VOLUNTARIADO

Grupo Jovens Muçulmanos une praticantes da religião islâmica e de outros credos

Os voluntários se reúnem a cada 15 dias e praticam a doutrina islâmica do altruísmo

Vitória Oliveira e Letícia Schiavon, de Campo Grande20/09/2019 - 15h37
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O grupo Jovens Muçulmanos realizou entrega de brinquedos e produtos de higiene na Associação Vida Ativa de Campo Grande  no dia 12 de outubro. A equipe surgiu de uma reunião entre 35 pessoas interessadas em praticar ações voluntárias. As reuniões são realizadas na Mesquita Luz da Fé. Segundo o relatório de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Campo Grande possui 273 habitantes declarados muçulmanos e fica na 17ª posição de cidades do Brasil com maior número de praticantes da religião. 

O fundador do projeto, Hussein Taha Neto explica que as notícias sobre terrorismo em países do Oriente Médio provocam distorções da compreensão do Islamismo e de seus praticantes. "As pessoas associam o islã ao terrorismo. Devemos julgar a atitude da pessoa, não a religião dela. O que move uma guerra? O poder e o dinheiro, só. Religião não ensina a guerrear". Neto afirma que organizou o grupo para unir os jovens muçulmanos e para modificar a imagem preconceituosa que campo-grandenses têm da cultura islâmica."Somos muçulmanos, descendentes de árabes, do oriente. Vivemos num país do ocidente, de predominância católica e estamos tentando ser a intermediação desse conflito cultural que muitos de nós acabam sofrendo. Então partimos para benfeitorias".

Neto explica que o grupo possui um Conselho de 15 pessoas que planejam as ações de filantropia. As reuniões ocorrem na Mesquita Luz da Fé, em Campo Grande.“Nós nos reunimos e escolhemos quais serão as próximas missões e se serão viáveis". Ele afirma que praticar a religião vai além de rezar e jejuar. "A religião abrange um simples sorriso, um abraço. Se voce tá andando na calçada e tira uma pedra do caminho e coloca num canto, é um ato religioso. De repente você não permitiu que um cego tropeçasse e caísse, você não sabe”.

As estudantes do curso de Enfermagem da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Kadija Akra e Nur Akra são irmãs e participam do projeto. Kadija Akra afirma que entrou para o grupo devido à vontade de trocar experiências com pessoas da religião dela. “O projeto une mais as pessoas. Hoje é cada um com sua vida, seu celular. Outra coisa que me motivou foi poder exercer um dos pilares do islã, que é praticar o bem. Não adianta eu usar o lenço e não praticar". Nur Akra diz que a paz é o princípio do Islamismo. "Várias manchetes mostram só o terrorismo. A falta de informação trouxe a necessidade de juntar todos os muçulmanos para poder mostrar o que o islã é amor, humildade e caridade”.

Nur Akra e Kadija Akra participam do grupo para interagir e praticar o princípio de altruísmo da religião. (Foto: Vitória Oliveira)

Ambas relatam que sofreram preconceito. Nur Akra afirma que uma idosa se assustou com a presença dela. “Ela perguntou, 'você vai explodir a gente?'. Na época fiquei abalada, mas com o tempo virou comédia. De toda forma, não foi legal”. Ela diz que gostaria que as pessoas tivessem o hábito de questioná-la sobre sua religião. “Eu prefiro explicar para as pessoas quem eu sou, do que receber olhares tortos ou opiniões precipitadas. Sei que nem todos vão gostar de mim. Mas o que quero é o respeito. Se eu respeito a religião dos outros, por que não podem me respeitar?".

Kadija Akra relata que foi chamada de mulher bomba várias vezes. “Os meus pais têm comércio e eu estava na loja, quando um carro parou no sinal com duas crianças no banco de trás. As crianças gritaram 'Allahu Akbar!', que é o que os terroristas falam pra matar. O que me deixou mais triste foi ver os pais rindo. Se elas falaram isso é porque é esse o tipo de exemplo que elas têm”. Kadija Akra diz que as pessoas falam "Allahu Akbar" sem saber o significado da expressão, que traduz “Deus é maior”.

O grupo aceita a participação de jovens de outras religiões. A auxiliar admnistrativa, Michelle Andrade participa do grupo e frequentou a Igreja Batista. "Atualmente, não frequento nenhuma religião. Mas acredito em Deus".  Ela diz que decidiu entrar para o grupo para conhecer mais sobre a religião. "Eu só via falarem de maldade e decidi ver com meus próprios olhos e não acreditar nos outros." Michelle Andrade afirma que todos são tratados de forma respeitosa e igualitária no grupo. "Fui recebida como um membro de família. Aprendo com eles uma forma linda de vida e alegria. Hoje, quero aprender mais sobre a religião, para quando me perguntarem, eu poder mostrar o lado maravilhoso que existe." 

Hussein Taha Neto diz que os jovens evitam mencionar o preconceito durante as reuniões e dispõem de uma psicóloga para ouvi-los caso necessitem. "Acredito que, ao conviver com pessoas que possuem outros problemas, talvez eles vejam que suas dificuldades são menores do que eles achavam. Cada um tem o seu problema e o peso dele, mas todos podem descobrir que são mais fortes do que acreditavam. Trabalhamos com isso nas reuniões, tentar agradecer mais a Deus e tentar de alguma forma se aproximar dele”. 

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