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ANTIGA RODOVIÁRIA

Comerciantes reclamam de abandono e cobram revitalização da antiga rodoviária

Comissão formada por representantes lojistas e moradores do bairro Amambaí foi criada em audiência pública na Câmara Municipal

Adrian Albuquerque, Gabriela Coniutti e Lucas Castro, de Campo Grande 8/03/2018 - 08h40
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Os comerciantes da região do Terminal Rodoviário Heitor Eduardo Laburu, antiga rodoviária, reclamam de abandono e queda de faturamento das vendas. A situação foi debatida na audiência pública “Recuperação da Região do Antigo Terminal Rodoviário”, realizada na Câmara Municipal de Campo Grande, na segunda-feira (26). Representantes do comércio e moradores do bairro Amambaí criaram uma comissão para apresentar as principais reivindicações ao prefeito Marcos Marcello Trad.

As reivindicações de lojistas e moradores do entorno da antiga rodoviária ocorrem há oito anos, desde a inauguração do Terminal Rodoviário Senador Antonio Mendes Canale, localizado na Avenida Gury Marques, na saída para São Paulo.

O bairro Amambaí, o mais antigo e um dos mais populosos de Campo Grande, que abriga o antigo terminal rodoviário, concentra 8.190 habitantes, de acordo com dados do Censo demográfico do Brasil de 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Para a proponente da audiência, vereadora Enfermeira Cida Amaral (Podemos-MS), a atual estrutura física do local e o fato de a antiga rodoviária estar num dos pontos centrais e ser cartão postal da cidade são as principais questões que devem ser entregues ao prefeito. “As condições atuais da antiga rodoviária precisam ser revistas com urgência. Hoje, o local está, literalmente, abandonado e não posso deixar nesse estado um cartão postal, que está no centro da capital, perto da Afonso Pena, da 14 de Julho. No entorno, ainda existem muitas residências e comércios fechados, isso tudo traz prejuízo para o município, pois com aquele grande prédio desativado, a cidade deixa de gerar emprego e renda. Vou bater na mesma tecla, pois quero que área seja revitalizada. Além disso, os moradores dizem ter muitas recordações do local movimentado e que agora está numa situação muito triste”.

A vereadora ainda afirmou que o ponto mais importante do conjunto de propostas, que será encaminhado ao prefeito, é uma ação social para os dependentes químicos que ocupam a área. “Fui pessoalmente até o local e, para mim, é um problema social e de saúde pública. Nós da comissão pedimos que a Secretaria Municipal de Assistência Social (SAS) realize uma campanha de acolhimento àquelas pessoas na região e que firme parcerias com demais órgãos para levar o atendimento necessário. Triste saber que o local é intitulado por muitos como ‘cracolândia’ da cidade e devemos criar medidas públicas para resgatar essas pessoas em situação de rua, não podemos admitir deixá-las”.

   Segundo Rosane Nely, 80% dos condôminos estão inadimplentes
   (Foto: Adrian Albuquerque)

De acordo com a síndica do Centro Comercial Condomínio Terminal do Oeste, Rosane Nely o primeiro impacto após a mudança do terminal rodoviário foi o econômico. “Quando a rodoviária saiu daqui fecharam mais de 25 lojas aqui na frente, que eram todas prestadoras de serviços específicos para a rodoviária. No momento em que a rodoviária fechou, todo o comércio fechou junto. Não tenho nem uma estimativa para te dar de quanto foi a perda, mas foi imensa. Aflige todas as áreas”.

A síndica destacou também que, atualmente, o prédio está com mais de 80% de inadimplência, pois poucos condôminos conseguem pagar a taxa de condomínio. “Quem está aqui e trabalha, paga, porque precisa dos serviços do condomínio, mas nas salas fechadas a maioria não paga. Uns não pagam, porque acham que não devem pagar enquanto a situação não for resolvida, outros não pagam, porque realmente não têm condições de pagar IPTU e de pagar a taxa de condomínio para usufruir de uma sala naquele estado”.

