ECONOMIA

IBGE aumenta participação de Campo Grande no cálculo da inflação

Capital teve maior participação no cálculo nacional de inflação por meio do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo

Ana Beatriz Rigueti, João Lucas e Marco Antônio Cruz, de Campo Grande10/11/2019 - 09h20
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O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou dados que indicam Campo Grande com  maior participação no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), principal índice de inflação do país, a partir de janeiro de 2020. O IPCA, com nova forma de Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF),  considerará o setor dos transportes como de maior importância do que o setor alimentício para o cálculo da inflação. Anteriormente, o conjunto dos transportes contabilizava cerca de 19% do cálculo do índice e agora soma 20,8%, o setor de comidas e bebidas representava 24% e atualmente corresponde a 19% da taxa.

Campo Grande tem maior peso no indicador que informa principalmente a taxa de inflação dos principais produtos e preços da economia a partir da nova estrutura. A capital sobe de 1,51% de participação no cálculo nacional para 1,58% e cidades de maior população como Belo Horizonte e Salvador tiveram queda de 6,12% para 5,98% e 10,86% para 9,74% respectivamente. São Paulo foi a cidade com maior paticipação, de 30,67% para 32,32% e Rio de Janeiro com menor participação, de 12,06% para 9,41%.

O economista Hudson Garcia explica que o IPCA é o conjunto dos preços chamados administrados, aqueles que têm interferência do Governo como os combustíveis, e dos preços não-administrados, regulados apenas pelo mercado como a alimentação e habitação. "IPCA é um indexador, é um calculo de preços, um dos indexadores da inflação. Por exemplo, se você pretende avaliar a variação de preços da construção civil, ele tem um indexador que é o Índice Nacional da Construção Civil (INCC). O IPCA é um indexador também, mas indica a inflação".

Garcia afirma que o cálculo do IPCA relativo a Campo Grande é importante para estudar as perspectivas econômicas da capital e também é usado por entidades governamentais para determinar metas, o teto de gastos e projeção de investimentos. "Nós sentimos uma falta muito grande de base de dados, principalmente para avaliar mercado, avaliar tendências de mercado. Em primeira mão eu acredito que a importância é para gerar informação. O fato de Campo Grande ter entrato e ter um peso maior, a gente consegue chegar mais próximo a realidade e traçar uma tendência melhor para os próximos anos do mercado".

Garcia afirma que o aumento da participação da capital no índice está relacionado com os ítens essenciais como alimentação, saúde e transporte, que inclui a tarifa de ônibus regional que é uma das cinco mais caras do país. "Se você comparar com os outros anos, 2017 por exemplo, o fato da gente ter um peso maior em relação a outras cidades demonstra que a gente começa a ter uma certa importância para os órgãos de avaliação e principalmente que a gente começa a mostrar o quanto Campo Grande tem uma participação maior no país principalmente para a questão de emprego, renda e composição da massa salarial".

O contador Lucas Beltrão afirma que o aumento da participação é reflexo da indústria local que sinaliza os índices de preços e que nos últimos dois anos se desenvolveu a partir das indústrias de bens essenciais. "A elevação de 1,5% para 1,6% é sim importante de ser destacada porque essa não é uma alteração pouca. Algumas pessoas de fora podem imaginar que esse aumento é insignificante, mas se você destrinchar os dados você percebe que é um indicativo importante na tomada de decisões econômica por exemplo. Principalmente levando em conta que outras cidades, capitais muito mais populosas que Campo Grande tiveram queda".

Preço da tarifa de transportes contabilizará 20,8% do IPCA a partir de 2020 em Campo Grande (Foto: Marco Antônio Cruz)

De acordo com Beltrão, os preços tendem a apresentar variações distintas com o passar dos anos e dos registros dos índices, por exemplo com o surgimento e a popularização de novas tecnologias ou novos setores de mercado específicos, como os aplicativos de transporte e serviços de streaming. "O setor dos transportes passa a ser a partir do ano que vem o principal fator medido pelo índice, algo que deve estar na faixa dos 20% de participação, acima dos componentes de setores alimentícios e habitação. Essa nova divisão provavelmente vai indicar nos próximos anos uma composição ainda maior da cidade no IPCA, lembrando que mesmo no modelo atual já é muito significativo".

O geógrafo e professor do curso de Geografia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Marcelino Gonçalves afirma que os indexadores de inflação e seus efeitos atingem todos os graus da economia, e qualquer elevação de porcentagem pode ser um indicativo decisivo na leitura da conjuntura econômica. "O que a inflação sinaliza? O aumento da demanda ou o aumento do custo da produção, se foi o aumento da demanda é porque os trabalhadores estão tendo rendimento maior e estão procurando mais produtos. Isso pode sinalizar uma dinâmica econômica em evolução, desse ponto de vista ela está sinalizando um aspecto positivo da economia, ao mesmo tempo que ela pode estar subindo porque os custos da produção estão aumentando então isso pode conter uma negatividade".

Gonçalves ressalta que o IPCA indica uma variação de faixas de renda que atuam no cenário econômico e de famílias que possuem renda entre 1 a 40 salários mínimos, e que o índice deve ser analisado com outros fatores para relacionar esses dados com uma analise sobre desigualdade social ou renda per capita. "A questão que teria que ser especificada é o que está alavancando essa inflação? Quais são os produtos que mais subiram? Se esses 4% está relacionado muito mais a produtos primários de consumo mais imediato, a comida por exemplo, isso vai afetar quem ganha menos porque gasta boa parte do rendimento com comida, agora quem ganha mais e vai ter acesso a outros produtos que não necessariamente só da cesta básica, vai sofrer menos com esses valores".

O comerciante Rogério Freitas afirma que ficou mais atento aos preços desde o início da crise econômica de 2013 e que os efeitos dos índices de inflação são percebidos em seu comércio e em casa. "Não é nem porque eu sou lojista mas como pai, como quem acaba tendo que fazer as contas em casa e equilibrar o dinheiro. A questão dos ítens essenciais mesmo é o que mais afeta. Além da comida, o transporte público minha família usa bastante, e mesmo para quem usa carro próprio, quem teve condições de gastar e comprar, o preço da gasolina afeta muito as contas no final do mês também".

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