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1 de August de 2016 - 12h32

Escolas públicas em Campo Grande estão capacitadas para receberem alunos autistas

Rede pública de ensino da capital disponibiliza aos alunos acompanhamento pedagógico, psicológico e infraestrutura adequada

GABRIELA DE CASTRO, JULIANA CRISTINA E MAYARA BAKARGI
Redes públicas estão mais receptivas a inclusão de alunos eis especiaisRedes públicas estão mais receptivas a inclusão de alunos eis especiais  (Foto: Mayara Bakargi)

O ensino público de Campo Grande atende atualmente 225 crianças autistas, as escolas da rede municipal e estadual cumprem as exigências estabelecidas por lei para receber esse grupo de alunos. Além da supervisão nas salas de aula, há apoio de psicólogos, pedagogos e psiquiatras, que realizam o trabalho de inclusão. Familiares de autistas recebem assistência e orientação para acompanhamento das crianças.

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é caracterizado por três alterações básicas, a interação social, comunicação e imaginação. O diagnóstico é individual e incomparáveis entre as pessoas. A psicóloga Evelin Reinisch afirma que não tem como generalizar os diagnósticos. "Algumas crianças não falam, outras crianças são consideradas muito inteligentes, algumas não respondem à voz dos pais e se passam por surdas, e existem crianças que ao ouvir um barulho alto, colocam as mãos nos ouvidos”.

Segundo o psicólogo Fernando Ulisses Rosalino, entre mil crianças, uma ou duas são autistas e a incidência mais frequente é do sexo masculino. Fernando Rosalino diz que no Brasil, o número de autistas é maior que 190 mil. Cerca de 30% dos autistas são epiléticos durante a infância e adolescência. Mais de 70% dos autistas têm deficiência intelectual.

Rosalino destacou que o autismo não é degenerativo e por isso é difícil um diagnóstico conclusivo e a aceitação dos pais. Como qualquer outro transtorno, quanto mais cedo o diagnóstico, melhor. De acordo com a Análise Aplicada do Comportamento , conhecido pela sigla ABA em inglês, Applied Behavior Analysis, a criança precisa de estímulos para progredir. Rosalino ressalvou que para melhor convivência com crianças autistas, é necessário criar uma rotina, estabelecer regras de comportamento, ter paciência, lembrar que mudanças radicais os desagradam e simplificar as falas, por exemplo, com frases curtas em tom suave.

A psicóloga Evelin Reinisch explica que a partir de exercícios que envolvem brincadeiras como "pular amarelinha", é possível montar um gráfico e identificar o grau do transtorno em leve, moderado e grave, para iniciar o tratamento.

A criança autista passa por muitas fases e o diagnóstico do transtorno não é concluído de imediato. De acordo com a psicóloga, o início do tratamento é relatado como Hipótese Diagnóstica de Transtorno do Espectro Autista. Ela ressalta que há alguns anos, os diagnósticos eram fechados em crianças de até três anos de idade. "Hoje, é absurdo pensar em concluir esse estudo numa idade tão pequena. O quanto antes a gente começar o tratamento, melhor. Mas fechar o diagnóstico, depende de cada criança. Não tem idade certa, nem mínima, nem máxima”.

A lei nº 12.764, conhecida como Berenice Piana, que institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, foi sancionada pela presidente Dilma Rousseff em dezembro de 2012, e determina que crianças autistas, mesmo com dificuldades, podem frequentar escolas regulares e estas devem aceitar a criança autista e, se for o caso, oferecer um acompanhante especializado e materiais adaptados. 

A responsabilidade do encaminhamento e inclusão das crianças com TEA é da Secretaria Municipal de Educação (Semed), que atende às escolas municipais da Capital, e da Secretaria do Estado de Educação (Sed/MS), que administra as escolas estaduais.  

A técnica de Apoio ao Aluno com Autismo da Semed, Sônia Sanches Ribeiro, afirma que existem seis polos do Núcleo Municipal de Apoio Psicopedagógico (Numaps) que atendem alunos deficientes, com técnicos habilitados em educação especial como pedagogos e psicólogos, que visitam semanalmente as escolas e fazem as primeiras observações.

De acordo com a técnica, a  Secretaria Municipal de Educação é acionada caso ocorra impasse na instituição de ensino. Em geral as crianças autistas chegam às escolas com o parecer médico. Hoje, são mais de 90 escolas municipais que atendem 225 alunos autistas. A observação dentro das escolas ocorre nas salas de aula, em momentos da recreação, aulas de educação física, onde é mais perceptível o comportamento da criança, além de reuniões com coordenadores, professores e pais.

