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Conselho Universitário da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul debate Programa Future-se

Professores, técnicos e estudantes estavam entre conselheiros que debateram a eficiência do projeto e as implicações diretas na educação superior

Guilherme Correia e Izabela Piazza, de Campo Grande 8/11/2019 - 00h25
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O Conselho Universitário da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em debate sobre os aspectos do programa de educação Future-se, decidiu se manter sem posição pró ou contrária ao projeto. O Conselho se reuniu no último dia sete de novembro no auditório da Secretaria Especial de Educação a Distância e Formação de Professores (Sedfor) para discutir o relatório do grupo de trabalho constituido para avaliar os pontos do Future-se. Os conselheiros, professores, técnicos e estudantes da UFMS participaram da reunião que apresentou alterações feitas no texto-base do projeto apresentado pelo Ministério da Educação (MEC).

A falta de posicionamento é críticada por alguns professores que estiveram na reunião (Foto: Guilherme Correia)

A reunião ocorreria inicialmente no dia 27 de setembro e foi adiada pelo reitor da Universidade, Marcelo Turine. A decisão desagradou o corpo técnico e docente da UFMS e resultou em paralisação nos dias 2 e 3 de outubro como protesto. Alguns estudantes também se manifestaram por meio da ocupação do Bloco 6 da Universidade para exigir um posicionamento do reitor. O projeto Future-se é uma proposta do ministro da Educação, Abraham Weintraub que afeta diretamente a administração e os recursos financeiros das universidades públicas. Algumas instituições se posicionaram contra e a UFMS ainda sem posicionamento em relação ao projeto.

A pró-reitora de Planejamento, Orçamento e Finanças (Proplan) da UFMS, Dulce Maria Tristão leu algumas alterações feitas no projeto durante a reunião e ressalta que o programa dá autonomia a Universidade e acesso gratuito para os alunos ingressarem nos cursos. “O texto atual não cita aplicação de penalidade para quem sai do programa, ele prevê que a participação seja de até quatro anos [...] o fim do concurso público não está neste texto”.

A professora da Faculdade de Computação (Facom) da UFMS e membro do Conselho Universitário, Liana Duenha esteve na reunião e salienta que é melhor esperar a versão final do projeto para posteriormente formar um posicionamento, e que optar por fazer assembleia no momento prejudicaria a Universidade. “Assim que tivermos uma proposta clara, já discutida no Congresso, partiríamos para discussões mais objetivas dentro das universidades”. A professora ressalta que as alterações feitas preenchem algumas lacunas deixadas na primeira versão do projeto. “Só dessa primeira versão para a segunda versão já houve tantas alterações que eu acho que a gente ficar discutindo sobre algo que ainda não está fechado é muito desgastante para a universidade”.

O professor do curso de Artes Visuais da UFMS e membro do Coun, Paulo Duarte Paes explica que o fundamento do Future-se continua com problemas após as alterações realizadas no texto-base. "A essência continua sendo um projeto mercantil, a pesquisa para eles [Governo] não é a pesquisa de base, eles só enxergam a pesquisa atrelada ao interesse de ter alguma empresa que pague”. Paes explica que os cursos nas áreas de Ciências Humanas serão mais afetados pelo projeto, por deixarem de se adequar às demandas dos cursos de Licenciatura. “Não considera a pesquisa na área de humanas, então nós das ciências humanas e das licenciaturas não acreditamos que esse projeto serve para nós”.

Segundo Paes, é possível identificar as falhas do projeto, e proporcionar debate nas universidades é importante. Paes relata que o uso de indicadores de qualidade que atendam ao financiamento externo das universidades é uma das falhas do Future-se. “É uma falha seríssima, esses indicadores ainda não foram feitos, vão ser baixados pelo MEC e sozinhos vão ser traçados”. O professor ressalta que adiar os debates sobre o projeto tornará a situação difícil para os alunos e para a educação. “Depois que a lei estiver feita vai ser muito mais difícil, nós temos que debater agora, eles já tem uma força que é o lobby, é grana no sistema financeiro”.

O estudante do curso de Ciências Econômicas da UFMS e representante discente do Coun, Matheus Henrique Santos explica que o projeto agradou universidades quando foi apresentado pela primeira vez, por possibilitar um financiamento externo. “Isso é muito agradável de ser ouvido pelas universidades, e de se pensar nessa possibilidade, por isso que houve entusiasmo de algumas pessoas logo que essa ideia foi apresentada”. Segundo Santos, a Reitoria é favorável ao projeto Future-se, e prefere se ausentar de um pronunciamento oficial que confirmaria esse posicionamento. “Ficou muito claro que isso é agradável para reitoria, eles estão realmente considerando, só que eles ficam sempre em cima do muro, tentando convencer a comunidade de que isso seria positivo”.

O acadêmico enfatiza que o reitor deixou de declarar decisões concretas, e que demonstrou que o projeto seria necessário para a UFMS devido ao fundo orçamentário nas reuniões com o Coun. “Nas entrelinhas ele dava a entender que concordava, e de que o orçamento está muito apertado, que estamos num gargalo, e que seria importante pensar em outras formas de financiamento”. Segundo Santos, a comunidade externa se opõe ao Future-se por fatores como a segregação das áreas do conhecimento, pela proposta do projeto ser empreendedor, inovador e tecnológico, e se ausenta sobre a promoção de um pensamento crítico nas universidades. “Claramente as áreas das ciências humanas vão ser colocadas no segundo ou terceiro plano pela falta de financiamento, e por isso ocorre a oposição de boa parte da comunidade acadêmica”. 

O reitor da UFMS, Marcelo Turine explica que é necessário aguardar o Congresso Nacional fazer as alterações necessárias no texto-base do projeto para verificar se a Universidade aderirá ao Future-se. “Qualquer projeto apresentado são propostas e os conselheiros têm seus posicionamentos, isso gera reflexão e é importante para a gestão da universidade, isso forma um ambiente democrático”. Turine ressalta que os estudantes contribuem para o mercado de trabalho e isso mostra como o investimento da sociedade nas universidades é positivo, e que a Insituição tem esse compromisso social a cumprir. “Não é um programa X, Y ou Z que tem que tirar esse alinhamento institucional, os mestrados e doutorados estão crescendo, mostrando uma universidade inclusiva”.

Segundo Turine, a UFMS finaliza as atividades de 2019 sem dívidas, o que demonstra responsabilidade com o desenvolvimento da educação. “Estamos tendo uma responsabilidade fiscal, uma responsabilidade com ensino e pesquisa, todas as atividades se mantiveram o ano inteiro”. Turine encontrou-se com outros reitores desde que o Future-se foi apresentado e afirma que cada universidade formou o posicionamento que acredita ser melhor atualmente, e que alguns reitores reavaliam o projeto inicial, que passa por alterações. “Às vezes é difícil ser contra ou favor agora, ninguém se precipitou, cada um conduziu a sua instituição da melhor maneira possível”. O reitor manteve o posicionamento da Universidade em esperar o texto final do projeto para se posicionar. “A UFMS, no caso eu como líder junto com o time, definimos cautela, responsabilidade e diálogo internamente e externamente como sendo os princípios institucionais para defender a autonomia universitária”.

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