DESIGUALDADE

Mulheres recebem em média 28% a menos do que homens em Mato Grosso do Sul

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas revelam que mulheres recebem cerca de 72% do salário de homens no Estado

Ana Beatriz Rigueti, João Lucas e Marco Antônio Cruz, de Campo Grande10/11/2019 - 19h57
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As mulheres recebem em média 72% do salário de homens, em Mato Grosso do Sul, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) divulgados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad-Contínua). A pesquisa indica que trabalhadores homens receberam em média R$ 2.525 por mês e as mulheres receberam em média R$ 1.820 no segundo trimestre de 2019, diferença de R$ 705. Em Campo Grande homens tiveram rendimento mensal de R$ 2.992 e mulheres tiveram rendimento de R$ 2.208 em média.

A geógrafa e docente nos cursos de Ciências SociaisCiências Economicas da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Mara Aline Ribeiro explica que a diferenciação salarial é reflexo de uma condição histórica de desvalorização do trabalho feminino. “A partir dessa constituição social, que aumentou, sobretudo, desde as últimas décadas do século passado, quando as mulheres adentraram ao mercado de trabalho com o intuito de complementar a renda familiar, mas tomou um rumo no qual apenas uma parcela da população feminina é provedora da família”. 

Segundo Mara Aline Ribeiro, Mato Grosso do Sul reflete a desigualdade mundial e possui grande número de serviços relativos a pecuária e agricultura que, apesar do setor ter maior presença feminina a partir de 2010, é associado ao trabalho masculino. “No campo, para plantar, colher, dirigir ou pilotar colheitadeira, a ideia é a de que apenas os homens se encarreguem desses serviços mais pesados. As mulheres sempre fizeram parte disso, mas vistas como uma atividade secundária, ou está lá pra acompanhar o marido, ou tá lá pra acompanhar o filho”.

Mara Aline Ribeiro afirma que, por meio de pesquisas realizadas na região do Pantanal, percebeu que mulheres são terceirizadas ou realizam a mesma função dos homens e são contratadas como auxiliares para receberem salário menor em cidades do interior. "Lá elas recebem menos, as pessoas que trabalham nos hotéis, nas pousadas, nos barcos de turismo, no vilarejo ali do Passo da Lontra, todas essas mulheres elas mesmo desenvolvendo o mesmo trabalho do homem, elas têm o valor salarial reduzido".

Fonte: IBGE/Pnad-Contínua 2018

A psicóloga e diretora executiva da Revista EmPodere, Cristiane Duarte afirma que a dificuldade de acesso à educação formal pela mulher é o principal fator para o resultado da desigualdade salarial. “Mesmo com os avanços sociais, a mulher ainda é vista como aquela que precisa do homem para existir, retratada muitas vezes pela mídia por uma maneira estereotipada, ligadas a futilidades, serviços domésticos ou maternos.”

Segundo Cristiane Duarte, é preciso fazer uma avaliação que considere situações específicas da população e que só é possível atingir a igualdade salarial com a garantia de outros direitos básicos. “Numa sociedade desigual as mulheres seguem sem os direitos básicos , e quando olhamos para dados sobre salários, vemos que mulheres brancas ganham até 30% a menos que os homens. Em um recorte racial, as mulheres negras não se encaixam nesse percentual, com uma desigualdade de 70% a menos que os homens”.

A gerente de supermercado Roberta Correa afirma que muitas vezes o preconceito começa quando há uma preferência para que mulheres escolham carreiras profissionais que tradicionalmente pagam salários menores e homens são incentivados a optarem por profissões com maior renda. "Eu sou um pouco nova no setor que trabalho, no cargo que eu tenho agora, mas eu já trabalhei em outros ambientes, ambiente coporativo e sei que as mulheres enfrentam dificuldades sim. Na verdade, desde a escolha da profissão, a carreira, parece que a sociedade tem uma expectativa muito restrita pra você. Eu no cargo que eu ocupo ainda tive muitas dúvidas em mim, muita gente achava que eu não era capaz ou devia fazer outra coisa".

De acordo com Roberta Correa, a posição de liderança que ela obteve ano passado despertou um olhar diferente sobre as relações de trabalho e sobre leis empregatícias. "Essa situação a gente espera que mude, mas algumas colegas minhas por exemplo não reconhecem a importância de se posicionar, de às vezes até questionar colegas e um possível chefe. Eu não posso reclamar também porque no geral a gente se encontra em uma posição vulnerável. Mulheres que engravidam por exemplo, nem isso você escapa de ser vigiado ou controlado".

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