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14 de agosto de 2016 - 11h13

Jovens representam 23% dos empreendedores de Campo Grande

Mais de nove mil microempreendedores individuais da capital têm entre 18 e 30 anos

JOÃO FUSQUINE, LARISSA MORETI E LARISSA VIZONI
Maia comercializa bonés personalizados com sua marcaMaia comercializa bonés personalizados com sua marca  (Foto: João Fusquine)

Dados do Portal do Empreendedor apontam que dos 38.635 microempreendedores individuais (MEI) formalizados em Campo Grande, 9.083 são jovens entre 18 e 30 anos de idade. A capital concentra 41% dos empreendedores de Mato Grosso do Sul nessa faixa etária. O estado teve um crescimento de mais de 10 mil MEIs no último ano.

O presidente da Associação dos Jovens Empreendedores de Mato Grosso do Sul (AJE-MS), Diego Antonio da Silva, afirma que existe um aumento no número de pessoas mais jovens como empreendedores e que o cenário está cada vez mais forte em Mato Grosso do Sul. "Nós percebemos uma maior participação do jovem no empreendedorismo por meio das palestras e workshops que realizamos. Cada vez mais o público e a permanência dessas pessoas têm aumentado nesses eventos. Há uma demanda a ser atendida e o jovem está se engajando mais". A AJE-MS é uma entidade sem fins lucrativos que propõe a fomentação da cultura do empreendedorismo e representa os jovens empreendedores do estado.

A última pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM), divulgada no começo deste ano, revelou que 52% dos empreendimentos em estágio inicial do Brasil são de indivíduos entre os 18 e os 34 anos. O número destaca o crescimento de jovens empreendedores que ocorre desde 2013, quando a quantidade de MEIs de até 24 anos aumentou em 71%. Segundo a pesquisa, o país possui 52 milhões de brasileiros empreendedores entre 18 e 64 anos, dos quais 21% correspondem à taxa de empreendedores iniciais (TEA).

A professora do curso de Jornalismo e coordenadora da Empresa Júnior BRAVA da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Katarini Miguel, atribui o aumento de jovens donos do próprio negócio à facilidade proporcionada pelas novas tecnologias. “Antes, as pessoas abriam o próprio negócio ou por falta de opção ou trabalhavam um tempo em sua área, adquiriam experiência e resolviam abrir um negócio. A tecnologia facilitou esse processo e agora é possível constituir um negócio a partir de um investimento mínimo, pela internet”. Para a professora, o jovem hoje possui características que as gerações passadas não tinham, como o autodidatismo e a multitarefa, impulsionadas pelos novos processos tecnológicos e que simplificam a criação e o envolvimento no próprio empreendimento.

O acadêmico de Arquitetura e Urbanismo e empresário Guilherme Maia, 21, idealizador do portal BF///MS, que reúne fotos e informações sobre caminhonetes, criou o blog em 2013, quando tinha 18 anos. “Como sempre gostei [de caminhonetes], eu tirava fotos e postava em um Fotolog. Eu via as páginas que postavam fotos do Google e eu achava que o legal era postar foto que a galera mandava. Nunca achei que o BF///MS iria virar um negócio”. 

Maia sempre teve vontade de ser autônomo. Segundo ele, as principais dificuldades no começo são a vontade de empreender e achar um produto com o qual trabalhar. O estudante teve a ideia e começou a fabricar adesivos e bonés bordados com o nome da marca criada para o portal. “Não tínhamos estrutura. Fazíamos os bonés e mandávamos fazer caixas em lugares ruins, eu embalava tudo no meu quarto, e chegou um momento em que eu estava o dia inteiro embalando caixa de boné em casa”. Para Maia, as dificuldades fazem parte do processo de aprendizagem e são uma etapa necessária.

Atualmente, o BF///MS é o maior portal de veículos off-road do país, com mais de 450 mil seguidores no Instagram e 183 mil curtidas no Facebook. A empresa tem sede em Campo Grande e uma loja virtual que comercializa diversos produtos personalizados com a marca. De acordo com Maia, cerca de 50 bonés são vendidos por dia.