Rosane Nely afirma que o prédio do atual Centro Comercial Condomínio Terminal do Oeste, com área de com espaço de cinco mil metros quadrados, corresponde a 9% da prefeitura e o restante, 91%, pertence à iniciativa privada.  

A diretora comercial da Associação dos Lojistas e Prestadores de Serviços do Centro Comercial Condomínio Terminal do Oeste (ACCCTO) e proprietária de salas comerciais no prédio, Heloisa Cury tem histórica relação com o local, onde também criou seus filhos. “Cheguei aqui com 20 anos. Durante minha gravidez, vendia pipoca, sorvete com meu marido numa cidade desconhecida para nós. Então, tudo foi feito aqui dentro. Todos os meus filhos foram criados aqui. Então, após a morte do meu marido, eu quis retomar esse patrimônio, porque não é justo. Meus amigos acham que estou completamente fora da minha estabilidade mental para enfrentar tudo isso, mas não desisto, porque tenho patrimônio e uma história de vida aqui. Ainda sonho em ver esse prédio gerar lazer, cultura, emprego. Na minha idade, não vou ficar rica mais com isso, é um prazer pessoal, um desejo”.

Heloisa Cury, que aluga salas comerciais há mais de 15 anos no local, relata que, antigamente, o aluguel equivalia ao preço de uma prestação de um carro do ano. “Nos dias atuais, não consigo nem alugar pelo preço do condomínio. Na época, até recebia cheque em branco de pessoas que queriam ‘segurar’ o ponto. Hoje, nem de graça, tem sala aqui que ofereço de graça. Quero ver as pessoas circularem, mas nem de graça eles vêm”. 

Segundo a diretora Comercial da ACCCTO, o Centro Comercial Condomínio Terminal do Oeste possui 236 lojas, que pertencem a 125 pessoas. Atualmente, apenas 58 estão ativas, além de lanchonetes que funcionam no período noturno. 

De acordo com a integrante da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis de Mato Grosso do Sul (ABIH-MS) e proprietária do Hotel Iguaçu, localizado em frente ao prédio do Centro Comercial há 43 anos, Nélia Tortorelli nenhum projeto e apoio da prefeitura foi apresentado aos comerciantes com a mudança do terminal rodoviário. Ela também afirma que, nos últimos oitos anos, quatro audiências públicas foram realizadas na Câmara. “A prefeitura sequer nos comunicou, deixou os comerciantes jogados aqui. Para arrumar a Avenida Afonso Pena, mandaram para cá os trailers de lanches antiga 'Pedra' e não foram capazes de fazer nem um banheiro, não montaram nenhuma estrutura para eles. Com isso, os funcionários dessas lanchonetes urinam na parede do terminal e do Centro Comercial, o que agrava a situação”.

Bairro Amambaí concentra 70% da rede hoteleira de Campo Grande (Foto: Adrian Albuquerque)

Nélia Tortorelli ressalva que uma das formas de se ocupar o prédio da antiga rodoviária e reduzir os gastos da prefeitura é transferir algumas das secretarias municipais. “Esse prédio tem mais de 200 vagas no estacionamento subterrâneo. Então, é um espaço que, se reformado, caberia, praticamente, todas as secretarias municipais que, hoje, pagam aluguel. Como uma parte do prédio é de propriedade da prefeitura, seria uma forma de aliviar as finanças. A Câmara está em reforma e muitos milhões foram gastos. Por que não trazer para cá, onde não se paga aluguel? Além disso, poderia fazer ajustes no entorno como, por exemplo, na iluminação do bairro”.

Segundo o presidente do Conselho Regional de Corretores de Imóveis da 14ª Região (Creci-MS), Delso Souza o debate deve ser amplo e contemplar diversos segmentos. “Deve ser uma discussão entre vários setores. Tem que haver a contribuição dos serviços da assistência social, da segurança, do comércio e também da iniciativa privada. Todo mundo deve tentar fazer um trabalho conjunto, pois não é só um único problema que existe naquela região, tem o problema financeiro, social. Acredito que só assim a situação poderá ser resolvida”. 





