CAMPO GRANDE19º MIN 26º MAX
Primeira Notícia UFMS
  sexta, 24 de novembro de 2017
 
31 de janeiro de 2017 - 08h43

Interdição do aterro no Jardim Noroeste deixa cerca de 400 famílias sem trabalho

As pessoas que ficaram sem atividade após a interdição do local terão oportunidades de emprego e cursos de capacitação

LETICIA BUENO E RAFAELA FERNANDES
Pessoas descartam o entulho próximo às casas dos catadores desde a desativaçãoPessoas descartam o entulho próximo às casas dos catadores desde a desativação  (Foto: Rafaela Fernandes)

O aterro de entulhos localizado no Jardim Noroeste, fechado em dezembro do ano passado após decreto municipal, deixou cerca de 400 famílias, que vivem nos arredores do aterro e trabalhavam no local como catadores, sem serviço. A Prefeitura de Campo Grande (PMCG), sem previsão para abrir um novo aterro municipal, e com o objetivo de auxiliar as famílias, propôs o cadastramento das pessoas interessadas nos cursos de capacitação e nos empregos oferecidos pelo Programa de Inclusão Profissional (Proinc), cooperativa dos catadores e pela Solurb, onde 50 vagas imediatas foram disponibilizadas. 

Os programas de cadastramento fornecidos pela Secretaria de Assistência Social (SAS) são para o Proinc, Unidade de Tratamento de Resíduos (UTR), Solurb e Cadastro Único (CadÚnico). O primeiro programa, além de oferecer trabalho com remuneração mínima mensal e uma cesta básica, oferece curso de capacitação. A UTR possibilita a entrada na usina, que é administrada pela Solurb. A Solurb oferece 50 vagas de trabalho imediatas na empresa, e há possibilidade do cadastro no CadÚnico, para quem se encaixa no perfil do programa federal "Bolsa Família".

     Descarte impróprio de entulho próximo ao aterro (Foto: Rafaela Fernandes)

O fechamento do aterro de entulhos no Jardim Noroeste resultou no descarte impróprio de materiais e resíduos em vias públicas da capital. A catadora Lucinei Custódio afirma que os rumores do fechamento do aterro ficavam entre os funcionários. “Trabalhei no aterro durante um ano e sempre falavam que iam fechar e nunca fechavam. Eu não acreditei não, meu sustento era todo do aterro”. De acordo com ela, mesmo com a desativação, muitas pessoas ainda jogam entulhos nos arredores do local. “O aterro não está funcionando e eles jogam tudo nas beiras, nos barracos, nas ruas. Cansei de ver carro, caminhão, vir aqui e jogar [o entulho] nas beiras ali”.

Lucinei Custódio afirma que sustentava os quatro filhos com o lucro da venda dos materiais recicláveis que encontrava em meio aos entulhos, cerca de 100 reais por semana. “Não dava conta das minhas necessidades, mas dava para nos sustentar, a gente se virava como podia”. Desde a desativação, ela e muitas pessoas que trabalhavam no aterro agora exercem a mesma função nas ruas dos bairros de Campo Grande. “Agora eu tô trabalhando na rua catando recicláveis, mas é complicado por causa das crianças. Tem que levar eles juntos, porque não tem com quem eu deixar, e eles cansam de ficar andando”. 

    Lucinei é responsável por sustentar quatro filhos (Foto: Rafaela Fernandes)

A catadora afirma que a ausência de vagas disponíveis nas creches municipais a impede de encontrar um novo emprego, porque não pode deixar a filha mais nova sem cuidados. “Não tenho condição de ficar sem trabalhar. Pelo menos se eles conseguissem dar uma vaga pra mim na creche, mas até agora nada, estamos há um ano esperando. Os outros, começando as aulas, vão pra escola e se tivesse vaga na creche, eu ia arrumar um serviço registrado. Antes de ser catadora, eu trabalhava em um restaurante, mas deixava meus filhos com uma conhecida e ela batia nas crianças. Aí eu pensei ‘vou ficar trabalhando e deixar minha filha apanhar?’. Na creche a obrigação deles é cuidar, é certeza que não vão bater”. 

Lucinei Custódio explica que as famílias que viviam da renda obtida no aterro precisam de apoio da gestão municipal atual para conseguirem emprego. “A gente quer trabalhar, sustentar os filhos dignamente. Pode ser que o aterro não seja problema da Prefeitura, mas que ponham mais serviço na cidade para o povo, que surja mais trabalho”. A catadora ressalta que muitos trabalhadores do aterro não sabem da medida de cadastramento proposta pela SAS e afirma que ao visitar o Centro de Referência de Assistência Social (Cras) do bairro Tiradentes, não recebeu informações sobre os procedimentos para participar da ação. “Eu soube pela televisão, ninguém está sabendo de nada aqui. Eu soube por cima, procurei o Cras e me disseram que ninguém tem informação sobre isso”.

Os catadores interessados no cadastramento devem ir até sede da SAS. Em nota publicada pela Prefeitura, a Secretaria iniciou levantamento da quantidade de pessoas que trabalhavam na região como catadores, para participação dos programas sociais.

O prefeito de Campo Grande, Marcos Trad (PSD) declarou que o descarte de resíduos sólidos não é dever da Prefeitura de Campo Grande, mas dos cidadãos, conforme previsto na Política Nacional de Resíduos Sólidos, lei nº  12.305 de 02/08/2012, e no Plano Municipal de Gestão dos Resíduos Sólidos. O secretário municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep), Rudi Fiorese explica que quem gera resíduos deve procurar uma empresa que faça o transporte e descarte correto.

O secretário afirma que a Prefeitura, representada pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Gestão Urbana (Semadur), tem o objetivo de trazer alternativas para que a população realize o descarte correto de materiais. “Uma das alternativas é a implantação dos ecopontos, previstos no contrato de limpeza pública. Locais onde poderão ser descartados, gratuitamente, resíduos recicláveis, resíduos de construção que não ultrapassem o volume de um metro cúbico (650 quilos de resíduo seco ou 850 quilos de resíduo úmido), alguns materiais inservíveis (geladeiras, sofás, móveis) e restos de galhos, resultado da poda de árvores”. Se os dejetos de construção ultrapassarem o volume estipulado, eles deverão ser recolhidos por aterros privados.

COMENTÁRIOS
 © Copyright 2017 Primeira Notícia