Nós precisamos trabalhar essa questão da identidade para que eles saibam que são sujeitos de suas histórias”.

Elizandra Nascimento explica que o debate sobre questões ambientais é parte do currículo de ensino nas escolas de Terenos. “Nós temos a disciplina de educação ambiental, na educação infantil e fundamental, temos uma escola de extensão, onde trabalhamos temas como a alimentação saudável. Os alunos produzem uma horta, dentro da linha de agroecologia, onde tudo o que se produz não há qualquer valor de agrotóxicos”. Ela ressalta que o desenvolvimento do ensino no campo se associa à aplicação de novas tecnologias e à realização de projetos para a qualificação do ensino.

O estudante da Escola Municipal Antônio Sandim de Rezende, localizada na área rural de Terenos, Vitor Talgatti conquistou a medalha de bronze na categoria “Crônica” na 6ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa (OLP), no mês de outubro, em São Paulo. A coordenadora ressalta que a produção literária é uma das áreas que recebem destaque no ensino. “Trabalhamos projetos na linha da língua portuguesa, projetos de leitura, literatura e produção de contos e poesias. Nós também desenvolvemos feira de saberes e do campo, é realmente o conceito de escola em movimento”.

O professor do curso de Licenciatura em Educação do Campo da UFMS, Alejandro Lasso explica que o curso é voltado para áreas como Linguagens e Códigos, Ciências Humanas e Matemática. “O curso se dedica para que os professores atuem nas escolas do campo, e a realidade é que nessas escolas, a maior parte dos professores são graduados dentro das licenciaturas tradicionais, no qual é cada um na sua linha de conhecimento”. 

Lasso explica que a graduação procura desenvolver processos de formação para professores nas escolas e que estuda todos os princípios do movimento educação do campo e agroecologia, que surgiu devido à necessidade de levar a universidade para áreas pouco acessíveis. “O objetivo é fazer com que a rede de escolas municipais e estaduais criem um processo de reconstrução e adequação dos projetos pedagógicos das escolas”. 

O professor ressalta que a universidade deve ser local para a construção de diversas áreas de conhecimento. “A universidade é um universo de conhecimento e que pode se incluir nas escolas do campo com arte, cultura, ciência, agroecologia. Nós acreditamos que a escola é lugar para criar um cidadão com valores, princípios, essência e um espírito capaz de superar certos desafios que existem no século 21”. Ele complementa que profissionais da educação devem levar todo seu conhecimento para áreas menos privilegiadas e que a experiência adquirida contribui para o conhecimento pessoal. 

A estudante do curso de Licenciatura em Educação do Campo, Lidiane Correia participa do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Sociobiodiversidade e Agroecologia (Nesbio) da UFMS há quatro anos e explica que a educação do campo influencia diretamente no ensino oferecido aos alunos. “Hoje não tem mais essa separação de campo e cidade. Quando se fala em escola no campo a gente pensa em tudo que engloba as famílias em primeiro lugar, e toda a produção do campo, tudo que as comunidades produzem e isso gera frutos”.

Acadêmica participante do projeto ressalta que as escolas rurais precisam de mais investimentos (Foto: Amanda Raíssa)

Lidiane Correia explica que o projeto atua em várias cidades do estado, como Dois Irmãos do Buriti, Terenos, Anhanduí e a Comunidade Quilombola Furnas do Dionísio. Ela complementa que o projeto visa integrar o campo com todas as áreas da educação, com objetivo de transformar a ação em um complemento curricular para os alunos. “O Nesbio é um projeto que visa a agroecologia e a formação para os professores, porque nós sentimos a necessidade de não apenas ensinar os alunos, mas também de darmos a devida atenção a carência dos educadores em questão de entender como é essa integração e como que isso acontece”.

A acadêmica afirma que o impacto social causado é imediato e que é preciso menos segregação e mais investimentos em escolas rurais. “Infelizmente, as pessoas acham que só tem que investir em escolas da cidade. E não é assim, porque o campo também recebe essa tecnologia e nós temos que ensinar para que isso possa semear cada vez mais. E não segregar e fazer investimentos apenas em escolas da cidade”. 

A estudante do curso de Licenciatura de Educação Comunitária em Direitos Humanos da Universidade Pedagógica Nacional da Colômbia, Melisa Ballesteros está em Campo Grande para um período de estudo no Brasil e participa do projeto há poucos meses. Ela explica que o projeto impressiona pessoas que moram na cidade. “O projeto tem impacto para as pessoas que vem da cidade, porque para as pessoas que já moram, estudam, trabalham no campo é uma realidade que acontece todo tempo. É importante esse tipo de evento, onde ocorrem reuniões e oficinas para integrar as pessoas da cidade, para que possam conhecer a realidade do campo”. 

O professor e responsável pelo jornal e programa de rádio Giro da Jamic, produzido pelos alunos da Escola Municipal Jamic Polo, Rodrigo Rolim explica que a produção de conteúdo jornalístico pelos estudantes está entre as atividades desenvolvidas fora do currículo tradicional de ensino. “Quando cheguei aqui no ano passado, vi que os alunos tinham uma dificuldade muito grande na parte de se comunicarem e não é porque o aluno vive no campo que ele não precisa estar atento para a parte da comunicação. Porque se ele produz um produto na agricultura familiar e tiver que vender, ele precisa disso”. Ele afirma que o conteúdo produzido  benefícia toda a comunidade local.

Rolim ressalta que o projeto de mídias gera resultados positivos para o futuro profissional dos alunos do campo. “É por meio do jornal que nós desenvolvemos as habilidades e quando esse aluno sair daqui, sairá mais preparado para enfrentar o mercado de trabalho e toda a vida fora do campo. Precisamos tirar a visão do campo antigo, que era um campo excluído. Hoje o homem do campo pode ser um homem moderno, temos que superar essa visão ultrapassada e pensar no futuro”.

Compartilhe:

Deixe seu Comentário

Leia Também