   Souza destaca importância do aspecto visual da antiga rodoviária
   (Foto: Lucas Castro)

Souza diz ainda que, com a desvalorização da região, alguns trechos da antiga rodoviária localizados na Rua Barão do Rio Branco e Dom Aquino poderão ter uma taxa de Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) menor do que a de outras áreas como, por exemplo, a da Avenida Afonsa Pena, localizada a algumas quadras do local. “Tenho certeza que, com a revitalização da região, vai ser algo bom até para a prefeitura, porque os imóveis voltam a ter o valor que realmente merecem ter e o valor do IPTU pode aumentar. Acho também que o município poderia colocar uma secretaria, algum órgão para funcionar naquele espaço para ajudar a melhorar o aspecto físico e visual”. 

Para o presidente do Creci-MS, o que menos preocupa os atuais e futuros moradores é o valor do IPTU. A maior preocupação é desprezo da região há anos. “Pelo preço e boa localização, é bom para quem quer investir, tenho até um prédio ali no bairro Amambaí, comprei na esperança de que mude as coisas. Por outro lado, ninguém quer reformar um imóvel naquela área para ser depredado durante a madrugada. É complicado, pois com a região totalmente desvalorizada, normalmente, algumas pessoas invadem o imóvel, depredam, usam para dormir e isso incomoda quem está estabelecido no entorno e pode inviabilizar possíveis investimentos”. 
 
Questão social

De acordo com a assessora de comunicação da Secretaria Municipal de Assistência Social (SAS), Elen Malfará as estratégias de abordagem social e acolhimento dos dependentes químicos e pessoas em situação de rua são feitas por órgãos vinculados à Secretaria, entre eles Centro de Referência Especializado à População em Situação de Rua (Centro Pop). “Ofertamos serviços de alimentação, higiene pessoal e pernoite, assim como encaminhamento para tratamentos diversos, aos que desejam. Quando possível, têm suas famílias de origem localizadas, são encaminhados para solicitação de documentos e recebem atendimentos psicossociais. Isso é feito somente com as pessoas que aceitam”.

Elen Malfará afirma também que a maioria das pessoas em situação de rua são dependentes químicos. "Na abordagem, quando é detectado que a pessoa faz uso de substâncias psicoativas, orientamos e encaminhamos para a saúde e tratamento. Identificamos também crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, exploração sexual, uso abusivo de drogas, que utilizam os espaços públicos como meio de moradia ou de sobrevivência". 

Para a diretora comercial da ACCCTO, Heloisa Cury a SAS deixa de cumprir seu papel na região. "A SAS não faz o seu papel de ação social. Os assistentes sociais passam aqui e distribuem preservativos, tratam algumas pessoas que estão machucadas e trazem roupas quando chove e faz frio. As igrejas também vêm trazer comida, mas não os levam para comer lá. As embalagens de ‘marmitex’ ficam aqui espalhadas pela região inteira. O que não pode é a SAS chegar aqui e achar que o papel dela é só chamar para uma casa de recuperação e abrigo e, se o indivíduo não aceitar, fica por isso mesmo, que desempenhou o seu papel. Não é justo, acredito que seja só um desencargo de consciência".

História

O Centro Comercial Condomínio Terminal do Oeste, localizado no quadrilátero das ruas Dom Aquino, Barão do Rio Branco, Vasconcelos Fernandes e Joaquim Nabuco, no bairro Amambaí, foi criado em 16 de outubro de 1976 e é conhecido como ponto histórico da capital. 

Segundo a síndica do prédio, Rosane Nely o local acompanhou e colaborou com o crescimento de Campo Grande. “Aqui, além de um importante ponto turístico, cultural e de organizações empresariais, abrigou a Prefeitura, os melhores cinemas do estado e vários empreendimentos. O terminal chegou a receber 10 milhões de passageiros no seu auge e as pessoas passavam pelo Centro Comercial. O pessoal vinha do interior para fazer compras aqui na capital, principalmente os fazendeiros. Inclusive, hoje em dia, esses são ainda os poucos clientes que restam".

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