A BF///MS possui loja física e virtual (Foto: João Fusquine)

Independência

A Confederação Nacional dos Jovens Empresários (Conaje) realizou, no ano passado, a segunda edição da pesquisa “Perfil do Jovem Empreendedor Brasileiro”, com mais de cinco mil empreendedores entre 18 e 39 anos, em 27 estados do país. Segundo o levantamento, mais de 40% dos entrevistados sempre tiveram vontade de empreender e cerca de 29% queriam adquirir independência financeira por meio do próprio negócio.

A empresária Vivian Jorge, 25, que atualmente possui a própria grife de bolsas, começou a empreender para não depender financeiramente do pai. “O que me motivou [a ter o próprio negócio] foi sair da sombra do meu pai, me incomodava muito depender dele. Eu queria trabalhar. Eu sempre achei que tinha que contribuir e de alguma forma ser produtiva”.

Segundo a empresária, levantar o capital para investir e trabalhar com o preconceito de ter um negócio inicialmente precário foram os maiores problemas enfrentados no princípio do empreendimento. “No primeiro mês, fui vender em um banco que meu pai era superintendente. Levava as bolsas em uma mala e me perguntavam o porquê de eu estar precisando vender, se tinha acontecido alguma coisa com a minha família. Minhas maiores dificuldades foram fazer dinheiro e as pessoas comentando. Hoje, quem tirava sarro é meu cliente. E eu não quero parar, quero crescer todo dia”.


Movimento Júnior

A experiência desenvolvida no ambiente acadêmico estimula o empreendedorismo entre os jovens e pode ser um diferencial no mercado de trabalho. O estudante do curso de Administração da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV-EAESP) e co-fundador da empresa de compostagem orgânica EcoBalde, Luca Mosena, 21, afirma que sempre quis abrir a própria empresa e que as ações empreendedoras recorrentes na graduação colaboraram no projeto. O jovem também acredita que não existe um momento certo para começar investir numa ideia. “Não vejo como cedo ou tarde, quando o momento é favorável você tem que correr o risco”.

A Confederação Brasileira de Empresas Juniores, Brasil Júnior, divulgou recentemente dados do “Censo & Identidade” que apontam o Brasil como líder no ranking mundial de empresas juniores (EJ’s) com 311 EJ’s, seguido pela França, com 173, e pela Tunísia, com 35. As EJ’s estão presentes em 287 universidades brasileiras públicas e privadas, com 93% delas concentradas em instituições federais e estaduais. São 11 mil jovens empresários nas categorias Engenharias, Ciências Sociais Aplicadas, Ciências Humanas, Ciências Exatas e da Terra, Ciências Biológicas, Ciências Agrárias e outras.

Segundo a Brasil Júnior, o conceito das empresas juniores é a união de acadêmicos de uma determinada graduação, organizados com o objetivo de desenvolver a vivência empresarial e realizar projetos e serviços vinculados às áreas do curso por um baixo custo. Katarini Miguel explica que o papel do discente nos projetos é de orientador. “O professor é alguém que ajuda quando os alunos têm problemas, que pode fornecer alguma diretriz para os trabalhos executados, mas não é alguém que vai comandar todas as ações da EJ. Os próprios alunos têm que fazer isso, isso é da natureza das empresas juniores”.

No caso da Empresa Júnior do curso de Jornalismo da UFMS, BRAVA, a ideia surgiu a partir da demanda de alguns acadêmicos, em 2014. O acadêmico do 3º semestre, Gustavo Zampieri, 19, considera a EJ como uma oportunidade de aprender os conceitos ensinados em sala de aula. “Na EJ eu posso desenvolver habilidades que talvez não conseguiria dentro da sala. É uma oportunidade que temos para vivenciar o mercado e as áreas do Jornalismo ainda na graduação como uma empresa normal, com regras, dificuldades e ideias opostas”.

Além das empresas juniores, a Universidade também possui o projeto de pesquisa UFMS Empreendedora. De acordo com o coordenador da ação e professor do curso de Química, Sérgio Carvalho de Araújo, o objetivo é construir um modelo de ensino de empreendedorismo para a faculdade. “A ideia é mudar o ensino tradicional, que é focado em formar pessoas para trabalhar no mercado de trabalho, geralmente em empresas já renomadas, e trazer esse modelo de empreendedorismo para fazer com que os alunos vislumbrem, durante a sua própria formação, a possibilidade de sair daqui já com o seu próprio negócio”.

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