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  Sunday, 22 de April de 2018
 
11 de October de 2017 - 20h40

População surda é excluida da exibição de filmes na capital

Indisponbilidade da janela de Libras nos filmes distribuidos e exibidos pelos cinemas de Campo Grande determina a exclusão da população que se comunica por Libras

CLAIANE LAMPERTH, HELOÍSA CARVALHO E KARINA CANTIERE
Os cinemas tem até 2018 para usar recursos de acessibilidade nos filmesOs cinemas tem até 2018 para usar recursos de acessibilidade nos filmes  (Foto: Foto: Heloísa Carvalho)

População surda é excluida pelas três empresas de exibição e distribuição de filmes de Campo Grande por ausência de janela de Libras, lingua primária dos surdos brasileiros. A população surda da Capital é composta, aproximadamente, por 1.235, e no estado por 3.609. Os recursos previstos por lei - legendagem, legendagem descritiva e janela de libras-, tem como objetivo promover a comunicação da população surda e deficiente auditiva. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a capital tem cerca de 6.343 pessoas com deficiência auditiva alta e 26.054 com alguma dificuldade auditiva.

A acessibilidade nos cinemas para deficientes auditivos é prevista na Lei nº 13.146 de 2015, que estabelece que a partir de 2016 todas as salas de cinema tenham recursos de acessibilidade. A Lei nº 5.296 de 2004, no artigo 53 regulamenta que as mensagens que forem veiculadas para as pessoas com deficiência auditiva e visual devem utilizar-se dos recursos de janela de Libras, a descrição e narração de voz nas cenas e imagens e a substituição. A Instrução Normativa nº 128/2016 define que a  Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) como “forma de comunicação e expressão, em que o sistema linguístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constitui um sistema linguístico de transmissão de ideias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil”.  

Miranda explica que Libras é a língua dos surdos. 
(Foto: Heloisa Carvalho)

O professor surdo de Libras da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul do câmpus de Corumbá, João Paulo Miranda relata que até o momento só assistiu a curtas-metragens com janela de Libras e legenda. Miranda considera que “é extremamente importante, porque nós da comunidade surda somos visuais. Tendo a língua de sinais e vendo o filme nós ficamos muito curiosos, como não temos a audição o nosso atrativo é o visual, por isso a importância da janela. A legenda em língua portuguesa junto com a janela nos ajuda a ser bilíngues, a nossa primeira língua é a Libras e a segunda é a língua portuguesa.”

Em Campo Grande existem três empresas de cinema, Cinemark, Cinépolis e Unidade de Cinemas Internacionais (UCI). Os filmes exibidos são dublados e legendados. As legendas de tradução de diálogos são consideradas uma forma de acessibilidade para os deficientes auditivos. A gerente de bilheteria do Cinemark Campo Grande, Yara Ciqueira explica que o cinema possui 20 salas de exibição ao todo, na alta temporada em média 2.000 pessoas por dia assistem filmes e o único recurso disponível é a legenda. 

A assistente de direção de cinema, Ivania Molina é uma das participantes do Festival América do Sul, que acontece anualmente na cidade de Corumbá e Ladário explica que a falta da janela de intérpretes é porque os produtores “ainda não têm consciência de que eles também são "clientes" que consomem esses tipos de produtos temos muito a aprender sobre a inclusão em diferentes campos”.

O professor Miranda, traduzido e interpretado por Itamar Lopes dos Santos, relata a adequação dos filmes à janela de libras e como os intérpretes devem se adequar ao tradução dos filmes. 
  

A Agência Nacional do Cinema (Ancine) estipulou por meio da Instrução Normativa nº 128, aprovada em 2016, que todas as salas de cinema tenham recursos de acessibilidade visual e auditiva até o final de 2018. Os filmes terão legenda, legenda descritiva e a janela de interpretação da Língua Brasileira de Sinais (Libras).  O objetivo da Ancine é que até o final deste ano 50% das salas de exibição dos cinemas sejam acessíveis. A norma prevê multas no valor de R$ 500,00 a R$ 100.000,00 para as empresas de exibição e distribuição cinematográficas que não apresentarem os recursos de legendagem, audiodescrição e janela de libras.

A Instrução Normativa nº 128/2016  estabelece que “as salas de exibição comercial deverão dispor de tecnologia assistiva voltada à fruição dos recursos de legendagem, legendagem descritiva, audiodescrição e LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais”. Ainda de acordo com a Instrução Normativa, cabe  às empresas de distribuição disponibilizar para as empresas de exibição do produto cinematográfico, os recursos de acessibilidade em todas as cópias da obra cinematográfica.


Lopes comenta a necessidade da janela de  Libras
(Foto: Heloísa Carvalho)
 

 O tradutor e intérprete de Libras da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul,  Itamar Lopes dos Santos ressalta que na comunidade surda existem  pessoas incapazes de ouvir, surdas, e aquelas que são deficientes auditivas. Santos ressalta que "a melhor forma de entender essa diferença, hoje em dia, é a questão cultural. A pessoa surda se identifica com a língua, a usa e é militante da causa. O deficiente auditivo não usa de forma totalitária a língua de sinais e se relaciona um pouco melhor no grupo dos ouvintes, tem mais facilidade de leitura em textos em português, consegue fazer uma leitura labial e até falar. O surdo também pode fazer tudo isso, mas é muito raro”. Santos enfatiza que a disponibilidade das janelas demonstra respeito a essa comunidade e que a tradução tem que ser feita por um profissional fluente em língua portuguesa e libras, "o uso da janela vai tornar o filme muito mais aceito porque ele vai ganhar uma comunidade.”

A professora surda de Libras da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Shirley Vilhalva considera que a janela de Libras faz mais falta no noticiário do que nos filmes e que “toda proposta do Conade tem o objetivo de fazer uma verdadeira acessibilidade comunicacional em todas as áreas. Mas a maior dificuldade é a televisão porque os materiais são gravados e editados a curto prazo e precisam comprar material. Então as empresas pediram para o governo 10 anos e nós estamos esperando há mais de cinco anos.”

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