Sônia Ribeiro trabalha há 11 anos com educação especial e afirma que as escolas estão mais preparadas para receber os alunos, com trabalhos pedagógicos e com processo de inclusão no espaço escolar. Muitos familiares só procuram especialistas quando são informados de que existem benefícios de prestação continuada (BPC) e professores auxiliares para seus filhos.

 Sônia Oliveira explica sobre educação especial (Foto: Gabriela de Castro)

De acordo com a professora de apoio e mediadora pedagógica, Yara Oliveira, os autistas têm, por lei, o direito ao acompanhamento em ambiente escolar e, caso seja negado, a escola pode ser processada. “A Secretaria de Educação do Estado vai analisar o porquê essa criança tem que estar na particular e não nas redes municipal ou estadual, e cada caso é analisado individualmente.” As escolas particulares podem fazer convênio com o Estado para ter esse apoio, quando necessário.

Yara Oliveira diz que um de seus alunos foi criado junto aos cachorros em um quarto até os seis anos de idade. A partir de uma denuncia feita por uma vizinha, a criança começou a frequentar a escola.  Devido a convivência com os animais, seus hábitos eram diferenciados. “Ele usava fraldas e chegava num pilar e erguia a perninha, daí já entendíamos que ele estava fazendo xixi. Tudo ele mordia e comia sem usar as mãos, com a boca direto no prato, igual a um cachorro mesmo.” Yara Oliveira e outras professoras, orientaram a mãe a levá-lo para um acompanhamento especial na Associação de Pais e Amigos do Autista (AMA) para criar uma nova rotina. 

Algumas escolas privadas também estão preparadas para receberem alunos autistas. A orientadora educacional do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, Heloisa Canto Azevedo, desconhece casos comprovados de crianças autistas na escola, apenas uma suspeita, quando entraram em contato com os pais para avaliação. “A escola de forma geral precisa sempre estar atenta pra essas coisas que podem acontecer que podem chegar à sala de aula.”.

Heloisa Azevedo afirma que quando houver um caso comprovado, o primeiro passo é a escola, direção e professores, estar preparada e conhecer os direitos da criança. Cada necessidade especial tem uma forma de ser trabalhada. Para o autismo, é necessário um laudo médico e cada caso é estudado isoladamente. Quando comprovado, é responsabilidade da escola a contratação de um professor auxiliar para o aluno, sem custo adicional na mensalidade.

A fisioterapeuta Danielle Cathcart, após o diagnóstico de seu filho Murilo, de quatro anos, decidiu fazer pedagogia. Hoje, faz pós-graduação em educação especial e inclusiva, com todos os cursos direcionados para o autismo. "A maioria das escolas particulares cobra adicional na mensalidade para a contratação de um tutor para auxiliar o professor regente. No caso do Murilo eles não cobraram adicional, mas não tinha o professor de apoio, era apenas a professora regente, então eu via que não estava compensando, por mais que tivessem boa vontade, faltava qualificação profissional. Hoje na municipal ele tem uma professora especializada que fica só com ele.”

O filho de Alessandra Satie, Ricardo, de seis anos, se desenvolveu bem até os dois anos, teve a fase do engatinhar, do falar e do andar na idade prevista. “Quando você espera aquele 'boom' da fala, não acontece. Aí você começa a se preocupar”. Alessandra Satie explica essa regressão, onde a criança fala, mas a linguagem se perde e o contato visual também muda. Na escola, ela não teve problemas com Ricardo.

A mãe de João Victor, de sete anos, Naína Dibo, teve problemas com a escola onde o filho estudava desde os dois anos. Segunda ela, depois de exames e a pedido da médica, seria necessária uma acompanhante em sala de aula para João. A solicitação foi negada pela diretora, que alegou que João não precisava e não poderia avançar para a nova turma, nem permanecer no colégio. Muitas mães não falam por medo do preconceito com o filho, eu não. Eu aceito meu filho do jeito que ele é. Passei dois anos em luto, mas agora eu aceito”. Ela decidiu entrar com uma ação na Justiça Estadual, em defesa de seu filho e por todas as crianças que passaram pelo mesmo caso. “O João não sabe se defender, enquanto eu tiver aqui eu sou a voz dele, estou protegendo meu filho, se ele não pode pedir socorro, eu vou fazer algo por ele”.

As mães com filhos autistas criaram um grupo no WhatsApp com o nome Associação Amiga do Autista (Grupo Amar) e tem como objetivo demonstrar que a união e compartilhamento de experiências, sejam elas ruins ou não, têm importância no processo de tratamento de seus filhos.

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