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27 de novembro de 2016 - 16h36

Campo Grande possui 4ª tarifa de transporte coletivo mais cara do país

Preço elevado da tarifa e condições do serviço causam insatisfação entre os usuários

JOÃO FUSQUINE, LARISSA MORETI E LARISSA VIZONI
Diariamente, 215 mil pessoas utilizam o transporte coletivo em Campo GrandeDiariamente, 215 mil pessoas utilizam o transporte coletivo em Campo Grande  (Foto: João Fusquine)

O valor da tarifa do transporte público de Campo Grande está entre as cinco maiores das capitais brasileiras. Neste mês, a Agência de Regulação dos Serviços Públicos Delegados de Campo Grande (AGEREG) realizou um levantamento que indicou um reajuste de cerca de 9% na tarifa, mais de 30 centavos de aumento. O preço é determinado a partir dos gastos que a concessionária tem para oferecer o serviço como, por exemplo, o combustível e a manutenção dos veículos e impostos. O valor para 2017 não foi estabelecido pela Prefeitura Municipal de Campo Grande (PMCG).

São Paulo e Rio de Janeiro lideram a lista com as passagens a R$ 3,80. Porto Alegre, Belo Horizonte e Goiânia com R$ 3,70 e em terceiro lugar a tarifa de R$ 3,60 de Cuiabá. O passe do transporte coletivo na capital de Mato Grosso do Sul custa R$ 3,25. Segundo o coordenador do Fórum de Trabalhadores e Usuários do Transporte Coletivo de Campo Grande, Haroldo Martins Borralho, o problema do transporte público na cidade vai além das condições físicas dos veículos. "A primeira coisa que tem que ser resolvida para começar a mudar a situação é a questão das faixas e corredores de ônibus. Segundo, é preciso de pontos adequados e confortáveis e iluminação nas vias, porque a insegurança também é um fator”.

De acordo com dados da Agência Municipal de Transporte e Trânsito (AGETRAN), a gratuidade tem impacto no valor final da tarifa. Idosos, estudantes, deficientes com ou sem acompanhante, acompanhantes de cadeirantes, líderes de bairro ou integrantes do clube de mães têm direito à isenção, que correspondem a 25% do total de passageiros. Os maiores grupos são formados por idosos, com 50.484 isenções, e pelos 49.276 estudantes, que possuem o benefício.

Para o professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Dr. Ângelo Arruda, o passe estudantil gratuito é um benefício utilizado erroneamente. “O poder público não subsidia para as pessoas poderem viajar, ele tira do preço total da tarifa e altera o preço para quem é trabalhador”.

Insatisfação coletiva

Segundo dados da AGETRAN, mais de 215 mil pessoas utilizam as 180 linhas de ônibus disponíveis em Campo Grande todos os dias. A média é de 412 passageiros por veículo e a principal queixa dos usuários é a superlotação.

 

O estudante Lucas Henrique, 21, afirma que o atraso e a precariedade são os problemas mais frequentes do transporte. Além disso, o estudante ressalta que falta acessibilidade tanto para os cadeirantes, que sofrem com o mau funcionamento dos elevadores, quanto para as pessoas obesas, que têm dificuldade de passar nas catracas ou se acomodar nos assentos. “A catraca e os assentos são pequenos, e essas pessoas muitas vezes passam por constrangimentos por causa disso”.

Para o eletricista Benedito Duarte Santos, 62, a frota reduzida prolonga o tempo de espera no ponto. “Fico de 20 minutos a meia hora esperando e aí os ônibus passam todos juntos. Eu comprei um carro por causa disso. Cansei de gastar R$ 50 por semana com ônibus, agora gasto isso com combustível e ando tranquilo”.

 

População ativa

 
O blog Ligados no Transporte, criado em 2013, tem o objetivo de denunciar falhas no transporte coletivo de Campo Grande e contrapor informações divulgadas na mídia por meio de uma página na internet e na rede social Facebook. A equipe é formada por uma analista de sistemas, um estudante de administração, um estudante de jornalismo, um professor de química e um bancário.
 
O acadêmico de administração Gabriel Santos, integrante do grupo, afirma que faltam providências da Prefeitura para que um serviço de qualidade seja oferecido. “Ônibus não falta. No terminal Morenão, por exemplo, ficam cerca de 22 veículos na reserva e nos entornos. No Guaicurus, mais de 15 veículos na mesma situação. E se você for pesquisar nos outros terminais e garagens, verá que a maioria dos veículos da cidade ficam mais nas garagens do que nas ruas”. Os dados do Blog são apurados em observações e pesquisas da própria equipe.
 
O estudante destaca a importância em divulgar esses desvios para a população. “Vimos que as empresas cometem muitas irregularidades, coisas escancaradas que acontecem na cara de todos os órgãos públicos e nenhuma providência é tomada. Temos o intuito de denunciar essas falhas para o maior número de pessoas possíveis”.
 
Planejamento urbano
 
De acordo com o Estatuto da Cidade, Lei Federal 10.257, o Plano Diretor é um documento que define as políticas básicas de desenvolvimento, expansão e organização urbana municipal e abrange o transporte coletivo. Segundo o estatuto, o plano deve ser revisado a cada 10 anos e o de Campo Grande é o mesmo há 20 anos.
 
Em junho deste ano, o projeto começou a ser revisado com a proposta de discutir publicamente diretrizes e ações de agentes e entidades públicas ou privadas para melhorar a qualidade de vida da população, de acordo com as necessidades e características da cidade. O documento tem previsão de ser entregue até o final do ano e o cronograma de eventos pode ser acessado na página oficial do plano.
 
O professor Dr. Ângelo Arruda afirma a importância da participação popular na elaboração do projeto. “A gente está num momento em que a revisão desse plano diretor é um tema crucial. Não adianta continuar repetindo as ações e os programas que estão aí. É preciso nós inventarmos uma
Arruda apoia a participação popular (Foto: Larissa Moreti)
?cidade diferente para que o sistema que está posto opere prazerosamente nela”.
 
Para Arruda, a população precisa ter conhecimento das audiências e ações que pode exercer para que o Plano Diretor contemple as questões consideradas importantes. “A gente tem um sistema de transporte sem ser confiável pela população.
E ele não é não confiável porque é ruim, sujo, caro. Se você não toma conhecimento disso, você não pode ir lá na frente reclamar”.
 
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